Para uma linha de investigação sobre a música cabo-verdiana (II)

Sociólogo e investigador
Sociólogo e investigador

Os primeiros artigos publicados, no passado, em periódicos nacionais sobre a música cabo-verdiana, no domínio da investigação, não representam mais do que pronunciamentos circunstanciais e dispersos e podem enquadrar-se nalguma forma de “pioneirismo”, na ausência de melhores antecedentes históricos.

Todavia, qualquer que seja o entendimento da questão, os supostos “pioneiros”, cujos contributos foram, de resto, significativos, não visavam a investigação musical propriamente dita, mas, na altura, esses “cabouqueiros” terão agido de boa fé como “circunstanciais pronunciadores e não como investigadores” (Eutrópio Lima da Cruz, 2022). Em todo o caso, na construção de uma eventual historiografia da música cabo-verdiana, é imperioso inscrever figuras marcantes ligadas à música, que fizeram interessantes incursões de desbravamento nesse domínio, como importantes marcos referenciais, ainda que não se lhes reconheça o estatuto de investigadores, na aceção correta do conceito. Chame-se-lhes “pioneiros contemporâneos” (Lourenço Gomes, 2022), ou atribua-se-lhes outra designação qualquer, o certo é que as investigações mais consistentes e sistemáticas, do ponto de vista musical, só se verificariam na segunda metade dos anos 70 do século passado, primeiro, em S. Vicente, com o grupo Colá ou Kolá (1975 - 1979), e, depois, na ilha de Santiago, com Katchás ou Katchass (1951 – 1988) e Pantera (1967 – 2001), respetivamente, que estilizaram o funaná e o batuque, a partir de pesquisas de campo.

Posteriormente, na ilha do Fogo, que se carateriza pela riqueza da sua diversidade musical, Ramiro Mendes, reputado compositor, guitarrista e produtor, a partir de aturada investigação, iniciaria um trabalho meritório de estilização ou inovação de algumas expressões musicais regionais foguenses como a bandera e suas variações e o talaia-baxu ou talaia-baxo, prosseguido, mais tarde, por outros músicos e estudiosos como Kim Alves (compositor e multi-instrumentista) Lívio Lopes (compositor), Talulu (cantor e compositor) e Kwame Gamal Monteiro (percussionista). Mais tarde, a partir de 1980, na peugada dos textos consistentes da lavra de Félix Monteiro, investigador, compositor e ensaísta, e de José Alves dos Reis, maestro, professor, pianista e compositor, insertos nas Revistas Claridade (1966, nº 12, dezembro, pp- 15-23) e Raízes (1984, nº 21, junho, pp. 9 – 18), respetivamente, aparecem os primeiros livros de investigação sobre a música cabo-verdiana da autoria de Oswaldo Osório (1980), Jorge Monteiro (Jotamont, 1987), Vasco Martins (1989, 2018), Moacyr Rodrigues e Isabel Lobo (1996), Manuel Brito-Semedo (1999), Moacyr Rodrigues (2017), Vladimir Monteiro (1998), Margarida Brito (1998), Alveno Figueiredo e Silva (2003), César Monteiro (2003, 2011, 2022), Manuel Jesus Tavares (2005), Carlos Filipe Gonçalves (2006, 2019), Glaúcia Nogueira (2015, 2016), Alcides José Delgado Lopes (2017) e Maria de Lourdes Évora Pereira (2018), este último de cunho biográfico inteiramente consagrado à mãe da autora da obra, a pianista e compositora Tututa Évora. A partir de 2019, publicam-se, em livro, separadamente, letras de composições transcritas para pauta musical da autoria de Amílcar Spencer Lopes (Miquinha, 2019), Pedro Celestino Correia (2020) ou Eutrópio Lima da Cruz (2020), devidamente contextualizadas e fundamentadas.

Do ponto de vista da avaliação das investigações publicadas até finais do século passado e já referenciadas, a maior parte carateriza-se pela sua natureza essencialmente descritiva, faltando-lhes, todavia, a análise interpretativa, a metodologia e o rigor científico que só a academia transmite ao pesquisador. Todavia, reconhecendo o mérito e a importância das diversas obras consagradas à música cabo-verdiana, assinale-se maior rigor metodológico e aprofundamento da pesquisa qualitativa, mormente a partir da primeira metade deste século. Neste sentido, a contribuição da Universidade de Cabo Verde (UNICV), através, designadamente, de monografias, dissertações ou teses consagradas à área da música cabo-verdiana, tem-se revelado importante com destaque, entre outras, para a tese de doutoramento ainda não publicada de Carmem Barros Furtado intitulada Muzikas e ka Músikas defendida em 2014 e de que fui arguente. Já no plano externo, algumas Universidades, em Portugal, frequentadas por estudantes cabo-verdianos, têm produzido monografias, dissertações e teses doutorais sobre a música cabo-verdiana com realce para o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, a Universidade Nova de Lisboa, a Universidade de Coimbra e a Universidade do Porto. Contudo, a investigação académica sobre a música cabo-verdiana não se circunscreve aos estabelecimentos de ensino universitário portugueses, mas estende-se a Universidades brasileiras e americanas, onde, aliás, se têm perfilado prestigiados estudiosos, nessa área específica do conhecimento. No Brasil, por exemplo, a antropóloga Juliana Braz Dias defendeu, em 2004, a sua tese de doutoramento (não publicada) inteiramente consagrada às mornas e coladeras de Cabo Verde. Seguramente, um estado da arte sobre a investigação da música cabo-verdiana, a ser feito, permitirá inferir a existência de vários estudos publicados, cuja dispersão e fragmentação exigem, por isso mesmo, a definição de uma linha ou programa de pesquisa assente na seleção de um conjunto de áreas temáticas pertinentes, dimensões analíticas claras, metodologias, estratégias adequadas e projetos concretos.

Produto, em parte, da diversidade e da complexidade dos géneros e expressões, as áreas temáticas da música cabo-verdiana abrangem um leque variado de questões, designadamente, a relação entre a música e as estruturas sociais, isto é, como é que os géneros musicais se associam a configurações sociais e territoriais. Neste quadro, a educação musical, considerada deficitária e territorialmente descontínua, no plano nacional, assume-se como outra potencial área temática de interesse investigativo e pode vir a constituir-se, no futuro, como uma das principais alavancas da música cabo-verdiana a nível de todas as faixas etárias, desde os jardins de infância, passando pelos ensinos primário e secundário, até aos estabelecimentos universitários. A componente linguística e literária é outra temática essencial de uma linha de investigação sobre a música cabo-verdiana que se preze. Diferente da linguística, tout court, a literatura, no âmbito de uma análise interdisciplinar e holística, é, sem dúvida, uma importante fonte de conhecimento sociológico, histórico ou político e pode, inclusive, fornecer inputs à própria música e, logo, inserir-se perfeitamente no âmbito de uma linha de investigação musical mais abrangente.

Igualmente, constitui outra vasta e importante área temática de investigação o chamado “campo musical” (Bourdieu) cabo-verdiano, que abrange, de forma equilibrada, os géneros musicais, os instrumentos, os compositores, os intérpretes e todos os agentes que, de algum modo, tenham alguma relação com a música e, também, aquelas expressões musicais como o kotxi pó e o tranka fulha, que se concentram, preferencialmente, na cintura suburbana da Praia e contam com uma base ampla de apoio de jovens. Para lá das áreas temáticas, das dimensões analíticas, dos objetivos concretos, das estratégias, dos recursos financeiros humanos e dos projetos estruturantes que comporta, uma linha de investigação sobre a música cabo-verdiana tem, necessariamente, de assentar na interdisciplinaridade e no diálogo intercultural, tudo de maneira articulada, coerente, consistente e sistemática.

Fim da segunda e última parte. Texto adaptado de uma Conferência proferida no passado dia 23 de abril, na Mediateca da Universidade de Cabo Verde do Campus Grande do Palmarejo.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1067 de 11 de Maio de 2022. 

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Autoria:César Monteiro | Sociólogo e investigador,16 mai 2022 7:54

Editado porAndre Amaral  em  16 mai 2022 7:54

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