“Não há turismo sustentável sem o envolvimento das comunidades”. É precisamente essa noção que está por detrás do projecto Comunidades no centro, que vai envolver dois bairros ditos periféricos da cidade da Praia, usando a “identidade local como factor de desenvolvimento do turismo sustentável”. Para além das massas e dos circuitos fotogénicos, outras formas (mais inclusivas) de fazer turismo existem, e o projecto, que arrancou em Setembro, está aqui para o mostrar.
No centro comunitário da Associação Pilorinhu, em Achada Grande Frente, há dois pequenos quartos. Sem luxos, muito simples. São feitos de madeira e foram produzidos, assim como a sua mobília, por uma oficina da Associação que trabalha com paletes e reciclagem de diferentes materiais. Já recebeu voluntários de diferentes origens que vêm colaborar com a Associação. Em breve a estrutura será ampliada, melhorada, embora a ideia de simplicidade e economia, num bairro onde há tantas outras prioridades, seja para manter.
O que aqui se passa é também turismo, embora diferente dos conceitos dominantes do sector. De facto, nada tem a ver com o turismo de massas que o país tem promovido e que – embora constitua o maior e mais rentável sector da economia cabo-verdiana – é pouco diversificado e mantém uma enorme parcela da população à margem dos ganhos directos e da dinâmica que traz.
Mesmo fora dos resorts, por exemplo, na Praia, a exclusão da maior parte das comunidades é visível. Apenas alguns pontos isolados são considerados de interesse turístico e os visitantes fogem (ou são desviados) da maior parte dos bairros da capital, tidos como pouco interessantes, pouco atractivos e perigosos.
O turismo na capital limita-se a dois ou três spots, pelo que alargar a oferta, introduzindo “novos âmbitos geográficos “ e “outros tipo de turismo e turistas” é importante para aproveitar o potencial do turismo em todas as esferas, e de forma mais sustentável. Um outro tipo de turismo existe e há espaço para ele na cidade.
“Um turismo que se calhar não precisa de um lugar para ser fotografado, mas para ser vivido”, arrisca Mariangela Fornuto, da ONG Africa 70.
É nesta linha que surge o projecto (ver caixa) Comunidades no centro – a identidade local como factor de desenvolvimento do turismo sustentável.
Outros turismos
Comunitário, solidário (de voluntariado), cultural, artístico. São outras formas de turismo que têm intrínseca “a componente da sustentabilidade, da auto-sustentabilidade, da responsabilidade do turista, do relacionamento mais equilibrado entre quem visita e quem recebe. Um turismo concebido como troca e não só como serviço oferecido e comprado”, define Mariangela Fornuto.
Eventualmente, e como já acontece na Associação Pilorinhu, ou em Porto Madeira, ou em outros pontos da ilha e do país, poderá nem haver transacção comercial, mas um regime de ajuda, de trabalho voluntário. “Um intercâmbio.”.
Em termos de alojamento, o projecto “Comunidades no centro “ aposta em dois tipos de acolhimento: o alojamento comunitário nos centros que existem nos bairros contemplados, (Pilorinhu, na Achada Grande Frente – que já tem essa vertente e será o primeiro contemplado – e Finka Pé, Lém Ferreira), e o alojamento familiar, em residências das próprias pessoas dos bairros.
Inclusive já foram identificadas, “nos processos de concepção do projecto”, algumas famílias que recebem turistas, por exemplo, nas Festas, num modelo de hospedagem mais ou menos informal.
A qualidade mínima deve ser garantida, nos espaços de hospedagem bem como no meio envolvente. Esta é uma vertente. Mas o mais importante é todo o processo gerado no projecto que, mais do que lugares pontuais de alojamento, vai promover uma oferta turística em toda a envolvência desses pontos.
Mapeando ensejos
A comunidade sempre no centro. O projecto contempla, pois, inúmeras actividades que vão permitir melhorar as condições de todo o bairro, nomeadamente em termos de estruturas, segurança, rendimento da população, entre outros. Assim, como refere Mariangela Fornuto, tudo começa com o “mapeamento feito com a comunidade, que consiste num processo de autodescrição, de reconhecimento dos lugares, das histórias, das pessoas, de tudo o que forma a identidade: desde as coisas mais óbvias (a tabanka, o mar, a tradição culinária daquela da zona, as vistas panorâmicas, o cais, coisas que existem e são importantíssimas) até à vivência, o dia-a-dia”. Nesse processo há intrínseca uma autovalorização do bairro.
A partir dos mapeamentos e planeamentos participativos serão realizadas igualmente actividades de arte urbana que “servirão para representar esses elementos identitários e, ao mesmo tempo, melhorar a estética dos lugares” e sua visibilidade. Serão também feitas obras de requalificação urbana, e autotransformação dos locais, sendo, neste quesito, importante salientar a parceria com a CMP, que já tem em curso vários projectos.
Esses processos participativos terão influência também nos itinerários que já foram identificados. “Um, é ligado ao mar, tanto no sentido de profissional como actividade de recreio”. E uma das acções, que aliás a CMP já começou, será a de recuperar a Praia do Portinho (Achada Grande Frente).
Pretende-se que “a praia seja revitalizada e sobretudo conservada”, sendo que toda a comunidade é chamada a contribuir.
Um outro roteiro, “que é uma componente importantíssima”, é o roteiro de arte urbana. Neste ponto, reforça a representante da Africa 70, o que é importante não é só o que se faz na rua, o resultado, mas todo o processo em si.
Será então criado um percurso, ao longo dos três anos do projecto, através de nove workshops com artistas convidados nacionais e internacionais. No final, está prevista a realização de um Festival de Arte Urbana.
Ao mesmo tempo serão realizadas formações multimédia. Aliás, a vertente multimédia desempenha também um importante papel neste projecto, sendo que todo o processo do projecto será divulgado numa plataforma multidisciplinar (Storia na Lugar) e outros canais multimédia.
Por fim, destaque também para o reforço das actividades de produção artesanal, que irão produzir não só equipamentos para a hospedagem como peças para venda aos turistas.
Tudo actividades e acções, que entre outras deverão contribuir para a (auto)valorização destas comunidades num panorama turístico urbano mais diversificado, inclusivo, sustentável.
O projecto
O projecto “Comunidades no centro – a identidade local como factor de desenvolvimento do turismo sustentável” surge de uma oportunidade de financiamento da União Europeia, que abriu um concurso ligado à melhoria, ampliação e diversificação da oferta turística, pondo a tónica na sustentabilidade. Nesse âmbito, uma das vertentes passíveis de ser trabalhada diz respeito ao envolvimento das comunidade no sector, permitindo, por um lado, a referida diferenciação da oferta e, por outro, trazer alguns ganhos para franjas da sociedade que geralmente são mantidas afastadas de toda a dinâmica gerada.
“O objectivo é promover o alargamento e uma melhoria da oferta turística. Em termos específicos, o projecto tenta garantir um maior envolvimento das comunidades a partir da identidade local, do envolvimento concreto da população. Visa criar também novas oportunidades de rendimento económico para as pessoas e garantir também sustentabilidade no turismo”, explica a presidente da ONG Africa 70, Mariangela Fornuto.
Daí nasce o “Comunidades no centro “, a levar a cabo pela ONG Africa 70, em parceria com a Associação Pilorinhu e a Câmara Municipal da Praia, que terá a duração de três anos e um orçamento de cerca de 60 mil contos (90% dos quais financiados pela EU, e os restantes 10% pela Africa 70).
Na realidade, o projecto, a ser implementado nos bairros de Achada Grande Frente e Lém Ferreira vem permitir dar continuidade ao que a ONG e a Associação já estavam a desenvolver, possibilitando concretizar objectivos e pontos de acção. Sempre com a comunidade no centro.
Quebrando o estigma
Envolver as comunidades é mais do que um desígnio. Para Mariangela Fornuto, é uma necessidade.
“O turismo não vai conseguir ser sustentável se não houver um maior envolvimento das comunidades, ou seja, se a população, em particular da Praia, não conseguir reconhecer no turismo uma oportunidade”, alerta.
Na realidade, a população que é mantida à margem dos ganhos do turismo, acaba por ver no turismo uma limitação. O turista é visto como alguém que vem “para expropriar, para explorar de forma exclusiva um espaço que, na maioria dos casos, seria espaço público. As populações são afastadas para não incomodar”, refere esta responsável.
É, pois, uma situação que, na senda para um turismo sustentável, tem de ser mudada.
Nesse desiderato, embora dificilmente se acredite que as comunidades periféricas da Praia se venham a “tornar espaços de grande interesse turístico”, há necessidade de “superar a guetização, a visão negativa da juventude e das zonas que não são centro histórico.”
Assim, um dos objectivos subjacentes ao projecto é “o de ultrapassar o estigma, o complexo das pessoas que vivem nas comunidade e a visão negativa de fora”.
Trazer o turismo para os bairros, melhorando efectivamente a vida das comunidades e promovendo a sustentabilidade do sector.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 828 de 11 de Outubro de 2017.
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