Rogério Serrasqueiro visitou Cabo Verde pela primeira vez em 1999, atraído pelas ondas da ilha do Sal, e regressou depois, nos anos seguintes, para fazer surf. Da diversão ao trabalho, a passagem foi natural. Juntou o útil ao agradável e começou a vir não só para surfar como para realizar alguns trabalhos de publicidade, conta ao Expresso das ilhas.
A primeira campanha publicitária que aqui realizou tinha como cliente a marca de sumos Compal e dirigia-se ao mercado angolano.
“A campanha tinha como cenário de fundo uma bonita praia de areia branca e um mar azul-turquesa. Em primeiro plano alguns personagens interagiam com a camera. Lembro-me que era inverno em Portugal e a meteorologia não era favorável. Não se justificava viajar para Angola, por isso Cabo Verde foi o local que propus para realizar esta campanha”, recorda. Missão cumprida. Campanha bem aceite.
Seguiram-se várias outras campanhas para marcas portuguesas e internacionais. Nem todas passaram em Cabo Verde. Mas há pelo menos duas campanhas que devem estar frescas na memória de todos os cabo-verdianos, até porque foram amplamente difundidas na comunicação social: a #Juntos Somos a Força de Cabo Verde da CVTelecom e a 400mil para a CVMóvel (ver caixa).

Um país que é um Mundo
Há anos que, então, Roger filma em Cabo Verde, usando as suas paisagens naturais e urbanas como locais simbólicos para albergar principalmente campanhas internacionais.
“Cabo Verde tem um potencial enorme em termos de oferta de locais para filmar. Não só para realizar filmes dos anunciantes e marcas de Cabo Verde mas também para outras marcas do mundo inteiro. Encontramos em Cabo Verde locais que podem representar várias regiões do mundo e esta diversidade de oferta faz seguramente de Cabo Verde um destino a considerar em qualquer produção de publicidade”, defende.
Aliás, filmar num determinado país, sem que se faça referência específica ao mesmo é hoje uma tendência global. “O que as marcas procuram é ser originais e o cenário tem uma enorme importância na busca dessa originalidade e exclusividade”, explicita.
Por exemplo, um dos projectos, realizados em Cabo Verde, que o realizador publicitário considera mais marcantes na sua carreira é um filme que realizou para a The Halo Trust, uma ONG Britânica que actua na limpeza de minas e destroços de guerra em mais de 16 países espalhados pelo mundo, incluindo Angola e Moçambique.
O filme, como nos explica, tinha como objectivo “celebrar os 25 anos de existência dessa Organização e, ao mesmo tempo, pedir donativos para continuar os trabalhos de limpeza de minas. Cabo Verde felizmente não faz parte da lista desses países, mas escolhi-o porque sabia que ia encontrar um local que poderia ser em qualquer parte de África, uma pequena aldeia com miúdos a jogar futebol”. A campanha foi um sucesso em todo o mundo.
Além da oferta de locais fotogénicos, a curta distância do arquipélago a Portugal e à Europa “é talvez um dos factores mais importantes na escolha de Cabo Verde como local de produção de um filme ou campanha publicitária”, avança.
E há ainda outras características frisadas pelo realizador, “fazem de Cabo Verde um local com grande potencial na área da produção audio-visual mundial”: “a tranquilidade, a simpatia com que os cabo-verdianos recebem os visitantes, a beleza das paisagens e a boa oferta turística que já se verifica um pouco por todas as ilhas, para além das mais turísticas Sal e Boavista”.
Publicidade como promotora do turismo
Instituir um país como destino de filmagens não impulsiona somente a sua escolha e promoção a nível de escolha como local de filmagem. Além deste tipo de “turismo de trabalho”, promove o país como destino turístico, no sentido mais comum do termo.
“A boa publicidade pode fazer muito pela promoção de um país”. Roger dá o exemplo da capital do seu país, Portugal. “Lisboa está na mira das grandes produções internacionais, a recente campanha da marca internacional H&M foi totalmente filmada em Lisboa com o David Beckham e sem nunca falarem em Lisboa. O que o filme mostra é uma cidade moderna, cosmopolita e com edifícios históricos. E isso fica na cabeça do consumidor, faz-nos ter vontade de conhecer aquele local seja para trabalhar ou como destino de férias.”
Na mesma linha, os trabalhos que ele próprio tem feito em Cabo Verde também têm despertado interesse pelo arquipélago. “Vi comentários nas redes sociais da Fundação Benfica e do filme de Porto Mosquito [CAIXA], de pessoas a dizer que querem conhecer Cabo Verde. Acho que isso resume o peso que uma publicidade ou filme pode ter na promoção turística de um país”.
Mas isto, salvaguarda, não significa que esses vídeos sejam suficientes, sendo importante, considera o realizador, uma campanha direccionada concretamente à promoção do Turismo em Cabo Verde para “mostrar ao mundo o país fantástico que é”.
A visão menos romântico
Roger sente-se em casa quando trabalha em Cabo Verde, talvez porque tenha nascido em Africa, ou então porque viveu durante parte da sua juventude também num arquipélago, os Açores.
Identifica-se, e goza as qualidades da vida quotidiana de Cabo Verde, ritmo e musicalidade, simplicidade e sabores, as histórias e conversas que vai descobrindo de cada vez que cá vem.
“Mas reconheço que do ponto de vista da produção, sobretudo quando estão envolvidas equipas e técnicos que trabalham habitualmente em países onde a cultura cinematográfica está mais desenvolvida, esta visão é menos romântica”, constata.
É que, embora “no final do dia em Cabo Verde tudo se resolva e tudo aconteça”, e alguns criativos como Roger gostem de uma certa dose de improviso e adaptação, “nesta indústria trabalhar com um método mais rigoroso é bastante mais eficaz e produtivo”.
Um outro constrangimento é a falta de equipamento e de meios técnicos, sendo que há poucos “técnicos especializados nos equipamentos mais profissionais”.
“O equipamento de cinema profissional que habitualmente se utiliza na produção de filmes publicitários tem um elevado custo e a verdade é que poucas produtoras no mundo dispõem desse equipamento a tempo inteiro. Até porque nem todos os equipamentos servem para todas as situações, ou seja, em cada filme existe sempre uma escolha de equipamento de acordo com a narrativa que se quer contar.” Por esse motivos, nos países onde há uma boa dinâmica de produção de filmes e anúncios publicitários, existem casas de aluguer de equipamento cinematográfico. Não é ainda o caso de Cabo Verde.
“A África do Sul, país onde já filmei e desenvolvi campanhas publicitárias, é um bom exemplo de um país que tem uma oferta de paisagens deslumbrantes e ao mesmo tempo tem uma indústria de cinema e audiovisual ao mais alto nível. A distância à Europa é um dos factores menos positivos mas mesmo assim ainda se filma muito em Cape Town sobretudo durante o período de inverno na Europa”, compara.
“Nesta indústria não há fronteiras”
“Recentemente, tenho visto mais e melhor trabalho em Cabo Verde”, avalia, porém, o realizador.
Quanto ao facto de a grande parte das maiores empresas cabo-verdianas optar por empresas /profissionais estrangeiros quando realizam as suas campanhas – e face às críticas que por vezes daí advém internamente - , Roger recorda uma experiência pessoal.
“Lembro-me de uma campanha do turismo de Portugal no ano 2007 em que algumas das mais emblemáticas figuras portuguesas eram os protagonistas: José Mourinho, Cristiano Ronaldo, entre outros. O fotógrafo convidado pelo turismo de Portugal para realizar a campanha foi Nick Knight, um artista britânico que realizou a campanha que qualquer português publicitário gostaria de fazer. Lembro-me que choveram críticas e comentários menos bons dentro do meio profissional. O facto do fotógrafo ser estrangeiro deixou muita gente incomodada. O que eu mais recordo dessa campanha é a qualidade do trabalho, irrepreensível, muito bom mesmo. Nessa altura eu pensei que um dia também gostaria de ser convidado pelo turismo de Portugal para realizar uma campanha que apresentasse Portugal ao mundo.”
Roger não fez ainda uma campanha para o Turismo do seu país, mas no final de 2015 foi convidado pelo turismo do Dubai para realizar o filme de apresentação desse país ao mundo, o qual está agora a finalizar.
“Acho que a globalização na nossa área é isto mesmo. O bom trabalho e o talento não têm nacionalidade. Qualquer bom profissional em Cabo Verde ou em Portugal ou na China pode trabalhar para o mundo inteiro, basta acreditar nisso e trabalhar muito”, diz.
Aliás, o realizador tem neste momento projectos de grande dimensão no estrangeiro, mas isso naõ lhe dá “o direito de achar que os anunciantes em Portugal devem trabalhar” com ele, argumenta.
Além disso, nesta indústria “onde não há fronteiras, cada vez que há experiências de trabalho com “profissionais de outras geografias” há também ganhos pessoais e para até para o projecto.
“A partilha de opiniões, visões e métodos diferentes são sempre uma mais valia no processo criativo. Em Portugal neste momento temos todas as semanas uma quantidade muito grande de equipas estrangeiras a filmar o que é muito positivo na minha opinião. O mercado cresce, tornamo-nos todos melhores profissionais e aprendemos sempre alguma coisa quando trabalhamos com equipas novas, sejam eles estrangeiros ou não”, alega.
Para este realizador, o método de trabalho é talvez a maior mais-valia que os profissionais locais podem absorver de outros profissionais. Isto porque na publicidade existem alguns procedimentos que são obrigatórios quando estão envolvidos vários técnicos numa equipa de produção, agências de publicidade, clientes, modelos e actores. “Existe um método que é o mesmo no Dubai, em Lisboa, em Madrid ou em LA e não vale a pena tentar fazer diferente porque isso só vai complicar a dinâmica de produção para quem está habituado a produzir e realizar muitos filmes de pequena ou grande escala”, aponta.
Apesar disso, quando filma em Cabo Verde (ou qualquer outra parte do mundo), Roger leva habitualmente uma pequena equipa de produção. “Mas faço sempre questão de envolver equipas locais em todos os filmes que realizo. A fusão da experiência com a cultura local e conhecimento local é essencial no meu ponto de vista. De que me serve ter um excelente assistente de imagem que domina completamente as questões técnicas do equipamento se depois não tiver um assistente de produção local que tem um conhecimento profundo de Cabo Verde e da cultura do país?”

Novas trends
“Vou com regularidade ao festival mundial de publicidade de Cannes em França e todos os anos são apresentadas as tendências e novidades internacionais. Em 2015 mais uma vez um dos temas mais falado foi - como é que a tecnologia está a transformar o panorama do marketing?
A forma como as marcas comunicam directamente com o consumidor é de facto uma das novidades nos dias de hoje. Ouvi uma frase marcante numa das muitas palestras que assisti durante a semana criativa em Cannes: “Antes entrávamos numa loja e víamos placas a dizer - não tocar, não mexer. Hoje entramos numa loja e as marcas pedem-nos para experimentar os produtos, tocar, ver como funciona e utilizar. “As marcas querem falar com o consumidor de igual para igual e preocupam-se com a vida das pessoas.”
Projectos em CV
São já vários anúncios publicitários que Roger Serrasqueiro fez em Cabo Verde para clientes nacionais e estrangeiuros: 25 anos da The Halo Trust, “Uma recompensa inesperada” para a Fundação Benfica Sport Lisboa e Benfica. Campanhas para a Compal, Sical, Optimus (hoje NOS). Neste momento, está inclusive a finalizar um filme que realizou em Cabo Verde para uma nova marca de roupa Internacional.
Os projectos mais conhecidos aqui são “Somos 400mil” da CVMóvel e o “#Juntos Somos a Força de Cabo Verde” da CV Telecom. Falamos mais pormenorizadamente deste último, pela sua envergadura, e forte divulgação.
No anúncio, que assenta na ideia de Djunta mon, um menino quer colocar uma bandeira de Cabo Verde numa haste. Alguém vê, e face à impossibilidade do menino em atingir o seu ensejo, envia uma foto – um mms – que depressa percorre vários locais de Cabo Verde. Levanta-se uma onda de solidariedade e todos acorrem a ajudar o menino. Cria-se uma pirâmide humana, o menino trepa-a e consegue pôr a bandeira no mastro.
“A ideia criativa do filme “Juntos Somos a Força de Cabo Verde” para a CVTelecom é da agência de publicidade Sumo. Foi um trabalho de equipa entre a equipa de marketing da CVTelecom, a agência Sumo e a produtora Garage que produziu o filme que eu realizei. Como realizador tive toda a liberdade para acrescentar cenas, alterar e melhorar o guião original do filme”, especifica Roger, adiantando que contou ainda a participação de um equipa local que há vários anos trabalha consigo.
As filmagens, que decorreram em Santiago e São Vicente, duraram 7 dias e integraram 40 pessoas no elenco principal e 400 figurantes. Todo o trabalho compensou, diz, frisando o resultado final lhe agradou muito.
BIO
Mas quem é Rogério Serrasqueiro, mais conhecido por Roger? Ele próprio nos faz nos traça uma breve bio:
“Nasci em Moçambique onde vivi alguns anos, passei parte da minha juventude nos Açores e mais tarde em Lisboa onde vivo até hoje, na zona de Cascais. Comecei a trabalhar na área da publicidade em 1997 como criativo junior na agência Publicis Lisboa, depois passei a Director de Arte Sénior na agência BBDO Portugal e mais tarde Director Criativo na agência Bates Red Cell.
Depois de vários anos a trabalhar no lado das agências de publicidade, aos 40 anos de idade decidi aceitar um convite irrecusável da produtora Garage Films Lisboa para me dedicar ao que sempre quis fazer na vida profissional, ser realizador de filmes publicitários. Ao longo da minha carreira como criativo recebi alguns dos prêmios mais importantes da indústria publicitária Internacional, Cannes Lions, Eurobest, NY Festivals, London International Awards, entre outros. Na minha ainda jovem carreira de realizador, também já fui premiado em alguns dos festivais mais emblemáticos [do mundo] com destaque para o prémio de Young Director Award durante o festival de Cannes 2015. Ter sido apontado como realizador revelação num festival daquela envergadura é um grande motivo de orgulho mas acima de tudo é uma motivação enorme para continuar a fazer aquilo que sempre sonhei fazer na vida, realizar filmes. Para já filmes publicitários, talvez um dia me dedique ao cinema.”
Fundação Benfica

Uma recompensa inesperada - “Uma das histórias que mais me sensibilizou [em Cabo Verde] passou-se na Aldeia de Porto Mosquito na ilha de Santiago. Durante umas filmagens para a CVTelecom, passei por aquela aldeia e reparei num grupo de miúdos a jogar futebol. Parei o carro e fiquei ali a ver o jogo até que percebi que os miúdos jogavam com um pé descalço. Perguntei-lhes porque é que jogavam assim e um deles respondeu-me que não jogavam com um pé descalço, jogavam com um pé calçado. Eles voltaram ao jogo e eu tive alguma dificuldade em digerir aquele momento. Fiquei literalmente sem palavras quando percebi o motivo daquela resposta. Algumas semanas depois eu estava de volta a Cabo Verde para filmar um dos filmes que mais me orgulho de ter realizado na vida, o filme de Natal da Fundação Benfica com o Nuno Gomes e com aquele grupo de pequenos grande heróis de Porto Mosquito. Fico feliz que esta história e lição de vida em Cabo Verde tenha corrido o mundo inteiro e que tenha sido visto e partilhado por milhões de pessoas nas redes sociais.“
rogernikefutebol

“Em Dezembro 2014 partilhei na conta do meu Instagram pessoal (@rogerserrasqueiro) uma fotografia que tirei no Mindelo em São Vicente no intervalo de umas filmagens. Passados alguns dias recebi um mail da Nike Football Global a perguntar se podiam utilizar a fotografia. Disse-lhes que sim, mas que a única condição seria identificarem o local quando fizessem a partilha da fotografia. Resultado, a fotografia foi a imagem de Natal, no dia 25 de Dezembro, da Nike Football Global nas redes sociais com a frase “Football is a gift” e com referência a São Vicente - Cabo Verde. Foi visto e partilhado por milhões de pessoas no mundo inteiro.”
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 754 de 11 de Maio de 2016.
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