A remoção da vedação metálica que lhes tapava o horizonte, devolveu à cidade um dos seus bens mais preciosos: a vista aberta sobre o mar. Uma vedação tão agressiva quanto o show pernicioso que um certo David — que nem príncipe é, muito menos rei — quis impor neste naco de chão de todos nós! Estes dez grãozinhos de terra são nossos e não estão à venda! A sociedade civil não pode continuar permissiva: deve opor resistência firme a todos os shows, sejam in ou off. Se monitorarmos bem o in, o off não encontra espaço para se impor.
Os praienses podem tranquilizar o Fábio Ramos: o showman do poente não voltará a pintar na área e os autóctones continuarão por cá e for ever. Enfim, os pescadores da Gamboa, verdadeiros refugiados internos, recuperarão a sua faixa de praia para a labuta diária, devolvendo ao lugar a dignidade do trabalho quotidiano ao ritmo das marés.
Com o horizonte agora desimpedido e uma nova geometria na praia, como queremos crer, os capitalinos passarão a ansiar pelo acesso direto ao areal. Vejo-os — de todas as idades — nas caminhadas matinais ou ao cair da tarde, retomando posse do que lhes foi subtraído durante anos sem qualquer compensação. Caminharão saboreando cada passo, atentos ao vaivém das ondas que se desfazem na areia em mil formas caprichosas e efémeras. Subirão a pequena encosta do Trópico, unindo a Gamboa ao Farol Maria Pia, num percurso onde o corpo e a memória se reconciliam com o espaço. Pelo caminho: apreciarão o voo atento e desconfiado das aves marinhas em busca de sustento; observarão os pescadores a regressar à praia ou a fazer-se ao mar com as suas embarcações; verão as redes lançadas na esperança de algum rabo de peixe entre algas e resíduos que o mar não pára de devolver. Poderão ainda refrescar-se com uma água de coco do oásis local em formação _ se houver espaço de manobra para os catadores do sustento diário _ mas, uma água bebida sem palhinha, para não agredir o ambiente! Por último, poderão dar um tchluf despreocupado e renovar o bronzeado sob o sol tropical.
É certo que já não terão a ventura de rever o antigo estaleiro das embarcações de pesca artesanal do senhor Marciano, que foi demolido pela miragem da ganância! Mas essa ausência poderá ser compensada por uma modernidade sensata, que seja inclusiva, capaz de aliar o útil ao agradável, num diálogo harmonioso entre o passado e o presente, modernidade essa que não apague a memória, antes a valorize, que respeite as proporções, a paisagem e as pessoas, e que, longe de shows efémeros, enriqueça o lugar com autenticidade, sentido de pertença e confiança no futuro.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1261 de 28 de Janeiro de 2026.
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