Não se pode esperar que a ilha saiba nadar, mas espera-se que com um planeamento plenamente eficaz (se aprovado pela tutela e publicado no B.O.), orientador da organização e desenvolvimento do território e uma fiscalização permanente, a tornem resistente preparando-a para receber as águas pluviais. As ilhas, para infelicidade nossa, têm dado provas de impreparação tanto para o sol como para a chuva. Para as temperaturas elevadas, que são o pão nosso de cada dia, o desconforto térmico é gritante quando podia ser perfeitamente atenuado. Para a chuva, sempre os mesmos problemas que não só não têm sido resolvidos, como são agravados com o aumento da superfície de impermeabilização do solo (asfaltagem e construções). Frágeis, fabricam-se problemas que o país sozinho não consegue desenvencilhar.
Após a tempestade sem bonança, com perda de vidas humanas e não humanas, as famílias, as empresas e a ilha inteira sofreram avultados prejuízos. São Vicente vê-se obrigada a inventar forças para erguer-se do chão. É expetável e mais do que justo, que os dedos sejam apontados para os responsáveis pela gestão da ilha. Logo, é natural, diria até orgânico, as muitas críticas aos órgãos eleitos para administrar o Município. E estes, perante a exposição inegável das evidências, deviam ter juízo, inteligência e modos para acomodar essas críticas. Mudarem o “chip” e convencer, com atitudes de qualidade, os cidadãos que estão aptos para ocuparem o lugar que ocupam. No fundo, deviam fazer o que é suposto fazerem. Seguir precisamente o que o Presidente da CMSV, desajeitadamente, veio à comunicação social, sugerir aos munícipes mais críticos: trabalhar.
Porque é sabido que quando se trabalha com persistência e comprometimento com o desenvolvimento da ilha e o bem-estar da população, os resultados aparecem. E penso que mais de uma década ao volante da ilha, é tempo mais do que suficiente para revelar as habilidades do condutor. Os factos escrevem por mim.
A administração local e central (a ordem não pode ser outra) têm falhado com os sãovicentinos.
A prova disso está na boçalidade com que reagem às críticas mais do que legítimas da população. A prova disso está na comunicação social que, sabendo à partida que o argumento do burro é o coice, acautela-se ao escolher a dedo as palavras para os abordar. Quando a primeira pergunta que deveria ser feita aos principais responsáveis (por áreas como o planeamento e ordenamento do território, habitação, saneamento, ambiente) da ilha, deveria ser: “o que falhou em São Vicente? “
Sim, o que falhou? Entre uma catrefada de outras coisas, foi uma agenda vocacionada para resolver os problemas estruturantes da ilha. Essa foi há muito substituída por uma eleitoralista.
Sim, o que falhou foi a falta de verticalidade e de sentido de estado de políticos que faz com que se rasgue os pareceres de técnicos, os verdadeiros especialistas, levando adiante os interesses privados e ocultos.
Sim, o que falhou foi uma gestão da ilha feita à margem de um instrumento chave de gestão territorial como o Plano Diretor Municipal (PDM). Instrumento esse que muito se criticou à Câmara Municipal por não o ter e que o seu Presidente veio orgulhosamente chamar a comunicação social para desmentir tão infame acusação, exibindo-o. Só que é assim, (e aí deixo à consideração do leitor) é mais grave não ter um Plano Diretor Municipal ou ter um que nunca saiu do papel? O mais plausível não seria ter um PDM e executá-lo escrupulosamente?
“Ah, mas São Vicente toda a gente sabe que é só ribeiras”. A sério, senhor Presidente? E a vizinha Santo Antão, também não as terá? Nós sabemos. Mas também sabemos - como sabemos que a água do mar é salgada - o que acontece quando se licencia ou permite-se construções em zonas de risco. Como também sabemos que é preciso assacar responsabilidades políticas de erros grosseiros cometidos na ilha de São Vicente e desconfio que em todo o país. Como também sabemos que onde não há responsabilização, não há responsabilidade. E onde não há responsabilidade não há culpa. E que nossas vidas, valiosas, não podem estar entregues nas mãos de lunáticos irresponsáveis.
Esta escrita não tem o intuito de avaliar apenas o desempenho do Presidente da Câmara Municipal de São Vicente”, Dr. Augusto Neves. Até porque, embora não pareça, o Presidente da Câmara Municipal de São Vicente não é o único órgão responsável pela administração do município. Se a constituição não tiver conhecido o mesmo destino que o PDM de São Vicente, são três os órgãos distintos que têm ao seu encargo a gestão da ilha. O Presidente da Câmara Municipal de São Vicente, a Câmara Municipal, e a Assembleia Municipal (composta por deputados municipais). Um tripé bambo e notoriamente desarticulado que deve ser responsabilizado. Agora, se o poder está personificado numa só figura, ou num só órgão, é sinal que a democracia carece urgentemente de terapia porque isso é sintoma de modelos ditatoriais.
O sistema democrático é o mais “chatinho” de todos. E não pisca o olho a déspotas.
Imagina. Não admite concentração de poderes. Exige transparência e prestação de contas. Os governantes devem ser escrutinados de perto pela comunicação social, pelos cidadãos e restantes órgãos de soberania. A opinião pública espera-se, atenta e crítica. E a democracia a cumprir-se num clima de permanente esclarecimento, respeito mútuo e auscultação da população.
E os planos? E a polémica em torno do Plano Diretor Municipal “? Os planos só fazem sentido uma vez executados. A liderança política não tem tido recursos morais que chegue para tanto. E, a população que poderia exigir retidão, encontra-se treinada para ser um bom sofredor em vez de bom cidadão.
Esse Cabo Verde cumpridor e humanizado que necessitamos dificilmente germinará. O solo para além de contaminado é pobre. Não admite vida, prende as mãos dispostas a reabilitar a terra.
Os sãovicentinos, magoados, há muito que sentem a ilha em declínio. A escorregar. E é natural visto que o único plano para a ilha é o inclinado.
Mindelo, 26/08/2025 Antónia Môsso