Periferias: custos económicos, sociais e emocionais

PorAmílcar Spencer Lopes,24 out 2022 7:55

Tendo eu nascido e sendo criado em São Nicolau e tendo mantido, até agora, uma relação permanente com aquela ilha, perece-me ser natural que me interesse e defenda, sem inibição de qualquer tipo, o progresso da minha ilha e o bem-estar da sua população. E até que seja, muitas vezes, tido e visto como defensor acérrimo dos interesses daquele torrão natal.

A verdade, porém, é que vejo, sempre vi, Cabo Verde como um todo. 

Como tal, só posso imaginar o desenvolvimento de Cabo Verde, se nele estiver integrado a ilha de São Nicolau. Como não me passa pela cabeça pensar o desenvolvimento da ilha de São Nicolau desintegrado ou desenquadrado, do desenvolvimento de Cabo Verde. 

Geograficamente falando, a ilha de São Nicolau é, seguramente, das ilhas do arquipélago de Cabo Verde, a situada mais ao centro do território nacional (terrestre e marítimo). 

Paradoxalmente, ela é, a meu ver, a mais periférica de todas, senão mesmo a única, actualmente. 

Efectivamente, no grupo das periféricas, ela costumava ser alinhada pelos Poderes Públicos, com a Boa Vista, a Brava e o Maio. Se alguém duvida disso, é só consultar os montantes de fundos públicos transferidos e publicados, por exemplo, em 2004 ou em 2005, a título do FEF (Fundo de Equilíbrio Financeiro), apesar de ela possuir, ao tempo, três vezes mais população, que qualquer das outras três referidas e da sua dimensão relativa, para mais, povoada de forma muito dispersa. 

Os anos passaram-se e, com o Turismo, a Boa Vista descolou- se desse grupo, ganhando outra dinâmica e alguma autonomia financeira local. 

A Brava, como está acoplada ao Fogo, através da designada Região de Fogo e Brava, sempre vai apanhando umas migalhas de atenção dos Governantes, que frequentemente visitam a primeira ou beneficiando, indirectamente, dos transportes que escalam quase diariamente o porto de Vale dos Cavaleiros ou com destino ao aeródromo de São Filipe. 

O Maio está às portas da Capital, o que é uma grande vantagem quando se pensa em distâncias, ligações aéreas e marítimas e relações mercantis. 

É por isso, pois, que considero que a ilha de São Nicolau é, neste momento, a mais periférica, não obstante a sua localização na parte mais central, do Arquipélago. 

Senão, vejamos a situação actual, de São Nicolau: Tem duas ligações aéreas, semanais com a Praia. Uma directa, às segundas-feiras e outra via Sal na ida, com regresso via Sal e São Vicente, às quintas. Deste modo, um passageiro que precise ir a SN, procedendo da Capital, viaja, na melhor opção na segunda e, para regressar, ou espera pela segunda-feira da semana seguinte ou, se tiver sorte e dinheiro, regressa na quinta. Porém, enquanto a passagem de ida custou-lhe 11.650$00 (onze mil, seiscentos e cinquenta escudos), a de regresso fica pela módica quantia de 34.050$00 (trita e quatro mil e cinquenta escudos), sem falar noutros inconvenientes relacionados com as escalas e a duração da viagem. 

Em matéria de transportes marítimos o barco Mar Liso sempre vai fazendo a cabotagem praticamente diária (ou quase) com São Vicente e ainda bem porque, doutro modo, o pequeno comerciante de SN que, sacrificada e teimosamente, ainda sobrevive, já teria fechado as portas, perante a falta de produtos importados para comerciar. Por outro lado, o Mar Liso não transporta passageiros nem tem capacidade para contentores e outra carga volumosa. 

Tudo o resto, em matéria de ligações marítimas, é feito um bocado na base de “quando calha”: Em princípio, há uma ligação quinzenal SV-SN-Praia, garantida pelo ferry Liberdade, se não houver alterações no programa, como acontece bastas vezes e o navio Inter- -ilhas que vinha fazendo, quand même, uma ligação semanal SV-SN-Sal-Boa Vista, deixou de operar nessa rota.

Convenhamos, que promover desenvolvimento económico nestas condições é, no mínimo, duvidoso. E para só falar de economia – logo, dos transportes, apesar de muitos outros sectores merecerem, igualmente, o meu agravo. 

No entanto, a ilha lá vai contribuindo, como pode, para o desenvolvimento do país, com profissionais qualificados a operar em todos os sectores, em todo o território nacional; lá vai exportando algum pescado, não obstante as conhecidas limitações de captura; lá vai contribuindo com remessas dos seus expatriados, no estrangeiro, para as reservas nacionais de moeda estrangeira. E mais, e mais… 

Quando o bolo é repartido fica-se, no entanto, com o travo amargo de falta de solidariedade nacional. E ainda pede-se aos jovens que se deixem ficar na sua ilha. À míngua, provavelmente, não fossem as remessas das mães que labutam na Itália, por exemplo ou do alívio financeiro para as famílias daqueles que buscaram emprego no Sal, na Boa Vista ou em São Vicente. 

A situação é dramaticamente crítica e demanda, a meu ver, outra atenção dos Poderes Públicos. 

O pior, porém, é que essa situação passou a ser considerada como normal, de tão duradoura e banalizada que está. 

Fica-se com a impressão que a ilha deixou de ter representantes constituídos, sociedade civil ou população activa. De tempos a tempos, geralmente por alturas das comemorações municipais, alguma Comunicação Social dá conta de certa insatisfação, queixa ou desabafo dos edis, relativamente ao isolamento e aos padecimentos da Ilha, perante o descaso ou a insensibilidade incompreensível e inaceitável, das autoridades centrais. 

Talvez seja hora de se pensar numa forma de compensação dos custos económicos, sociais e até emocionais para as populações das regiões ditas periféricas, da mesma forma que se vem falando, de há muito e no outro extremo, dos custos da capitalidade, aliás, aceites e constitucionalizados, com o ambicionado Estatuto Especial, da Capital.

Texto publicado originalmente na edição nº1090 do Expresso das Ilhas de 19 de Outubro

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Autoria:Amílcar Spencer Lopes,24 out 2022 7:55

Editado porAntónio Monteiro  em  24 out 2022 9:29

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