A língua cabo-verdiana é a língua materna da esmagadora maioria dos cabo-verdianos. É a língua do nascimento, da casa, do afeto, da rua, da música, da dor, da oralidade e da intimidade nacional. Ninguém pode seriamente negar isso. A questão não é saber se ela existe, se tem dignidade ou se merece reconhecimento. Isso está fora de causa. A questão é outra: como oficializá-la sem violentar a sua história ou transformar uma legítima política linguística numa aventura ideológica?
Cabo Verde tem uma singularidade histórica que não pode ser ignorada. Ao contrário de outros territórios africanos, não havia população autóctone nas ilhas antes da chegada portuguesa. O arquipélago estava desabitado. A ocupação começou sob domínio português, com militares, administradores, religiosos, comerciantes e a sua língua de poder. A primeira língua da autoridade, da administração, da escrita e da Igreja foi o português.
Isto não significa que a sociedade cabo-verdiana tenha nascido simplesmente portuguesa. Seria uma simplificação. Nasceu do encontro desigual entre portugueses, europeus, africanos escravizados, navegadores, comerciantes, mestiços e gente de várias proveniências. Mas, nesse encontro, a língua que comandava era o português. Os africanos levados para Cabo Verde vinham de regiões e línguas diferentes. Para comunicar com o poder colonial e entre si, recorriam à língua dominante: o português, ou formas populares e transformadas desse português.
É nesse encruzamento que se forma a língua cabo-verdiana. Não nasce do nada. Não cai do céu. Não é invenção pura, sem genealogia. Forma-se a partir de uma matriz lexical portuguesa, transformada pela experiência atlântica, africana, escravocrata, mestiça e insular. O português que ali chegou não era o português moderno das escolas, mas o dos séculos XV e XVI, com formas arcaicas, populares, marítimas e coloniais. Muitas palavras hoje tidas como “crioulas” guardam ecos desse português antigo.
A língua cabo-verdiana é, portanto, uma transformação histórica do português arcaico em contexto cabo-verdiano. Tem influências africanas, evidentemente. Negá-las seria absurdo. Mas também é absurdo negar que a sua base lexical dominante é portuguesa. Mesmo quando a pronúncia muda, a forma se altera ou a frase ganha ritmo próprio, a genealogia continua presente.
É preciso também reconhecer que não há uma única experiência linguística cabo-verdiana homogénea. Santiago, primeiro grande centro de povoamento e de escravatura, conserva uma crioulização mais antiga e marcada por contactos africanos diversos. Outras ilhas tiveram trajetórias diferentes: São Vicente, Fogo, Brava, Santo Antão, São Nicolau e outras têm marcas próprias. A língua cabo-verdiana não é uma peça fabricada em laboratório. É uma família de falares históricos, insulares, vivos e diferenciados.
O problema maior não está na língua cabo-verdiana. Está na tentativa de fazer da sua oficialização uma rutura gráfica, simbólica e ideológica com o português. Durante cerca de cinco séculos, a língua escrita dos cabo-verdianos foi o português. Foi em português que se escreveram a administração, a escola, os documentos, os jornais, os livros, a legislação e grande parte da memória nacional. Mesmo falando “crioulo”, o cabo-verdiano reconhecia a forma escrita das palavras pela ortografia portuguesa.
A palavra “casa”, por exemplo, é escrita há séculos como “casa”. O povo cabo-verdiano conhece visualmente essa palavra assim. Subitamente, em nome de uma escrita fonológica, pretende-se transformar “casa” em “kaza”. A pergunta legítima é: que ganho real justifica esta rutura? Que benefício compensa a perda da ligação visual com a matriz histórica da palavra?
Os defensores de uma grafia fonológica dizem que ela facilita a aprendizagem, aproxima a escrita da pronúncia e dá autonomia à língua cabo-verdiana. O argumento não é vazio. Uma língua materna precisa de gramáticas, dicionários, materiais didáticos, professores formados, literatura e uso institucional. Mas a facilidade fonética não pode ser o único critério. Uma escrita não é apenas som. É também história, memória, etimologia, cultura e ponte com outros espaços linguísticos.
Por que razão Cabo Verde deveria agir ao contrário? Por que razão um país pequeno, com população reduzida, diáspora imensa e dependência do português como língua internacional, académica, jurídica e diplomática, deveria cortar a ligação gráfica entre a língua cabo-verdiana e a sua matriz portuguesa?
O português liga Cabo Verde a centenas de milhões de falantes, de Portugal ao Brasil, de Angola a Moçambique, da Guiné-Bissau a Timor-Leste. É língua de circulação internacional, estudo, trabalho, publicação, diplomacia e acesso a universidades. A língua cabo-verdiana é nossa, profundamente nossa, mas não tem a mesma função internacional. Reconhecer isto não é diminuir o crioulo. É ver a realidade.
Um país inteligente não sacrifica uma vantagem estratégica em nome de uma pureza ideológica. Cabo Verde precisa do crioulo e do português: da língua materna para se reconhecer e do português para circular no mundo. Precisa de fortalecer a identidade sem destruir a ponte. Precisa de oficializar com responsabilidade, não com ressentimento.
Aqui entra a dimensão mais sensível do debate: a ideologia. Muitas vezes, a defesa de uma grafia radicalmente fonológica aparece revestida de ciência, mas traz por baixo uma intenção simbólica: afastar a língua cabo-verdiana do português, como se a proximidade fosse uma vergonha colonial a apagar. Surge a tentação de dizer: não queremos nada dos “tugas”; queremos uma escrita nossa, limpa de heranças portuguesas. Mas uma língua não se purifica por decreto, e uma identidade não se fortalece amputando as suas raízes.
A língua cabo-verdiana é mestiça. Cabo Verde é mestiço. A cultura cabo-verdiana nasceu do encontro, da violência, da adaptação, da sobrevivência, da mistura e da invenção. Não há pureza africana original a recuperar, nem pureza portuguesa intacta a preservar. Há uma realidade híbrida, atlântica, africana e europeia ao mesmo tempo. A grandeza de Cabo Verde está nessa complexidade.
Por isso, transformar a grafia numa guerra contra o português é empobrecer o debate. A língua cabo-verdiana não precisa de negar o português para existir, de escrever “kaza” para provar que é língua, nem de cortar a genealogia para ganhar dignidade. A dignidade de uma língua não está apenas no alfabeto. Está no uso, na literatura, no pensamento, na escola, na investigação, na música, no teatro, na ciência.
A oficialização deveria começar por perguntas práticas: há professores preparados? Materiais consensuais? Gramáticas acessíveis? Dicionários robustos? Literatura suficiente? Consenso social? Estratégia para proteger o domínio do português? Meios para evitar que as crianças fiquem mais fracas em português sem se tornarem fortes em crioulo escrito?
Sem estas condições, a oficialização corre o risco de ser proclamação política mais do que política linguística séria. Pode transformar-se numa bandeira identitária sem base institucional. E pode prejudicar as crianças, sobretudo as mais vulneráveis, que dependem da escola pública para dominar o português, língua essencial para estudos superiores, mobilidade social e inserção internacional.
O perigo não é ensinar a língua cabo-verdiana. O perigo é ensiná-la contra o português. O perigo não é reconhecer o crioulo. É usá-lo como arma simbólica para enfraquecer a competência portuguesa das novas gerações. O perigo não é valorizar a língua materna. É fazer dela um projeto de isolamento.
Cabo Verde não pode dar-se ao luxo de escolher mal. Somos poucos. O mercado interno é reduzido. A diáspora é enorme. A nossa força histórica sempre esteve na circulação: entre ilhas, continentes, línguas e mundos. Reduzir essa vocação a uma batalha ortográfica seria um erro estratégico.
Isto não significa rejeitar toda e qualquer normalização da escrita cabo-verdiana. Significa que ela deve respeitar a história da língua, a diversidade das ilhas, a memória gráfica dos falantes e a necessidade de manter forte o português. Uma grafia etimológica ou semi-etimológica, que preserve a ligação visual com a matriz portuguesa sempre que possível, seria mais prudente e compatível com a realidade bilingue do país. Não se trata de escrever português disfarçado de crioulo, mas de evitar uma rutura artificial entre a fala cabo-verdiana e a sua memória histórica.
O debate sério não deve ser entre crioulo e português. Essa é uma falsa questão. O debate verdadeiro é entre uma política linguística equilibrada e uma política de rutura. Entre reconhecer a língua cabo-verdiana com responsabilidade ou instrumentalizá-la ideologicamente. Entre construir condições reais ou impor símbolos apressados. Entre formar cidadãos bilingues competentes ou cidadãos inseguros nas duas línguas.
A língua cabo-verdiana merece reconhecimento. Mas merece também ser tratada com inteligência histórica. Não como brinquedo ideológico, bandeira partidária ou instrumento de ressentimento. Merece uma política que a eleve sem destruir a ponte portuguesa que também faz parte da nossa história.
No fundo, a pergunta é simples: queremos oficializar a língua cabo-verdiana para fortalecer Cabo Verde ou para fazer uma guerra simbólica ao passado?
Se for para fortalecer Cabo Verde, então a solução não pode ser amputar a memória. Tem de ser somar. Crioulo e português. Oralidade e escrita. Ilha e mundo. Identidade e circulação. Matriz portuguesa e transformação cabo-verdiana. África, Europa e Atlântico.
A língua cabo-verdiana nasceu do encontro. Não deve ser oficializada como rutura.
Doutorado em Matemática Aplicada pela Harvard University, vencedor, em 2025, da 8.ª edição do Prémio Literário Arnaldo França com o romance: "Djarbás da Fontarém — Silhueta de um País em Trânsito".
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1281 de 17 de Junho de 2026.
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