Ainda sobre a(s) masculinidade(s)

PorChissana Magalhães,9 dez 2018 10:15

​Continuamos a falar de masculinidades. Porque compreender os estereótipos de género – nesse caso associados ao género masculino – importa para o enfrentamento de certos fenómenos. A violência sobre as mulheres é apenas um deles.

Há também violências e repressões auto-infligidas. E porque, num sistema em que a influência social, cultural e económica detida pelos homens continua a ser superior à das mulheres, os homens são também chamados a reflectir e a abraçar as mudanças que se impõem para uma sociedade mais justa e igualitária.

Beto, 32 anos, natural de Assomada, sempre ouviu o pai, familiares e pessoas da comunidade, em geral, dizer de um rapaz já na casa dos vinte e sem filhos que este demorava a “mostrar que é homem”. Foi assim também com ele. Durante algum tempo teve a “desculpa” de que estava a estudar. Mas mal regressou ao país, e ainda que sem um emprego fixo ou um rendimento seguro, começou a pressão. Beto admite que também ele pensa assim: “homem que é homem” trata de ter um filho o quanto antes. Assim, aos 28, foi pai. Diz, com naturalidade, que nunca esteve apaixonado pela mãe do seu filho e nunca pensou em manter com ela uma relação amorosa duradoira. Escolheu-a para ser a sua “mãe-de-filho”. Entretanto, o seu filho vive há já algum tempo na Boa Vista com a mãe e raro é o contacto que Beto mantém com a criança. Mas, admite que orgulha-se de mostrar as fotos do mesmo aos amigos.

Casar? “Mais tarde. Quando encontrar uma boa moça”. E o que seria uma boa moça, perguntamos. “Formada, que vá à Igreja... E que não tenha tido muitos namorados”. E se tiver um filho de um relacionamento anterior?, insistimos. “Nah! Aí não dá…”, ri-se ele.

Ao fim da nossa conversa, o jovem decide esclarecer: “Eu não sou machista! É assim que as coisas funcionam”.

José e Mário (nomes fictícios) eram grandes amigos. Um dia, durante um jogo de futebol, envolveram-se numa briga. Mário levou a melhor e deixou José estendido no chão. O filho deste último assistiu a tudo e quando José chegou em casa a sua mulher já sabia do ocorrido. Ela não o poupou: que ele era um fraco, que não tinha serventia de homem, etc. etc. José pensou que não tinha outra saída. Pegou na arma que tinha em casa, foi atrás de Mário e disparou contra o amigo. Por sorte o ferimento não foi fatal. Hoje, José continua a cumprir pena na cadeia de São Martinho.

É “assim” que as coisas funcionam.

A história de “José” foi-nos contada por Paulino Vaz Moniz, sociólogo e técnico da rede Laço Branco que há já vários anos tem promovido o diálogo e a reflexão como forma de questionar a receita de masculinidade predominante e social e culturalmente propagada, e que em alguns contextos conduzem a situações extremas.

“Com o nosso trabalho nós buscamos ajudar a sociedade a desconstruir os velhos modelos de masculinidade culturalmente impostos. Trabalhamos essencialmente com arguidos por VBG mas, também com outros homens, por exemplo sobre a questão da paternidade responsável, para os ajudar a redefinir as crenças sociais e culturais e encontrar novas formas, novos paradigmas para encarar a vida e os desafios”, explica o activista social, que no seu trabalho começa a encontrar sinais de mudança.

“As crenças socioculturais são fortes mas, o que constatamos é que já há homens dispostos a mudar, já há homens que questionam e que admitem que os temos levado a reflectir. Então é um trabalho de formiga mas que vai tendo os seus resultados”.

O trabalho é, portanto, essencialmente propor para reflexão a dissociação da masculinidade - do ser homem - de certos padrões de comportamentos que resultam em feridas sociais. Contudo, Paulino Vaz refere os desafios com que se deparam nessa tarefa. Desafios como homens que se sentem ameaçados com o trabalho que a rede e outras organizações vêm desenvolvendo, considerando que estas apresentam sempre as mulheres como vítimas e os homens como vilões.

Empoderamento…masculino

O também terapeuta encara isso como uma reacção de quem vê a sua “zona de conforto” ameaçada. E por isso reafirma que o processo não é atacar. “É convidar à reflexão. É esse o nosso grande desafio e não apontar dedos”. E por isso diz lamentar que existam instituições que só aceitam a abordagem ao género com as mulheres como foco.

“Ao longo do tempo foi sim feito um trabalho com base na discriminação positiva na perspectiva de empoderamento das mulheres. E hoje podemos constatar que as mulheres de facto ascenderam e estão a ascender. Mas os homens estão a perder em algumas dimensões. Há quem defenda que a tónica deve continuar sobre as mulheres, ou sobretudo sobre as mulheres. Eu defendo que também podemos e devemos trabalhar o empoderamento dos homens. Há instituições que dizem que os homens já estão empoderados mas, eu não penso assim. Vejo os homens também como vítimas de um sistema patriarcal e machista. É necessário trabalhar os homens e encontrar neles as molas emocionais para que saibam enfrentar os desafios da vida”.

E prossegue, esclarecendo que o seu entendimento de que os homens não estão empoderados vem de determinadas constatações como, por exemplo, de que estes constituem 97% da população encarcerada e morrem, em média, 10 anos mais cedo do que as mulheres, tendo por base um estilo de vida mais propenso a situações de violência, consumo de álcool e outras drogas, e negligência nos cuidados de saúde.

“São as tais crenças sociais e culturais que conduzem a isto. A educação que recebemos é de que homens são como umas calças castanhas: por pior que façam não se sujam. E com as mulheres, é ao contrário: são como um pano branco, qualquer coisinha e estão manchadas. E por isso vemos que as mulheres são obrigadas a terem um extremo cuidado consigo enquanto com os homens passa-se quase sempre o contrário: por exemplo, um homem que beba muito recebe muitas vezes comentários de admiração. “Fulano bebe muito! Aguenta muita bebida”. Ou então: “Aquele é valente! Tem pistola. Dá tiros! Ou ainda “ Fulano é macho! Tem muitas pikenas”. Ou seja, esse é um processo de auto-destruição. Há quem sinta essa opressão mas não sabe entender esse sistema. Não consegue escapar. E por isso defendo que é sim preciso trabalhar o empoderamento dos homens. Agora, claro que os ângulos [de abordagem] para homens e mulheres não podem ser iguais”.

Até aqui, continuamos a falar de homens contemplando o binarismo de género: homem/mulher, masculinidade/feminilidade, e seguindo uma lógica de “hierarquia de masculinidades” onde a masculinidade dominante, heterossexual e viril sobressai.

Teoria Queer

O estudo “Masculinidades, Trabalho e Reprodução de Preconceitos”, produzido no seio da entidade académica brasileira CAPES (vinculada ao Ministério da Educação daquele país) aponta isso mesmo e refere que “masculinidades não hegemónicas podem até ser socialmente toleradas, conforme, principalmente, seu nível de discrição. Os que expõem masculinidades não hegemónicas se sujeitam a violências legitimadas pela sociedade porque ela, assim, mantém a ordem, esvaziando a identidade homossexual”.

Dénis (nome fictício), 28 anos, homossexual e que cultiva uma aparência andrógina (mistura de características ditas masculinas e femininas), concorda e diz que isso acontece também em Cabo Verde. É a sua experiência pessoal e de amigos homossexuais e transexuais.

“ Claro que depende muito dos espaços por onde circulamos e de como nos comportamos. Se saio à noite com maquiagem mais pronunciada, unhas pintadas e alguns acessórios considerados femininos, mesmo com roupa considerada masculina ou pelo menos unissexo, não tenho problemas... Até ir à casa de banho dos homens. Aí já me aconteceu ouvir insultos e até ameaças de que não devia estar aí porque não sou “homem””, conta ele enfatizando a palavra homem com quatro dedos no ar imitando as aspas. E acaba por admitir que em certas ocasiões abdicou da vontade de se vestir e maquiar da forma que gostaria para evitar a hostilidade de certos ambientes.

“Algumas pessoas, até amigos, têm dificuldade de me entender e lidar comigo porque ao contrário dos transexuais eu não sou um homem (sexo) que se sente mulher, ou quer ser mulher. Não queria ter voz mais fina, usar vestidos, saltos altos, ter seios…ser mãe”, e sem se dar conta de que o que descreve é também um estereótipo do género feminino acrescenta: “Eu nem sequer tenho muitos trejeitos e aqueles maneirismos femininos. Às vezes gosto de usar maquiagem, usar verniz, sentir-me mais bonito. Mas homem. Gosto do meu corpo, da minha voz grossa e até de futebol”, revela o jovem. E, entre gargalhadas, acaba por acrescentar: “Há lá muitos homens bonitos”.

Tanto Dénis como Paulino Vaz Moniz – que no seu trabalho para a laço Branco também discute a homossexualidade como outra forma de masculinidade - têm relatos que falam de homens heterossexuais que manifestam publicamente intolerância e até violência psicológica para com homens homossexuais e transexuais e que depois acabam por procurar esses mesmos homens para manterem contacto sexual.

Essa situação é descrita na tese de mestrado “Levam má bô”: (homo) sexualidades entre os sampadjudus da Ilha de São Vicente de Cabo Verde” do antropólogo brasileiro Francisco Vieira. Na sua pesquisa etnográfica, realizada principalmente em Mindelo, foram vários os relatos nesse sentido que recolheu junto de grupos de homossexuais acabando por identificá-la como parte de um ritual erótico de homens e rapazes “não-gays”. Isto é, a violência da abordagem, os insultos e gestos ofensivos serviria para estes homens “não-gays” fazerem-se notar pelos gays e terem e estabelecerem assim um contacto com eles que evoluiria pouco depois para um encontro sexual.

“O que tentei mostrar aqui é que o “mandar bocas”, em algumas situações, faz parte de um ritual eficaz não só de construção da própria masculinidade, mas um ritual de conquista sexual dos gays pelos não-gays, ainda que este seja permeado pelos signos masculinistas, da virilidade” (…). Além disso, é uma estratégia de encobertamento do próprio desejo homoerótico”, escreve o antropólogo sobre aquilo que cunhou como Sistema Hipocrisia, que diz ser permeado por silenciamentos e contradições.

A contradição principal é a do homem que se diz heterossexual, másculo e viril mas que se engaja em relações homossexuais mas negando-se a viver livremente a sua orientação sexual. Em alguns casos, como aponta Paulino Moniz, há homens que admitem estes encontros sexuais sem contudo pôr ou aceitar que se ponha a sua virilidade em causa pelo facto de serem o elemento “activo” no acto.

Aqui fica uma vez mais patente a tal violência da opressão que o sistema patriarcal e machista mantém também sobre os homens, conforme referido pelo nosso entrevistado. Reféns desse sistema, a maioria acredita existirem características inerentes a um género, e buscam perpetuá-las. O problema é quando algumas dessas características perpetuadas chocam com os direitos e as liberdades individuais.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 888 de 05 de Dezembro de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,9 dez 2018 10:15

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  9 dez 2018 10:46

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