“As coisas não correram como se esperava”, afirma biógrafo de Cabral

PorJorge Montezinho,18 jan 2013 14:35


Amílcar Cabral foi “muito importante”, mas, em África, “as coisas não correram como se esperava”, considera António Tomás, autor de uma biografia sobre o líder da luta pela independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau.


O engenheiro agrónomo filho de pai cabo-verdiano e mãe guineense que foi assassinado há 40 anos, antes de se consumarem as independências dos países africanos lusófonos, deixou um “duplo legado” para a História, constata António Tomás, autor de “O fazedor de utopias - uma biografia de Amílcar Cabral”.

 


Por um lado, Amílcar Cabral “foi uma personagem muito importante na formação do que é hoje o presidente africano”. Por outro, “o presidente africano não cumpre as promessas que foram feitas e que foram a grande motivação para que as pessoas se levantassem para lutar contra o colonialismo”, destaca o investigador e antropólogo de origem angolana.


Se o passado for lido “com as lentes do que acontece hoje em África”, surgem “dúvidas” sobre o legado de Amílcar Cabral e de outros líderes que combateram o colonialismo, refere o investigador, actualmente a leccionar no instituto de investigação social Makerere, em Campala, no Uganda, onde ensina o pensamento de Cabral a duas dezenas de jovens investigadores africanos.


Amílcar Cabral foi "um grande homem", que deu “uma grande contribuição” para as independências africanas, mas, assinala, “as coisas não correram como foram planeadas, como se esperava".
Se Amílcar Cabral ficaria desiludido ou satisfeito com a África de hoje “é a grande questão”, mas António Tomás arrisca dizer que “não ficaria muito orgulhoso".


Mas é preciso distinguir realidades. Cabo Verde e Guiné-Bissau, países por cuja autodeterminação Cabral lutou, vivem hoje situações “muito distintas”.


Enquanto Cabo Verde tem feito um caminho de desenvolvimento e progressos, da Guiné-Bissau "só vêm péssimas notícias há mais de 20 anos, são golpes de Estado, assassínios políticos, guerras civis, invasões”, distingue.


"Há uma grande frustração em relação ao que se passa hoje na Guiné" e António Tomás não tem dúvidas de que "grande parte da tensão militar e social" que persiste no país decorre de "coisas da guerra de libertação que não foram resolvidas".


Por isso, sugere, seria "interessante" procurar saber “até que ponto há uma ligação entre a guerrilha de Amílcar Cabral e a militarização da sociedade, no contexto da guerra colonial, e o que acontece hoje na Guiné-Bissau”.


O investigador realça, porém, que "a questão que nunca terá resposta é até que ponto Amílcar Cabral (…) haveria de ser capaz de subverter essas tendências" se tivesse tido oportunidade de governar o país.
Sobre o legado deixado por Amílcar Cabral à nova geração de líderes africanos, o antropólogo assinala que os tempos mudaram e hoje as exigências são outras.


Por exemplo, Amílcar Cabral e outras figuras contemporâneas “tinham egos muito grandes, ideias muito claras, não se viam na posição de dividir poder”. Já os líderes de hoje precisam de funcionar em democracia, aprendendo a "trabalhar com os outros e não impor", distingue.


A geração de Cabral - recorda - foi “muito particular”, com características de “excepcionalidade”. Partilhava de “uma grande ideia” de autodeterminação dos povos, fruto do contexto colonial e de um clima de “grande efervescência política”, marcado pela ideologia do comunismo.


Os pais das independências defendiam que África apostasse na ciência e na tecnologia. “Havia muito esta ideia de que para África se desenvolver era preciso (…) moderniza-se. Hoje em dia já há muita crítica em relação a isso (…), já há muita gente que pensa que desenvolvimento e modernização não são tudo [e que] tem que haver uma maior conexão entre a realidade cultural dos povos e as necessidades da modernidade”, analisa.

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Autoria:Jorge Montezinho,18 jan 2013 14:35

Editado porSara Almeida  em  19 jan 2013 11:24

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