Contudo, mesmo neste cenário, não faltaram vozes que procuraram transformar a tragédia em instrumento político, explorando a vulnerabilidade coletiva para ganhos imediatos. É precisamente contra essa tentação que devemos ser claros: este não é o tempo da politiquice. Este é o tempo de escutar a ciência, porque só ela nos fornece a bússola capaz de orientar Cabo Verde na avaliação dos estragos, na reconstrução e na construção da resiliência climática que há tanta falta faz.
Muito antes deste desastre, a ciência vinha deixando alertas claros. O relatório do Banco Mundial Sailing Rough Seas (Navegar em Mares Agitados), publicado em 2023, afirmava que “uma inundação que tem 1% de probabilidade de ocorrer em 100 anos em Santiago e São Vicente pode gerar perdas de 1,88% do PIB, equivalentes a cerca de 37 milhões de dólares”. Hoje, os engenheiros estimam que os estragos em São Vicente devem rondar os 30 milhões de euros. A coincidência entre a projeção científica e a realidade atual soa quase como uma profecia. A ciência antecipou os riscos, quantificou-os e alertou para a sua gravidade
Há cerca de nove anos, na sua primeira visita técnica a São Vicente, a Ministra Eunice Silva chamou a atenção para os riscos do crescimento desorganizado, sublinhando a importância de um planeamento urbano adequado. A declaração, tecnicamente inquestionável, foi politizada, deturpada e ridicularizada. A Ministra foi alvo de injúria porque, para alguns, era mais importante criar a percepção política de que professava contra São Vicente. Hoje, ao vermos a vulnerabilidade exposta da cidade, percebemos que aquele alerta estava certo.
Mas também temos exemplos de quando a ciência foi ouvida e transformada em política pública. O Fundo de Emergência é talvez o mais evidente: nasceu de uma visão ancorada na análise de especialistas e da recomendação de organismos internacionais, e hoje revela toda a sua importância. Não apenas porque permite uma intervenção imediata do Estado em situações de calamidade, mas também porque constitui a base necessária para acionar mecanismos internacionais de resposta rápida, como o financiamento já disponibilizado pelo Banco Mundial no valor de 10 milhões de euros.
Outro exemplo visionário é o acordo de conversão da dívida pública com o Tesouro português em Fundo de Intervenção Climática. Muitos não compreenderam, à época, a sua relevância. Mas hoje percebemos que este instrumento inovador representa exatamente o tipo de resposta estrutural que precisamos para enfrentar riscos climáticos sem agravar ainda mais as finanças públicas.
E se é verdade que a ciência nos dá a bússola, não menos verdade é que a solidariedade é a alma que nos move. O que vimos em São Vicente nos últimos dias foi uma extraordinária onda de solidariedade — o nosso eterno “Djunta Mon” — que mobilizou instituições públicas, forças armadas, proteção civil, congregações religiosas, associações comunitárias, cidadãos anónimos, a diáspora e a comunidade internacional. Este espírito não é novo: durante a pandemia, num momento em que a emigração enfrentava dificuldades nos países de acolhimento, assistimos a um fenómeno inesperado e comovente, o aumento das remessas enviadas às famílias em Cabo Verde. Esse gesto, que contrariava todas as previsões económicas, demonstrou que a solidariedade é uma característica fundante da cabo-verdianidade. O Djunta Mon não é apenas uma reação episódica; é a alma coletiva de um povo que se fortalece nas crises e transforma a dor em energia para reconstruir.
No rescaldo da tragédia, o debate mais intenso nas redes sociais foi a previsão meteorológica. Muitos exigiram previsões 100% precisas, como se fosse possível antecipar com exatidão absoluta o comportamento da natureza. É preciso esclarecer: previsões perfeitas não existem em parte alguma do mundo. O grau de precisão depende da densidade das redes de medição e da disponibilidade de sensores terrestres, marítimos e aéreos, de radares e de acesso a dados de satélite. Cabo Verde, pelas suas limitações, não dispõe de uma rede suficientemente densa de instrumentos de medição e por isso a nossa margem de erro é maior. Quantas vezes vimos serem anunciadas chuvas e elas não chegam?
Não devemos, no entanto, confundir limitações com resignação. Recentemente, participei no Seminário sobre Planeamento de Próxima Geração em Inteligência Artificial, na Universidade de Nanjing, na China, onde pude acompanhar a apresentação do Professor Tinghuai Ma, intitulada “Meteorological Big Data for Disasters Prevention and Reduction”. Foi impressionante constatar como a China, com uma rede de cerca de 76.000 estações meteorológicas, em que cada barco é, por si só, uma estação móvel de recolha de dados, consegue, através da integração de big data e inteligência artificial, atingir níveis de previsão extraordinariamente precisos. Cabo Verde nunca poderá replicar essa escala, mas pode aprender com essas experiências, reforçar a cooperação internacional e investir em soluções adaptadas à nossa dimensão.
Os relatórios internacionais são, na verdade, bússolas que nos mostram com clareza os caminhos a seguir. O Sailing Rough Seas não se limitou a quantificar riscos; foi mais longe, recomendando o reforço da resiliência institucional, o investimento em infraestruturas críticas, a ampliação da proteção social e a melhoria das capacidades de previsão e resposta.
O CCDR Cabo Verde, também do Banco Mundial, foi ainda mais incisivo, alertando para a vulnerabilidade estrutural das nossas infraestruturas. Lembra que “dois terços da população vivem em áreas urbanas, muitas vezes sem planeamento adequado, e que um quarto da população da Praia reside em assentamentos informais, particularmente expostos”. Sublinha, ainda, que “até metade das redes rodoviárias de cinco ilhas podem ser afetadas por inundações severas, e que, em São Vicente e Santiago, essa percentagem sobe para 70% e 90%”. Aponta também os riscos que pesam sobre portos, aeroportos e até hospitais e escolas costeiras, todos ameaçados pela subida do nível do mar. Estes dados são inequívocos: ou ouvimos a ciência e transformamos as recomendações em políticas, ou condenamo-nos a enfrentar tragédias repetidas.
São Vicente ficará na história como a pior catástrofe de sempre em Cabo Verde. Mas não pode ficar apenas como memória de dor e destruição. Deve tornar-se um ponto de viragem, uma oportunidade singular para colocar a resiliência climática no centro da ação política nacional.
Não podemos permitir que um pequeno grupo ruidoso capture este momento para a politiquice, desviando o país do essencial. O essencial é compreender que a ciência já diagnosticou os riscos e apontou os caminhos, que a solidariedade já mostrou que temos alma coletiva para enfrentar a adversidade, e que cabe agora à política ligar estas duas forças, transformando conhecimento em ação, relatórios em medidas concretas, alertas em prevenção e reconstrução.
A ciência é a bússola. A solidariedade é a alma. E juntas, ciência e solidariedade, são a garantia de que Cabo Verde não só resistirá a esta catástrofe, mas sairá dela mais forte, mais preparado e mais capaz de enfrentar os desafios climáticos que se avizinham. Ignorar esta oportunidade seria condenar-nos a reviver tragédias. Aproveitá-la é honrar a dor vivida e transformar São Vicente no marco de um novo compromisso nacional com a resiliência climática.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1238 de 20 de Agosto de 2025.