A dimensão sociológica do Carnaval de S. Vicente, uma das manifestações socioculturais tradicionais mais vibrantes e representativas do arquipélago, aponta esta instituição como um “facto social” complexo, na perspetiva durkheimiana, que funciona como um espaço de subversão temporária da ordem e de inversão social, onde normas, hierarquias e valores estabelecidos são contestados, através da brincadeira e do humor. Sob forte e contagiante influência brasileira, a música, em contexto carnavalesco, mescla-se com a identidade sincrética local e popular, a sociedade sanvicentina horizontaliza-se naquele breve e intenso período de folia do carismático Carnaval da ilha, cujo epicentro é a Cidade do Mindelo, transmitindo a ideia de uma sensação de igualdade e liberdade temporária, através da imposição simbólica da máscara e de cenários fantasistas e imaginários.
Com uma fortíssima tradição localizada particularmente em São Vicente, onde, aliás, ganhou uma expressão coletiva própria e maior popularidade, o vibrante Carnaval mindelense, um símbolo da identidade da ilha, o mais emblemático do país e, ainda, um apaziguador de tensões sociais, tem procurado distanciar‑se, tanto quanto possível, do Carnaval de Rio de Janeiro e da antiga escola do sempre lembrado compositor e intérprete Gregório “Ti Goi” Gonçalves (Mindelo, S. Vicente, 10 de abril de 1920 – 17 de junho de 1991), criando, desta feita, uma linha própria e autónoma protagonizada por grandes compositores e instrumentistas mindelenses como Valdemiro Ferreira (Vlú), Constantino Cardoso e Anísio Rodrigues, a título de exemplo. Surgido em 1920, “numa espécie de continuidade do Entrudo português”, o extinto antropólogo e investigador Moacyr Rodrigues (Mindelo, S. Vicente, 09 de abril de 1933 – 23 de dezembro de 2020), numa entrevista concedida à Inforpress a 21 de fevereiro de 2020, afirmara que, inicialmente, o Carnaval do Mindelo era sustentado e animado por marchinhas, cujos precursores foram, entre outros compositores, B. Léza (Mindelo, S. Vicente, 03 de dezembro 1905 – 14 de junho de 1958) e Nha Banha. Sob a influência da música do Carnaval brasileiro e, particularmente, do samba carioca, desde o início do século XX, tem‑se vindo a assistir, de há vários anos a esta parte, a um processo de demarcação da música do Carnaval de São Vicente (Mindelo) em relação àquele ritmo latino-americano originário a partir de tradições afro-brasileiras da Bahia, no final do século XIX, que marcou tão intensamente a sonoridade das tradicionais festas do Rei Momo nessa ilha. Nos dias de hoje, o Carnaval de São Vicente, um importante “rito de passagem” de agregação, socorrendo-me de uma terminologia antropológica cunhada pelo antropólogo holandês, Arnold Van Gennep (1873-1957), e, igualmente, um mecanismo transitório do reforço da coesão social, carateriza-se pela presença de fusão musical de géneros cabo-verdianos, designadamente o mandinga, a coladera, o funaná, o batuque e o Colá San Jon, com ritmos brasileiros, isto é, “com algum cheirinho da música brasileira, que, de resto, não faz mal”. (Mick Lima, 2019). Nesta direção, têm sido envidados esforços tendentes à criação, nessa ilha, de uma música de Carnaval própria e autóctone sem, todavia, pôr de lado de todo as influências de ritmos brasileiros herdadas através da ligação histórica e estratégica entre o Brasil e o Porto Grande. O primeiro compositor que terá mexido na música do Carnaval de S. Vicente foi o experiente compositor e intérprete Valdemiro Ferreira (Vlú), afastando-se, em alguma medida, do legado histórico do samba brasileiro, num processo criativo e de busca de autenticidade.
A propósito, o saudoso Kiki Lima (Ponta do Sol, Ilha de Santo Antão, 15 de abril de1953 – Lisboa, 20 de julho de 20025) defendera, em 2019, que o processo de demarcação da música do Carnaval mindelense em relação ao samba carioca iniciou‑se, há já alguns anos, com Vlú, que “deu o pontapé de saída e passou a fazer música carnavalesca, que não sambas, fusionadas com a música tradicional cabo-verdiana, nomeadamente o batuque, o funaná e o Colá San Jon”, passando todos estes géneros a serem incluídos no respetivo reportório. Na linha da defesa de uma música de Carnaval autenticamente sanvicentina, Manuel Faustino, compositor mindelense, é da opinião que as referências e os matizes da dita batucada no Carnaval em São Vicente provêm, em certa medida, da escola brasileira. Todavia, frisa o também médico psiquiatra, “quando se ouve uma batucada, mesmo que as suas referências sejam brasileiras, vem nela incorporado um traço cabo‑verdiano claríssimo, isto é, a arrumação da sonoridade, a maneira de bater, é clarissimamente cabo‑verdiana, o que não quer dizer que não se devam cultivar estilos mais tradicionais”. (2011).
A despeito da progressiva afirmação da construção dessa música carnavalesca autenticamente sanvicentina, há quem, no entanto, critique o abrasileiramento do Carnaval mindelense e afirme que, em termos musicais, essa instituição é uma cópia da homóloga carioca, particularmente do samba, que se estabeleceu no Rio de Janeiro, no século XX, a partir da Bahia. Na posição inversa à de algumas vozes locais que criticam o abrasileiramento do Carnaval sanvicentino, mormente na sua parte rítmica, como um dos seus alegados pontos fracos, Vlú Ferreira, socorrendo-se de argumentos técnicos, sai em defesa de uma “música diferente” e aponta o caminho a seguir. No passado, esclarece o compositor e intérprete mindelense nascido na Ponta do Sol, Ilha de Santo Antão, as composições musicais do Carnaval do Mindelo eram diferentes, “muitas abrasileiradas, feitas em português, apanhava‑se uma música e metia‑se‑lhe a letra” (2017). A princípio, o próprio Vlú dizia ter influências da música brasileira e, com o tempo, o compositor demarcou-se delas, optando, hoje em dia, “por uma música de Carnaval diferente, inspirada na pulsação de São Vicente, no crioulo de São Vicente, no social de São Vicente, enfim, uma música com o social de São Vicente” (Ibidem). Reconhecendo que a música de Carnaval de São Vicente tem muito padrão rítmico, o compositor mindelense defende uma música com refrão instrumental e um refrão vocal, uma música com estrutura, totalmente livre, em termos de harmonia, e com influências do rock, enfim,uma música de Carnaval livre, que, também, “faça uma abertura, em termos de dissonantes”. (Ibidem).
Na linha de Valdemiro Ferreira, o percussionista e baixista, Mick Lima é categórico ao afirmar que “em S. Vicente deixou de haver cópia do Carnaval brasileiro” (2019). Nos seus arranjos musicais, “não toco samba, porque é preciso valorizar aquilo que é nosso, tentar inovar, fazer coisas diferentes” (Ibidem). Neste momento, prossegue o músico, no Carnaval de São Vicente quase que já não se toca o samba, que era usado antigamente, toca-se pouco ritmo basileiro e, em alternativa, “tocamos coladera, kuduro, San Jon de Constantino Cardoso, também recorro ao phunking de Carnaval”. (Ibidem). Discordando literalmente daqueles que acusam o Carnaval mindelense de abrasileiramento rítmico, Mick Lima fundamenta‑se a favor daquilo que o próprio percussionista e baixista apelida de “carnaval coladerado”. De facto, “há mais de vinte anos que tocamos aquilo que é nosso, por exemplo, na mesma música de Carnaval, executamos quatro a cinco ritmos diferentes, sem contar com a variação dos ritmos, que se chama ‘paradinha’, isto é, as habilidades que se fazem na mudança de um ritmo para outro” (2019). Além da batucada que, sim, é copiada no ritmo brasileiro, mas tocada de forma mais lenta, prossegue o também antigo baixista de Os Kings, “introduzimos ritmos da coladera estilizada, do funaná e do San Jon (…), enfim, a música do Carnaval de São Vicente passou a ser ‘coladerada’”. (Ibidem).
Pesem embora as influências rítmicas que, no passado, a música brasileira teve no Carnaval mindelense, através particularmente do samba carioca, pelo menos até à década de 70 do século XX, e sem furtar às dinâmicas aculturativas e a incontornáveis contágios musicais, o certo é que o Carnaval de S. Vicente evoluiu, de forma gradual, para o seu estilo identitário autêntico, através de uma produção musical local fusionada, que, em última análise, reflete as profundas contradições de uma sociedade insular estratificada e marcada particularmente por significativa taxa de desemprego, pela perda de competitividade e, ainda, por uma dinâmica sociocultural reinventada.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026
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