O número de casos provocados pelos vírus zika continua a diminuir. Segundo os dados do último relatório do Serviço de Vigilância Integrada e Resposta a Epidemias, na sexta semana de 2016, ou seja, até ao dia 14 de Fevereiro, foram reportados 48 casos: 29 em São Filipe, no Fogo, e 19 em Santiago. O total acumulado em Cabo Verde é de 7373 casos. Apesar da epidemia aparentar estar na fase final, há ainda um grande desconhecimento à volta da doença, como sublinha o Director Nacional de Saúde cabo-verdiano. Além disso, o arquipélago, pela sua natureza, não tem como se defender das epidemias importadas.
Expresso das Ilhas – Cabo Verde é um país vulnerável às epidemias importadas?
Tomás Valdez – Sim, é um país vulnerável a estas epidemias importadas, por várias razões que é importante compreender. Uma delas, é o país que nós somos, um país aberto ao mundo. Há muita mobilidade de cabo-verdianos para o exterior e há muita mobilidade de pessoas em direcção a Cabo Verde. Isto também tem os seus riscos. Hoje, quando falamos da saúde das nações estamos também a falar da saúde internacional. Em segundo lugar, estas duas últimas epidemias que tivemos: a dengue – em 2009 e 2010 – e a zika – em 2015 e 2016 – têm na sua base um vector, o mesmo vector, o mosquito Aedes aegypti, que transmite tanto estas doenças como outras, a Chikungunya, que existe no Senegal, ou a febre amarela, de que está a ocorrer um surto, neste momento, em Angola. É evidente que isto consubstancia esta vulnerabilidade.
Senegal e Angola são dois países com voos regulares para Cabo Verde. Haverá alguma maneira de melhorar o controlo da entrada desses vírus no arquipélago?
Existe um quadro internacional que está estabelecido no âmbito do regulamento sanitário internacional, de 2005, e é este regulamento que continua válido e continua a ser o instrumento de gestão de risco de saúde pública a nível global. Desde logo, os estados, enquanto partes signatárias, são obrigados a assumir uma série de compromissos. O dever principal, quando ocorrem estas situações, é de comunicar no sentido de evitarem a propagação de situações sanitárias para outros países. Dentro desta matéria têm sido também feitas a desinfestação nos voos internacionais para evitar que o vector seja transportado para outros destinos, mas também para não introduzir mosquitos infectados no país. Também o que existe são as vacinas exigidas aos passageiros. Alguns países exigem para a meningite, outros para a febre-amarela. Acontece que em relação a algumas doenças existem vacinas e para outras não, como é o caso da zika e foi o caso da dengue. Como não há contra a cólera, ou o paludismo. O desafio maior que temos enquanto país é a luta contra o vector, de forma a diminuirmos drasticamente a densidade do vector, ao ponto que não represente qualquer perigo de propagação de doenças. Nos últimos anos temos tido casos importados de paludismo, mas nunca se chegou ao ponto da eclosão de uma epidemia de paludismo. Porquê? Porque o vector, o Anopheles, que transmite o paludismo, mantém-se numa densidade que não provoca as epidemias. No ano passado só tivemos sete casos de paludismo [quatro na Boa Vista e três na Praia], mas entretanto tivemos cerca de três dezenas de casos importados, de cabo-verdianos que estiveram a trabalhar na República do Congo e na Guiné Equatorial. Há esses riscos aqui e o trabalho tem sido feito, apesar de ser um trabalho que não tem muita visibilidade. O sistema mantém-se vigilante, mas não pode haver dúvidas de que é preciso controlar o vector. Porque enquanto isso não acontecer estaremos sempre sujeitos a riscos, seja para a introdução de outro serotipo de dengue [existem quatro serotipos, em Cabo Verde o surto foi apenas do serotipo 3], seja da introdução de outras doenças como a febre-amarela ou a Chikungunya. O trabalho terá de ser de combate primário ao vector. As outras medidas seriam mais paliativas. Portanto, importante é combater o vector e comunicar com a população para que sejam tomadas todas as medidas que possam prevenir a proliferação dos criadouros e assim evitar o crescimento e a proliferação dos mosquitos no meio ambiente. Se ganharmos esta luta, não digo que ficaremos imunes, mas estaremos a limitar a capacidade de reprodução e propagação. Porque a introdução da doença acontece em qualquer parte do mundo. Já temos informação que houve um caso já notificado pela China de introdução do zika. Em Portugal há mais de meia dezena de casos. Nenhum país está imune à introdução, o que interessa é que uma vez ocorrida esta introdução não haja condições propícias para a sua propagação. Impedir a introdução é uma tarefa extremamente difícil. Porquê? Porque muitos doentes podem estar ainda numa fase assintomática [sem sintomas da doença]. Por isso, uma coisa é a introdução da doença, outra é que uma vez detectada a situação haja condições para estancar a propagação e o que provoca essa propagação é o vector. Porque aqui não há uma transmissão homem a homem, mas sim através da picada do mosquito.
A erradicação do vector é possível?
Muitos países tentaram isso. Houve experiências na Ásia e na América do Sul, mas esta é uma tarefa extremamente difícil e extremamente custosa, estamos a falar de milhões de dólares. E a questão não é somente essa, é que o mosquito faz parte do ecossistema. Os países que nalgum momento relataram a erradicação do vector mais tarde voltaram a relatar situações de novo aparecimento do vector, não se sabe se terá sido através de reintrodução ou de reactivação. Portanto, do ponto de vista prático e financeiro é uma tarefa muito, muito difícil. O que é possível, e isso sabemos, é diminuir a densidade do vector e mantê-lo a níveis que não representem risco. E aqui a acção humana é extremamente importante. A forma como lida com o meio ambiente, com o saneamento do meio, com o lixo, com os recipientes que podem acumular água e da forma que lida com a própria água. Sabemos que somos um país onde há carência de água, onde o nível de penetração da canalização é o que é, por isso temos toda uma cultura de acumulação de água fortemente enraizada. Temos é de saber proteger essa água para que o mosquito não encontre brechas para entrar, depositar os ovos e transformar esses depósitos em criadouros.
Cabo Verde precisa de um laboratório vocacionado para as doenças tropicais?
Há todo um trabalho que precisamos de fazer, ainda não temos essa capacidade mas está em processo de montagem, que depende do laboratório de entomologia. Este tem como função apoiar o conhecimento sobre a densidade do mosquito, para podermos mensurar como estamos em relação ao vector e aos ovos [geralmente, faz-se a colheita através de armadilhas colocadas em diversos locais para a partir daí fazer-se a contagem tanto dos ovos como do próprio vector]. Há experiências interessantíssimas. Na Madeira [Portugal] há um sistema muito bem montado que produz um boletim entomológico semanal. É isso que nós queremos e é possível fazer isso. Neste momento, estamos a trabalhar com a OMS para apoiar o Ministério da Saúde na mobilização de recursos para montarmos este laboratório, até porque uma parte desses equipamentos já está no país. Penso que até ao final do primeiro semestre deste ano, se tudo correr como está previsto, poderemos ter uma unidade de laboratório de entomologia para apoiar na luta contra o vector, não só dando-nos dados de retaguarda, mas também para podermos medir a eficácia da luta contra o mosquito. Por outro lado, precisamos de um laboratório de virologia para sabermos com que tipo de patologias o mosquito está infectado para assim termos uma capacidade interna de fazer a identificação primária da situação que está a ocorrer e depois fazermos a confirmação num laboratório externo num centro colaborador da OMS como mandam as regras.
À volta do zika tem havido muita informação e desinformação. Há muitas contradições à volta da microcefalia, da síndrome de Guillain-Barré, como é que em Cabo Verde estão a filtrar toda esta informação?
Tem razão quando diz que há muita informação que ainda carece de fundamento científico. Acontece que hoje temos uma comunicação muito em cima dos acontecimentos, seja a nível nacional seja a nível internacional, as pessoas têm Internet e usam-na nas suas consultas, portanto, estamos sempre numa situação de um livro aberto. Nem todas as informações são certas, agora o que sabemos é o seguinte, em relação ao zika ainda estamos no meio do filme e ninguém sabe como é que esse filme terminará. Tirar conclusões a meio do filme não é muito correcto. O que sabemos, por exemplo, em relação à microcefalia é que na América Latina começaram a fazer essa relação com o zika, mas essa relação existe de que forma? Espácio-temporal. Ou seja, os casos aconteceram nos países onde há epidemia de zika e no período de tempo em que essa epidemia está a decorrer. Existe uma outra associação epidemiológica, as grávidas que estão a ter filhos com microcefalia estiveram infectadas pelo vírus. Mas, os estudos também estão a dizer que a maior parte das mulheres grávidas infectadas com o vírus zika não tiveram filhos com microcefalia. Mesmo no Brasil, que já notificou mais de quatro mil casos de microcefalia, fez-se uma revisão metodológica nos casos diagnosticados e assumiu menos de quinhentos como casos de forte associação entre zika e microcefalia. Há várias situações que ainda precisam de estudos e há uma pressão muito grande para encontrar respostas, principalmente para estes casos de microcefalia. E isso não está ainda totalmente demonstrado. É verdade que se encontrou o vírus na placenta, mas ainda falta explicar esse trofismo [trocas metabólicas entre os tecidos] que existe entre o vírus zika e o tecido nervoso. A própria síndrome de Guillain-Barré é também um distúrbio neurológico, existe essa constatação de um trofismo entre o vírus zika e o tecido nervoso, agora como é que este vírus ataca depois de instalado no tecido nervoso ainda não está explicado. Por isso, o mais importante continua a ser as medidas preventivas para evitar as picadas do mosquito e que as grávidas precisam de se proteger ainda com mais cuidado. Como disse, ainda não sabemos o que acontecerá mais para a frente porque todos os dias chegam novas informações, às vezes com origens casuísticas como acontece com a transmissão via sexual, ou com o facto de terem encontrado o vírus na saliva humana, mas são situações casuísticas, estamos a falar de um caso nos Estados Unidos da América e dois outros no Brasil. São precisos mais estudos para se poder avaliar perfeitamente o que está a acontecer com este vírus quando está em contacto com o ser humano.
Por falar da transmissão por via sexual. Há referências que o vírus continua activo no sémen por um dado tempo, há quem fale em dois a três meses, mas as campanhas têm-se centrado nas mulheres. Como medida preventiva, acha que também deveria haver campanhas dirigidas aos homens?
Em relação a essa questão estamos a cingir-nos às orientações da OMS nessa matéria. A informação é necessária para que a população possa estar atenta, mas esta informação não deve servir para criar pânico na população e não há directivas da OMS nessa matéria. Temos seguido com atenção estas questões, mas contando com os recursos que temos o fiel da balança tem sido aquilo que são as orientações técnicas do painel de especialistas da Organização Mundial de Saúde.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 743 de 24 de Fevereiro de 2016.