É o tema, por excelência, de conversas, debates e anúncios dos últimos três anos, diria, em todo o mundo. E só estamos no início. A Inteligência Artificial (IA) tem dominado a agenda do planeta. Países como os EUA e a China (actualmente as duas superpotências*) andam a investir trilhões de dólares nessa corrida à IA, mas continuam inúmeras as questões sem respostas, receios a invadir os cépticos, e empresários que aguardam o momento para tirar partido de tudo.
Na verdade, o assunto não é de hoje, sobre o tema já se fala desde 1950, no mundo académico. As técnicas, e métodos aplicados à IA não mudaram em décadas. Lembro-me de os ter estudado, na Faculdade, já lá vão 30 anos. O facto é que a IA durante estas duas últimas décadas esteve quase que estagnada, dando asas à corrente dos céticos que nunca nela acreditaram.
O salto que se deu ultimamente, com o aparecimento de aplicações práticas do dia-a-dia, sobretudo no que concerne à vaga da IA de percepção, deve-se essencialmente a dois factores: 1º) Os computadores estão cada vez mais potentes, com velocidade de processamento cada vez maior. 2º) O surgimento de quantidades astronômicas de dados disponíveis como amostras para treino das máquinas (quanto mais melhor). Basta ver o exemplo da China.
Afinal, de maneira simples, o que é isso de Inteligência artificial?
O ser humano sabe que só conseguiu superar os outros seres vivos do planeta graças à sua Inteligência. Não somos mais rápidos, não somos mais altos nem mais fortes, somos sim, mais inteligentes. E é isso que nos dá supremacia, permite-nos dominar os outros seres. Somos dotados de inteligência superior, mas, ao mesmo tempo, limitados pela rapidez e capacidade de grandes processamentos por unidade de tempo. Diria: ´somos inteligentes limitados´.
Em relação ao conceito de Inteligência, há várias correntes no seio do mundo académico, mas continuamos sem uma definição correcta, unânime. Até hoje, não há consenso sobre o que é a Inteligência, e certamente não será pelo famoso teste de QI, que lá chegaremos. Se seguirmos autores como MAX TEGMARK, do MIT**, Inteligência, no sentido amplo, pode ser vista como: a capacidade de realizar tarefas e objetivos complexos.
Antes de mais, temos que perceber bem o fundamento de toda essa teimosia em apostar na IA. O que move o cientista a continuar a investigar. O argumento inicial, de peso, é que a inteligência não é apanágio do Homem, nem é exclusividade de nenhum ser que respira. ´Inteligência não tem a ver com sangue, com pulmão. Inteligência tem mais a ver com informação e computação´ segundo MAX TEGMARK.
O computador realiza tarefas com instruções e dados, e fá-los com grau cada vez maior de complexidade. Em muitas áreas, ele é muito melhor que o Homem (basta ver a famosa derrota do campeão mundial de xadrez por um computador) porque consegue processar muito mais rápido que o humano, quantidades astronômicas de dados. Ou seja, do ponto de vista teórico, nada impede o computador de vir, um dia, a ser inteligente ou super inteligente, quiçá superando o Homem. Precisamos é treiná-lo, e treiná-lo. No fundo, ele precisa aprender. E não é o que fazemos quando vamos à escola?
O ser humano é dotado de um cérebro, o nosso centro de comando e processamento de toda a informação. Até hoje, infelizmente, não conhecemos completamente o funcionamento desse órgão, hipercomplexo. Sabemos, no entanto, que é constituído de neurónios, que não são poucos, ´apenas´ 100 mil milhões, e que se interligam entre eles por chamadas sinapses, capazes de influenciar o comportamento dos vizinhos. É através dessa rede de neurónios, com impulsos em cadeia, que o nosso cérebro consegue processar informações, armazenar e comandar tudo.
Inspirando e imitando o cérebro humano (lá onde é possível), com redes de neurónios artificiais (modelos parametrizáveis), que os cientistas da IA querem levar a aprendizagem, componente essencial da inteligência, ao computador, e a verdade é que temos conhecido progressos enormes nestes últimos anos.
O computador quando é submetido a quantidades enormes de dados para a sua aprendizagem (deep learning), tem assimilado padrões diversos e resolvido tarefas complexas, com resultados deveras surpreendentes, superando o humano, em áreas como reconhecimento da voz, de imagem, na tradução, nos carros autônomos. O famoso ChatGpt é um exemplo bem sucedido da aplicação de redes neuronais.
Até onde iremos na pesquisa na área da IA? atingiremos o ultimo grau de desenvolvimento de IA que descreve uma máquina que pense por si, super inteligente, autônoma, com sentimentos, com emoções, com capacidade própria de decisão? Ninguém sabe. O mais importante é que não se perca o controlo das máquinas, e que sejam sempre nossos aliados.
Inútil, a meu ver, é estar a prever que daqui alguns anos teremos isso ou aquilo. Deixemos esse exercício para os gurus que, aliás, nunca acertam. Essa máquina super inteligente, emotiva e conselheira do ser humano, ou esse Robot exterminador, a fazer tudo e mais alguma coisa, podem ser produtos que nunca mais sairão dos filmes de ficção científica.
Ainda estamos muito longe...
Praia, 31 de Outubro de 2025
*Master em Engenharia Software (Genève, Suiça-1993)
homepage









