Uma Jornada de 30 Anos: Da Prática Global à Visão de Estado
A minha visão sobre o território não nasceu de abstrações teóricas, mas de uma prática de mais de 30 anos cruzando diferentes países, programas, escalas e complexidade. Esta jornada permitiu-me entender que, embora os contextos mudem, os princípios de uma boa governação urbana são universais.
A minha fundação técnica foi profundamente moldada por uma década no Departamento de Reabilitação Urbana da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Ali, na gestão de um tecido urbano consolidado e histórico, aprendi que o planeamento é um equilíbrio cirúrgico entre a preservação da identidade e a modernização infraestrutural. Mais tarde, esta perspetiva foi robustecida pela especialização em Desenvolvimento Urbano Sustentável e, de forma determinante, pela minha participação no prestigiado Internacional Leadership Program do Department of State dos EUA sobre "Sustainable Urban Development". Esta experiência internacional permitiu-me observar de perto como as nações líderes utilizam a visão partilhada e a tecnologia para criar cidades mais resilientes e economicamente vibrantes.
Somando esta vivência global à honra de ter servido durante dois mandatos como Bastonário da Ordem dos Arquitetos de Cabo Verde, a minha convicção consolidou-se: o "barato" na contratação pública de planeamento é o investimento mais caro que um município pode fazer. Um plano de ordenamento do território (PDM – Plano Diretor Municipal) ou um plano urbanístico (PD Plano Detalhado) que omite especialidades vitais é um documento que nasce desfasado da realidade e que hipoteca o futuro das próximas gerações.
O Triângulo da Modernidade: SIG, BIM e CityRAP
Um plano moderno deve ser um organismo vivo, capaz de ser gerido e atualizado em tempo real. Para isso, são indispensáveis três pilares que defendemos como padrão de excelência:
- Sistemas de Informação Geográfica (SIG) Interoperáveis: Um PDM sem base SIG é um documento cego. É o SIG que permite ao autarca e ao cidadão fiscalizar o uso do solo com precisão métrica. Sem dados espaciais rigorosos, a gestão municipal torna-se um exercício de adivinhação.
- Metodologia BIM (Building Information Modeling) à Escala Urbana: A simulação digital permite prever o impacto de grandes projetos no tecido urbano antes da primeira pedra ser lançada, otimizando recursos e reduzindo desperdícios.
- CityRAP (City Resilience Profiling Tool): No contexto de insularidade e vulnerabilidade climática de Cabo Verde, planear sem análise de risco e resiliência é uma negligência ética. O CityRAP (cuja metodologia foi desenvolvida pela UN-Habitat) fornece as métricas necessárias para que as nossas cidades e o nosso terrório resistam a eventos extremos.
Sustentabilidade e Economia Circular: O Triângulo da Competitividade Territorial
Não basta projetar com consciência ambiental; é imperativo certificar com rigor técnico. A adoção de sistemas como o LiderA, LEED ou BREEAM não é um luxo estético, mas uma garantia de eficiência que deve sustentar os três pilares fundamentais para o desenvolvimento e a competitividade do nosso território:
1. Design Físico, Identidade e Ambiente O planeamento deve ser o guardião da nossa identidade. Um design de excelência respeita a morfologia do lugar e integra soluções passivas que reduzem a pegada ecológica. Ao desenharmos cidades que celebram a nossa matriz cultural e protegem o capital natural, criamos territórios onde as pessoas querem viver, permanecer e investir. A sustentabilidade começa na forma como o edifício "fala" com a rua e com o clima.
2. Jurídico e Governança A segurança jurídica e uma governação transparente são o oxigénio do investimento. Um PDM de nova geração deve oferecer regras claras, desburocratização através de ferramentas digitais e uma estrutura de governança que permita a monitorização contínua. Sem um quadro legal robusto e previsível, a sustentabilidade corre o risco de ser apenas uma intenção no papel, sem força de execução.
3. Económico, Diversidade e Complementaridade Uma cidade que planeia bem o seu território é uma cidade que cria emprego qualificado e retém o seu talento. Esta visão deve abraçar a economia circular, prevendo zonas de logística e transformação que valorizem os nossos recursos de raiz local. Ao promovermos a integração entre o design de excelência e a produção industrial sustentável — como temos procurado fazer na valorização de setores como a marcenaria e o mobiliário técnico — garantimos a diversidade económica. A complementaridade entre o setor público, a indústria e o design cria um ecossistema resiliente, capaz de gerar riqueza sem comprometer o futuro.
A competitividade de Cabo Verde depende desta tríade. Só assim transformaremos os nossos municípios em polos de inovação, onde a excelência técnica se traduz em bem-estar social e robustez económica.
Conclusão: Um Compromisso com a Sinceridade Política
Apelo aos decisores políticos: não olhem para o ordenamento do território e o planeamento urbanístico como meras obrigações legais. Olhem para eles como o Contrato Social que define a competitividade das nossas ilhas para as próximas cinco décadas.
O futuro de qualquer município cabo-verdiano depende da coragem política de escolher a excelência técnica em detrimento da mediocridade orçamental. Como técnico, como antigo Bastonário e como cidadão que defende uma voz autêntica e sincera na política, acredito que o nosso povo merece cidades inteligentes, resilientes e, acima de tudo, planeadas com a ciência e o rigor que o século XXI exige. O planeamento é o único antídoto eficaz contra o subdesenvolvimento.
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Nota Biográfica
César Monteiro de Freitas é Arquiteto e Urbanista com mais de 30 anos de experiência internacional em planeamento e gestão do território, arquitetura e consultoria para a sustentabilidade e o desenvolvimento imobiliário. Com um percurso que inclui uma década de serviço no Departamento de Reabilitação Urbana da Câmara Municipal de Lisboa, é Pósgraduadoem Real Estate Development e especialista em Desenvolvimento Urbano Sustentável, tendo integrado o programa do Department of State (EUA) sobre "Sustainable Urban Development". Serviu como Bastonário da Ordem dos Arquitetos de Cabo Verde (OAC) por dois mandatos (2010-2017). Atualmente, é CEO e Fundador da César Freitas Arquitetos (CFA), implementador do sistema de sustentabilidade LiderA em Cabo Verde e ativista pela modernização das políticas públicas no país.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1266 de 04 de Março de 2026.
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