Enquanto agente cultural e indivíduo não isolado, o músico, parte de “teias de interdependência”, na expressão do reputado sociólogo alemão Norbert Elias (1939), em que ele próprio se relaciona e se molda, independentemente da sua condição de músico de ouvido ou de “tocador de pauta, não só interpreta, executa, mas também difunde símbolos culturais, que, por seu turno, influenciam os comportamentos do artista, os seus modos de vida e os seus códigos sociais, estes últimos considerados elementos essenciais do processo de socialização e de integração social (Durkeim, 1893).
Em contraposição àquilo que alguns erroneamente advogam, ser músico é, em última análise, ter uma ligação e habilidade para se comunicar, através da arte sonora, manipulando elementos musicais, tendo em vista a expressão de emoções e a criação de obras, não importa a profundidade e o alcance dos conhecimentos musicais teóricos e académicos do artista, ou o manejo da partitura, em razão, em última análise, da dinâmica dos contextos sociais onde se insere e, sobretudo, do seu estatuto social ou das suas posições sociais. Daí que o conceito sociológico de músico não decorre tão somente do mero talento individual e da competência técnica (Luís Melo Campos, 2007) e se define, essencialmente, como um agente criador de identidade, de culturas e de relações sociais e, igualmente, um artista inserido em contextos estruturais de produção e consumomarcados, de resto, por assimetrias de poder mais ou menos acentuadas. Aliás, é no seio dessa rede de relações sociais relativamente assimétricas onde decorrem os ditos processos de socialização, de iniciação e de aquisição de competências musicais e de eventuais passos subsequentes no sentido da afirmação do artista no plano musical.
Por imposição da natureza da sua atividade profissional artística, o músico, que é uma pessoa normal criadora, intérprete e portadora de “duas identidades e duas vidas distintas e paralelas”, do ponto de vista da estrutura da personalidade, socorrendo-me de uma elucidativa expressão de Carla Estrela (2020), psicóloga social, vive, na generalidade, uma “dupla vida”, expressa na dualidade entre a vida pública e a privada podendo, no entanto, no limite e na ausência de uma gestão equilibrada e conciliatória entre as duas esferas complementares, traduzir-se, numa potencial fonte de conflito e de tensão. Contudo, nessa dualidade de modos de viver do artista musical, que medeia e oscila entre a vida pública e a privada ou pessoal, também potencial fonte de inspiração criativa, o palco assume-se como um espaço de equilíbrio e de ligação com o público, onde o músico apresenta o produto final da sua criação, para fins de legitimação, através de um interessante reportório estruturado em géneros ou expressões também musicais. Mais voltado para a sociedade e o palco, a vida pública do artista está virada essencialmente para o mundo da música e do espetáculo, para festas e noitadas, o que pressupõe ausências mais ou menos prolongadas do ambiente familiar do artista e alguma pressão sobre ele próprio.
Diferentemente daquele padrão mais virado para o público, o segundo modelo está voltado essencialmente para a família do músico, para o convívio familiar e para um círculo mais restrito, que, de resto, não é muito conhecido. Na sua relação direta com o público, o músico, enquanto artista e ator social, lida e coabita com esses dois mundos diferentes e complementares, potenciais fontes de conflito, de forma particularmente intensa, isto é, a pressão exercida sobre ele é maior, as expetativas também o são, o que o obriga, na perspetiva do psiquiatra e compositor Manuel Faustino (2020), a apresentar-se no palco com uma “certa postura”, geradora, naturalmente, de uma situação de tensão. Entre a esfera pública e a privada do músico persiste um certo conflito permanente que este último deve gerir com algum cuidado evitando, assim, situações extremadas que possam comprometer o seu equilíbrio emocional, tanto nas suas relações familiares como na sua atividade musical em palco. Contudo, não sendo regra, o músico, em situações pontuais, refugia-se na bengala do alcoolismo, consoante as circunstâncias, como mecanismo de escape ao controlo social que é exercido sobre ele e, neste sentido, o palco, enquanto espaço mágico de interação social, poderá funcionar como descompressor social que alivia o estresse e a tensão acumulados, onde, afinal, o artista despe a veste e privado, deixa-a em casa e sente-se realizado naquele momento de comunicação. Considerado “mecanismo de alívio e refúgio”, o músico precisa do palco, um dos principais lugares e mecanismos de legitimação pública do seu produto artístico final. A despeito da sua grandeza, manifestam-se com maior facilidade atitudes egocêntricas e narcisistas incentivadas e alimentadas pelo público e vêm ao de cima as suas fragilidades e paradoxos, na esfera musical, em confronto com a esfera privada reservada à família e ao círculo mais restrito.
Quando sobe ao palco, o músico, às vezes e em determinadas circunstâncias, coloca a “máscara social” (Erving Goffman, 1993), disfarça o egocentrismo e o narcisismo que o perseguem, transfigura-se e torna-se noutro personagem. Em sentido contrário, há músicos que, não estando “mascarados”, são artistas autênticos e se realizam no palco, “os gestos e as palavras são autênticos, não precisam de mascarar” (Manuel Faustino, 2020), tudo corre e flui naturalmente. No entanto, sempre que no palco não consiga, por qualquer circunstância, atingir expetativas geralmente elevadas do público, o músico é confrontado com problemas de ordem emocional e comportamental que, de resto, se agravam com conflitos familiares e desembocam, muitas vezes, na solidão, no isolamento, na depressão e noutras manifestações e comportamentos similares. Com efeito, há tensões muito fortes no palco e fora dele difíceis de gerir que podem, inclusive, exacerbar alguma dificuldade que eventualmente já tenha o músico. De entre outros problemas que enfrenta o músico destaca-se a depressão determinada essencialmente pelo contexto social que o rodeia, como é que é visto em casa e no palco, isto é, no entendimento do psiquiatra Daniel Silves Ferreira (2020), o estresse e expetativas goradas podem levar o músico a um certo retraimento social, ao isolamento e à depressão que, se não forem devidamente controlados, podem conduzir o músico a tentativas de suicídio, ou mesmo ao suicídio.
No plano internacional, a julgar por um estudo realizado pela Universidade de Londres no final da década de 2010, os músicos registam uma das maiores taxas de suicídio, comparativamente com outras profissões na Inglaterra e nos Estados Unidos da América. Já em Cabo Verde, diferentemente, pelo que me é dado conhecer, as estatísticas apontam apenas para tentativas de suicídio entre músicos, não havendo nenhuma indiciação de nenhum caso de suicídio desta categoria social artística. Curiosamente na busca de equilíbrio, de alívio para os problemas de frustração e depressão e de isolamento, o uso do álcool é muito frequente pelos efeitos aliviadores que tem num primeiro momento para, logo depois, agravar a situação. Em casos extremos, reconhece o psiquiatra, a situação dos músicos no país poderá conduzir a comportamentos que, por sua vez, estarão na origem de problemas de saúde mental, e a doenças mentais mais estruturadas, nomeadamente a pressão, a psicose e a dependência.
A análise da persistência de um outro “comportamento desviante” (Becker, 1985) típico da prática profissional do músico cabo-verdiano, que gravita em torno do chamado campo musical (Bourdieu, 1992), na perspetiva também da saúde mental, não tira o primor a esta categoria social artística específica, nem sequer a representação social positiva de que beneficiam traduzida essencialmente em maior prestígio e reputação social. Pelo contrário, longe de qualquer tentativa de rotulação ou “estigmatização da carreira” (Becker. 1985), a análise correta do perfil sociológico do músico, centro nevrálgico do “facto musical” (Green, 1993), decorre da necessidade de uma análise mais densa e profunda das suas caraterísticas socioeconómicas, culturais e de carreira, suas origens e valores, suas forças e fraquezas, tendo em mira o reforço da sua integração social.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1260 de 21 de Janeiro de 2026.
homepage








