Muitos cabo-verdianos votaram esperando respostas para problemas concretos do país: o elevado custo de vida, a falta de oportunidades para os jovens, a emigração crescente, a crise dos transportes inter-ilhas, a descentralização administrativa e o desenvolvimento equilibrado do território. Contudo, tudo indica que temas simbólicos e identitários voltarão rapidamente a ocupar um lugar central na agenda política.
Quem acreditava que a nova configuração governativa significaria uma inversão das tendências centralizadoras poderá vir a sentir uma profunda deceção. Há décadas que determinados setores políticos e intelectuais defendem uma visão de Cabo Verde fortemente centrada em torno de Santiago e da Praia, não apenas do ponto de vista político e administrativo, mas também cultural, linguístico e identitário.
A recente declaração do Presidente da República no Encontro Internacional “Crioulidade Atlântica”, afirmando que trabalhará para alcançar “o mais rapidamente possível” os consensos necessários à plena oficialização da língua cabo-verdiana, representa um sinal político inequívoco. A mensagem transmitida é a de que esta matéria constitui uma prioridade nacional do Estado. Recorde-se que a oficialização do ‘crioulo’ tem sido uma das bandeiras recorrentes da sua intervenção política ao longo de mais de duas décadas.
Esta não é uma discussão nova. Desde o período pós-25 de Abril de 1974, determinados círculos políticos e culturais passaram a encarar a valorização do ‘crioulo’ não apenas como um legítimo movimento de afirmação cultural, mas também como instrumento de construção de uma determinada narrativa identitária nacional. A questão essencial é saber se os cabo-verdianos de todas as ilhas, da diáspora e dos diferentes estratos sociais partilham efetivamente esta prioridade.
O problema não é o ‘crioulo’. Ninguém coloca em causa a importância dos crioulos falados no arquipélago enquanto património cultural e elemento essencial da identidade cabo-verdiana. O problema reside na instrumentalização política de uma questão complexa que envolve identidade, cultura, educação, administração pública e, inevitavelmente, relações de poder entre as diferentes ilhas.
Existe igualmente uma dimensão estratégica frequentemente ignorada. Cabo Verde é um dos países mais abertos ao exterior do espaço lusófono. A sua história está intimamente ligada à emigração, à mobilidade internacional e à capacidade dos seus cidadãos se integrarem em diferentes sociedades. Neste contexto, o português continua a ser uma importante língua de ensino superior, diplomacia, negócios e projeção internacional.
Enquanto se promove a expansão institucional do ‘crioulo’, uma parte significativa das elites continua a apostar fortemente na formação dos seus filhos em ambientes de elevada exposição à língua portuguesa e a contextos internacionais onde esta continua a constituir uma ferramenta fundamental de mobilidade académica e profissional. É legítimo perguntar se todos os cidadãos estarão a receber as mesmas oportunidades linguísticas para competir num mundo cada vez mais globalizado.
Se as futuras gerações cabo-verdianas vierem a possuir níveis de proficiência em português inferiores aos dos seus pares da CPLP, poderão encontrar-se em desvantagem competitiva em universidades, concursos internacionais, mercados de trabalho e organizações multilaterais onde essa competência continua a ser valorizada.
Os promotores desta agenda invocam frequentemente a existência de um consenso nacional. Contudo, continua por demonstrar quando e em que circunstâncias os cabo-verdianos foram efetivamente chamados a pronunciar-se sobre esta matéria. Confundir a influência de determinados círculos políticos, académicos e culturais com a vontade nacional constitui um erro político.
Mais preocupante ainda é o contexto em que esta iniciativa surge. Cabo Verde dispõe hoje de poucos mecanismos eficazes de contrapoder e equilíbrio institucional. O debate público tornou-se progressivamente mais assimétrico, favorecendo o avanço de visões hegemónicas que tendem a reduzir a diversidade histórica do arquipélago.
É neste contexto que muitos cabo-verdianos percecionam uma tendência de recentralização política, cultural e simbólica em torno da Praia e de Santiago. Trata-se de uma tendência para apresentar as características do centro político e demográfico do país como se fossem naturalmente as características de toda a nação. Aos poucos, a centralização administrativa, económica, política e agora potencialmente linguística vai consolidando a ideia de que existe um centro legítimo da nação e periferias destinadas a adaptar-se.
A oficialização do ‘crioulo’ levanta precisamente esta questão. Será a futura norma linguística construída de forma verdadeiramente pluricêntrica ou assentará predominantemente numa única variante? Como serão representadas e protegidas as restantes variantes insulares? Que garantias existem de que a diversidade linguística do arquipélago será preservada?
Para muitos cabo-verdianos nunca existiu qualquer contradição entre dominar simultaneamente o ‘crioulo’ e o português. Durante séculos, a identidade cabo-verdiana construiu-se precisamente na convivência entre ambas as realidades linguísticas e culturais. O desafio nunca foi escolher entre uma e outra língua, mas garantir o domínio simultâneo de ambas, ampliando o capital linguístico dos cidadãos e reforçando a capacidade de projeção internacional do país.
A verdadeira questão talvez não seja linguística, mas política. Porque uma coisa é promover o ‘crioulo’, nas suas diversas variantes, como património nacional comum. Outra, muito diferente, é transformar a língua portuguesa numa herança incómoda ou num obstáculo identitário. Quando uma língua deixa de ser vista como instrumento de conhecimento, mobilidade social e abertura ao mundo para passar a ser tratada como marcador ideológico, o debate deixa de ser linguístico e passa a ser político.
São perguntas legítimas que continuam sem respostas convincentes. E enquanto essas respostas não forem dadas de forma clara, transparente e amplamente debatida, dificilmente se poderá falar de um verdadeiro consenso nacional.
O receio de muitos cidadãos é que este processo não vise apenas valorizar o ‘crioulo’, mas também reforçar uma determinada visão identitária de Cabo Verde, transformando uma realidade plural numa identidade cada vez mais uniforme e centralizada.
Em vez de unir, esta agenda corre o risco de aprofundar divisões latentes e alimentar sentimentos de exclusão e desconfiança. A verdadeira questão não é a oficialização do ‘crioulo’. É saber se Cabo Verde continuará a ser uma nação plural, construída sobre o equilíbrio entre as suas ilhas, culturas e sensibilidades, ou se caminhará gradualmente para um modelo onde uma visão particular da identidade nacional se impõe às restantes.
Talvez por isso a questão fundamental não seja decidir entre ‘crioulo’ e português, nem entre tradição e modernidade. A verdadeira escolha é entre um modelo de Cabo Verde assente na pluralidade das suas ilhas, culturas e heranças históricas, ou um modelo que procure concentrar progressivamente a definição da identidade nacional numa única visão cultural e territorial.
Porque as línguas podem unir uma nação, enriquecer a sua cultura e ampliar os horizontes dos seus cidadãos. Mas também podem tornar-se instrumentos de divisão quando são colocadas ao serviço de projetos políticos que procuram substituir a diversidade pelo pensamento único. É esse risco que merece reflexão antes de qualquer decisão irreversível.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279 de 03 de Junho de 2026.
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