Armando Napoleão Fernandes, morreu há 57 anos, temas para reflexão

Carlos Filipe  Fernandes da Silva Gonçalves - Jornalista Aposentado
Carlos Filipe Fernandes da Silva Gonçalves - Jornalista Aposentado

Armando Napoleão Fernandes, 1 de Julho de 1889 – 19 de Junho de 1969, é o homem esquecido que elaborou o tão falado O Dialecto Crioulo – Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde, conhecido como Dicionário Crioulo-Português, que praticamente ninguém conhece, senão apenas alguns privilegiados.

Este meu avô passou uma vida a escrever o Léxico do Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde, livro que contém mais de cinco mil palavras, recolhidas de Santo Antão à Brava. No entanto, quase ninguém sabe da existência desta obra, publicada apenas 22 anos depois do seu falecimento. Depois da 1.ª edição, de 500 exemplares, saída em 1991 e rapidamente esgotada, até hoje não apareceu uma 2.ª edição. Ou será que já não interessa?

Este é um livro azarado. Depois de concluído, devido à conjuntura política dos anos de 1950/60, não podia ser editado. Após a morte do autor, o original foi entregue a um familiar, para ajudar a encontrar uma forma de o publicar. Passaram-se mais de três anos e nada. Depois da Independência, o livro foi entregue, em 1976, pela minha mãe, Ivone Fernandes Ramos, à então Direcção-Geral da Cultura, onde ficou até 1982. Foi devolvido nesse ano, tendo sido eu quem recebeu o original, mediante guia de entrega, com a incumbência de o devolver à minha mãe, em São Vicente. Foi assim que tomei contacto com o precioso manuscrito, constante de dois volumes encadernados. Fiquei maravilhado com a leitura e com o que fui aprendendo, até a minha mãe vir recebê-los pessoalmente.

Bem, o livro continuou à espera, por quase dez anos, até que foi editado em Abril de 1991. Esgotou logo. Desde há 35 anos, os interessados nesta obra continuam à espera de uma 2.ª edição. Eis, pois, o momento para alguma reflexão. Com toda a humildade, pois não sou especialista no assunto, e com o devido respeito por aqueles que o são, como se diz em crioulo, os especialistas ou experts, chamo a atenção para o seguinte:

1) Ninguém contesta: o crioulo é uma língua derivada da língua portuguesa.

2) O português é uma língua latina, logo derivada essencialmente do latim.

3) Vovô escreveu o seu livro com palavras crioulas grafadas a partir da base etimológica do português e com o respectivo significado nessa língua-mãe, porque dela derivadas ou nela originadas. Trata-se, portanto, de uma escrita essencialmente de base etimológica.

4) Vovô teve uma ideia genial: manteve o alfabeto do português, mas criou um conjunto de regras simples para representar, em crioulo, sons que não existem em português. É deste modo que começa o livro, com indicações sobre Ortografia e Fonologia e uma Fonologia Sónica com apenas quatro regras: ch lê-se tch, como em match; jh lê-se dj, como em Djon; sh lê-se ch, como em xota e xixi. Presumimos que seja por isso que esta obra tem sido posta de lado, porque o alfabeto proposto e actualmente em vigor para o crioulo segue outra lógica. Trata-se de um sistema pensado para línguas nativas ou étnicas que nunca tiveram alfabeto próprio e não descendem directamente de uma outra língua, ao contrário do nosso crioulo, que vem do português.

O dicionário do vovô, voltamos a dizê-lo, tem cerca de cinco mil palavras. Estudos de linguistas não cabo-verdianos, que falam e estudam outras línguas africanas, identificaram, grosso modo, no crioulo de Cabo Verde, a existência de apenas setenta palavras provenientes de línguas africanas. Eis alguns exemplos: mandinga, 41 palavras; wolof, 11; timené, 4; outras línguas atlânticas, 4; banto, kikongo e kimbundo, 4. Há ainda palavras de outras línguas, como bambarã e malinque, cujos números não foram especificados.

Ou seja, com mais estudos, o número de palavras africanas no crioulo não deverá, hipoteticamente, ultrapassar noventa. Arredondando, talvez chegue a cem palavras africanas, num universo de cinco mil palavras portuguesas da recolha que vovô fez de Santo Antão à Brava. Note-se: no conjunto de todas as ilhas. No livro, cada palavra tem a indicação da ilha respectiva, embora haja um grande número de palavras sem essa indicação, por serem comuns a todas as ilhas.

É claro que a gramática do crioulo tem relação com as línguas africanas. No entanto, na minha humilde opinião, isso não justifica a adopção de um alfabeto não etimológico, ou distante da origem das palavras, quando a língua fundamental de que dispomos é o português e quase todas as palavras que utilizamos no crioulo vêm do português. Quando surge uma palavra técnica ou de pouco uso, o nosso cérebro faz de imediato a transposição do português para o crioulo.

Por ter adoptado a escrita etimológica, o livro do vovô, finalizado nos anos de 1940/1950, tem sido rejeitado e esquecido. Deliberadamente? Evocam-se sempre questões técnicas. Mas o livro do vovô tem servido de base para estudos e plágios indirectos, embora o autor só tenha sido citado por alguns investigadores conceituados, que realmente o valorizam.

Em vida, o meu vovô Armando Napoleão Fernandes sequer imaginou a publicação do seu livro, porque o crioulo era língua proibida, embora tolerada, ou melhor, ia-se tolerando. Recorde-se que, nos anos de 1960, defender ou escrever em crioulo significava nacionalismo. Logo, quem ousasse ficava imediatamente na mira da perseguição das autoridades coloniais. E a propaganda colonial dizia que cabo-verdianos e guineenses não gostavam da língua portuguesa, o que, até certo ponto, levou à crença de que também não gostavam dos portugueses. Por isso, Amílcar Cabral fez questão de afirmar sempre: português é a nossa língua, temos de defendê-la.

Onde fica o crioulo, então? A expressão «no meio está a virtude» é muito conhecida e costuma ser atribuída à tradição clássica, sobretudo à ideia aristotélica da justa medida, mais do que propriamente a um ditado chinês. Ou, como também se diz, nem muito ao mar, nem tanto à terra: seguir pelo caminho do meio.

Não há dúvida de que o ALUPEC, aprovado como modelo experimental por um certo período, cujo prazo já expirou há muito, revelou-se o alfabeto da discórdia. Na sua base, tem sido cada um por si, todos à sua maneira. Cada um escreve como quer. Escreve-se numa desordem total, que não serve nem ajuda nenhuma das línguas: nem o português, nem o crioulo. O alerta tem sido dado por várias personalidades, mas persiste-se no erro. E, quanto mais o tempo passa, maiores serão os danos.

Voltamos a repisar: há necessidade de uma 2.ª edição do livro de Armando Napoleão Fernandes, porque contém um elevado número de palavras registadas entre o início do século XX e os anos de 1940/50. Muitas palavras vão desaparecendo na evolução natural da língua. Nesta obra encontra-se ainda um registo escrito e uma descrição de quase todas as manifestações culturais cabo-verdianas daquela época, o que faz de Armando Napoleão Fernandes uma testemunha credível do seu tempo.

De notar ainda: muitas definições de palavras vão evoluindo, mudam de significado ou de sentido, e há deturpações, muitas vezes provocadas com objectivos pouco claros. E porque há essa evolução e modernização natural da língua, impõe-se uma contínua fixação da escrita, que ocorre porque se escreve. Mas, quando não se escreve com um padrão, entramos no domínio da confusão. Não resisto a dar o exemplo da França, onde os dicionários são actualizados de tempos a tempos, porque a língua vai evoluindo. Temos, pois, de encontrar um consenso na escrita do crioulo e seguir em frente. Da discussão nasce a luz. Felizmente, ainda nos vamos entendendo em português, apesar do tal acordo, e em crioulo. Ups! Cada um vai escrevendo no seu próprio ALUPEC e lá vamos escrevendo e rindo, em criolês!

Para saber mais sobre vovô, os interessados podem ler uma biografia aqui: http://armando-napoleao-fernandes.blogspot.com/

Nota: dados referidos a partir de Nicolas Quint, Africanismos na Língua Cabo-Verdiana, Paris, L’Harmattan, 2008, pp. 100-108, Anexo 1: Lista de setenta palavras de provável origem africana, classificadas por língua lexificadora.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283 de 01 de Julho de 2026.

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Autoria:Carlos Filipe Fernandes da Silva Gonçalves,6 jul 2026 10:12

Editado porAndre Amaral  em  6 jul 2026 10:13

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