Cerca de quatrocentos cabo-verdianos estão em vias de serem repatriados dos Estados Unidos da América. A ministra das Comunidades diz que os números são preocupantes. A reinserção continua a ser complicada.
Há quase quatro centenas de cabo-verdianos à espera de serem deportados dos Estados Unidos da América e os motivos são vários: desde irregularidades em documentos até crimes graves. Os números já foram confirmados pela ministra das Comunidades, Fernanda Fernandes. “Temos conhecimento que há, de facto, uma lista enorme de casos. Mas não temos nenhuma informação de como esses cabo-verdianos vão ser deportados”, disse em entrevista à DW África. No entanto, a governante considera que os números são preocupantes, tendo em conta a dimensão do país. “Se para certos países ter milhares e milhares de pessoas nessa situação já é um peso, para nós 400 também é um peso muito grande”.
O repatriamento de emigrantes cabo-verdianos não é um fenómeno recente, a sua origem remonta ao período da independência. Em termos estatísticos, como avançou a consultora do Ministério das Comunidades, Suely Ramos Neves, começa a ter alguma importância a partir de 1980, ano em que, de acordo com o recenseamento efectuado, foram expulsos doze cabo-verdianos dos respectivos países de acolhimento. Desde esse ano o número de repatriados foi aumentando, chegando a ser expulsos 32 emigrantes em 1999. Portugal e França são os primeiros países a repatriar cabo-verdianos, inicialmente, devido à indocumentação e ao trafico de droga. O repatriamento foi assim, num primeiro momento, consequência de uma deficiente integração nos países de emigração, “não obstante a entrega dos cabo-verdianos emigrados ao trabalho, na perspectiva de acesso a melhores condições de vida”.
A segunda vaga de deportações
O início de uma nova vaga de repatriamento de cabo-verdianos já inclui indivíduos que emigraram ainda criança, ou mesmo bebés, com os pais ou foram ao encontro dos mesmos. Nos diversos países de acolhimento deparamo-nos com um número crescente de jovens que enfrentam problemas de integração nas sociedades de acolhimento, em certa medida, originados pela situação de exclusão que marca o meio em que são socializados [ver artigo De Cabo Verde para a América do Norte]. Além disso, como refere a socióloga Katia Cardoso, que tem estudado os movimentos migratórios cabo-verdianos, grande parte da comunidade cabo-verdiana trabalha no sector fabril, uma vez que possui baixa qualificação académica, auferindo o salário mínimo, o que a induz, forçosamente, a trabalhar 12 a 16 horas por dia, criando um vácuo na família e na sua contribuição directa na educação dos filhos. Esta “ausência” dos pais no seio da família e, por conseguinte, na educação dos filhos, a par de outros factores, como o baixo nível de escolaridade e o “choque” cultural, é apontada como uma das explicações para o facto de os jovens cabo-verdianos se enveredarem para o mundo do crime e da violência.
Enredados em tais situações os jovens acabam por ter comportamentos criminalizados pelas leis desses países como o tráfico de drogas, posse de arma, assalto à mão armada, violência familiar, violações. Tudo isto, aliado ao desconhecimento das leis do país onde estão, deu origem às expulsões dos países de acolhimento, principalmente, dos EUA e de alguns países da Europa como Portugal e França. Desde 2002 já foram deportados cerca de 1.400 cabo-verdianos, avançou a ministra das Comunidades, a maior parte deles dos EUA.
Os problemas de integração
Chegados a Cabo Verde, confrontam-se com problemas de integração, não só porque muitos deles não conhecem bem o país, ou não possuem laços familiares, mas também porque não dominam as línguas crioula e portuguesa, não possuem qualificação e não encontram ocupação, acabando por enfrentar situações de exclusão social e, por vezes, cair na criminalidade.
Como várias vezes já referiu Redy Lima, sociólogo há vários anos a estudar os grupos de rua, os deportados foram o elemento novo, a partir dos anos 90, da violência urbana em Cabo Verde. Os que chegaram nessa década tinham uma característica especial, eram membros de gangues. Só na área de Massachusetts, por exemplo, estavam registados cerca de 170 gangues de rua. Muitos dos seus integrantes vieram para Cabo Verde.
Quando os deportados chegaram ao país perceberam uma coisa, havia dois grupos que se dedicavam ao narcotráfico, pelo menos na Praia, e na altura havia uma luta entre eles, mas sem violência. Quando havia problemas entre os grupos, havia uma pessoa que os resolvia, mas essa mesma pessoa torna-se a primeira vítima da violência entre bandos, em 2000, e a partir daí descambou tudo.
“Os deportados perceberam que continuando a fazer o que sabiam, podiam dar-se bem. Entretanto, transportaram também com eles as rivalidades que já existiam nos EUA, porque os grupos de Boston e de Brockton não se dão. Quando chegaram ainda pensaram em trabalhar juntos, mas depois, com a ganância, isso acabou e cada um trabalhou por si”, sublinha Redy Lima. Ou seja, já havia a estrutura dos grupos, já havia o narcotráfico, e os deportados acrescentaram as armas e a violência exagerada. No século 21, e no imaginário dos praienses, duas figuras sociais emergentes foram os responsáveis pela onda da violência: os deportados e os thugs. Os primeiros, pelo envolvimento com o narcotráfico na forma de matadores profissionais e os segundos, influenciados em parte pelos primeiros, adoptando o seu estilo de vida a partir das histórias de street life e street soldjas dos jovens negros nos guetos norte-americanos.
Os estigmas sociais
Ainda hoje a sociedade cabo-verdiana estigmatiza os deportados, mesmo que estes não tenham sido repatriados por crimes graves, o que dificulta a sua reinserção social. Voltamos à socióloga Katia Cardoso, que explica que o fenómeno da deportação é marcado por dois momentos principais: um primeiro caracterizado pela exclusão no âmbito do processo de sociabilização num contexto diferente do de origem e um segundo, aquando da chegada ao país de origem, em que o emigrante, enceta um processo de reinserção numa sociedade que supostamente lhe é familiar e à qual pertence. “Este retorno é pautado frequentemente por desajustamentos psicossociais e culturais; rotulagem e estigmatização – elementos também presentes no primeiro momento”, escreve na comunicação De volta à pátria? Os deportados cabo-verdianos dos Estados Unidos da América.
No contexto norte-americano, três acontecimentos impulsionaram o Congresso a reestruturar a lei da imigração em 1996: o atentado de 1993 ao World Trade Center, a popularidade inicial da legislação anti-imigração aprovada no estado da Califórnia em 1994 (Proposition 187) e o atentado de Oklahoma City em 1995. A associação entre “terrorista” e “imigrante” (designadamente, imigrante condenado por algum crime, sujeito à deportação) alimentou também esta reforma. A Illegal Immigration and Immigrant Responsability Act, aprovada já em 1996 pelos EUA, alargou o leque de incumprimentos, de crimes passíveis de desencadear o processo de repatriamento (aggravated felonies – criminalidade grave), passando a lei a ter efeitos retroactivos.
Como refere Katia Cardoso, apesar da ênfase colocada nas deportações “criminais” por parte dos meios de comunicação social, “o perfil médio do deportado não corresponde a um criminoso violento”. Na sua maioria são jovens do sexo masculino pertencentes à faixa etária entre os 18 e os 30 anos, que emigraram ainda bastante novos e que, aquando do retorno, se confrontam com um conjunto de barreiras psicossociais à sua integração: desconhecimento da língua, falta de uma rede de apoio familiar, nostalgia da vida nas grandes cidades, estigmatização (que condiciona, por exemplo, as oportunidades de emprego), etc.
O círculo de amizade dos deportados resume-se na maioria das vezes a outros jovens na mesma situação. O contacto com os familiares que ficaram nos países de acolhimento é limitado e muitas vezes mediado por comentários menos abonatórios em relação aos deportados por parte da vizinhança.
Isso é visível nos testemunhos recolhidos por Katia Cardoso. “Não sinto que sou bem-vinda. Não me sinto parte de nada. Não te habituas nada a essa nova vida. Logo quando chegas, todos são teus amigos. Tu ainda estás fresca. Tens dinheiro. Não conheces nada. Não sabes nada. Então, todos são teus amigos, todos te procuram. Passando algum tempo – dois, três, quatro meses – começam a desaparecer aos poucos. Até ficares sozinha… família incluída” (deportada entrevistada na prisão de São Martinho). “Nos EUA eu era muito popular (…) Aqui não tenho ninguém que me diga happy birthday no dia dos meus anos” (deportada entrevistada na prisão de São Martinho)”.
Falta de articulação
Segundo a socióloga, a falta de coordenação entre o país que deporta – EUA, por exemplo – e o país de “origem” – neste caso, Cabo Verde – tem sido a marca dominante deste processo, particularmente, aquando dos primeiros casos de deportação, em que os emigrantes eram enviados e o governo de Cabo Verde muitas vezes desconhecia o motivo que esteve na origem da deportação. Ignorando-se o motivo da deportação corre-se o risco de se considerar todos os deportados como criminosos violentos.
“A despeito do aumento de estudos a deportação de cabo-verdianos continua a precisar, por um lado, de uma análise aprofundada, de uma cartografia das causas/consequências, a montante (nos EUA) e a jusante (Cabo Verde) e, por outro lado, de uma actuação capaz dar respostas eficazes às situações de desestruturação social que marcam o retorno à pátria. O deportado, de certa forma, desfaz a imagem de sucesso associada aos emigrantes cabo-verdianos, sobretudo dos que residem nos EUA. O seu retorno a Cabo Verde não tem obviamente o mesmo glamour da chegada de um emigrante bem-sucedido, que juntou um bom pecúlio e regressa (de férias ou definitivamente) para ajudar a família, os amigos, a terra”.
Fernanda Fernandes sublinha que o Ministério das Comunidades tenta prestar o maior apoio possível. “Por vezes vamos buscar as pessoas ao aeroporto porque não têm ninguém para as ir buscar”, conta à DW. E quando surgem casos de pessoas com problemas do foro psiquiátrico, o Ministério faz a coordenação entre hospitais, câmaras municipais e familiares.
Sempre que necessário, as autoridades também financiam o alojamento e a alimentação de deportados. “Há pessoas que só trazem a roupa que têm no corpo”, lembra a ministra.
A governante que esteve nos EUA no início de Junho, onde apresentou o projecto “Di Comunidade pa Kumunidadi”, disse na altura que durante o encontro com a comunidade constatou que um dos principais constrangimentos está relacionado à “má integração” dos jovens que partem de Cabo Verde. Um problema que é apontado há anos, inclusive nos estudos encomendados pelo Ministério das Comunidades.
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