Não há casos perdidos, nem casos sem solução

PorAntónio Monteiro,23 dez 2018 7:40

Zé Pereira
Zé Pereira

​“A maior vitória sobre as drogas é dizermos - as drogas existem, estão disponíveis mas eu não as uso. É isso que precisamos incutir nos nossos jovens”.

Ao concluir todo o ciclo de apresentações de Bokafumo nas ilhas, como é que avalia a sua aceitação e impacto nas pessoas?

Penso que o impacto tem sido muito bom e as sessões de esclarecimento e testemunho foram proveitosas para todos os que tiveram a oportunidade de participar delas. Prova disso é o facto de todos os encontros nos liceus nas diversas ilhas terem terminado com os alunos de braços no ar querendo fazer mais perguntas. Igualmente nos estabelecimentos prisionais cujos encontros foram bastante participados pelos reclusos. As muitas mensagens que vimos recebendo e convites para visitar novos estabelecimentos de ensino mostram que esta abordagem é bem-vinda e a procura é cada vez maior. Isto é muito animador.

No livro e em todas as suas intervenções insiste na ideia de falar verdade sobre as drogas, de ser sincero e sobretudo as pessoas não se enganarem a si próprias. Quais são essas verdades mais fundamentais?

Sobre esta questão, acredito que a abordagem deve ter por base a verdade. O livro Bokafumo e as conversas abertas à volta dele são prova disso e são a razão do impacto positivo que vem sendo esta campanha de prevenção. Expomo-nos, não nos poupamos e essa é a grande mais-valia dos testemunhos desta natureza na primeira pessoa. Estamos perante plateias com cem e mais alunos, pessoas que nunca vimos. E expomos perante elas tudo o que de pior fizemos ou nos aconteceu devido à dependência das drogas. Assim há comunicação, há empatia. Facilmente percebem que a nossa motivação é evitar que passem pelo mesmo.

Deste período em que viveu entra a vontade de se libertar e início da superação e da abstinência, qual a lição mais importante que poderia passar a quem está ainda na fase da dependência?

Sem dúvida alguma, não desistir. Isto é válido para aqueles que estão a lutar para se libertarem das drogas, mas também para as famílias que se sentem impotentes e perdem a esperança. É especialmente válido para alguns técnicos. Depois de alguns anos em recuperação soube que uma amiga falou com uma psicóloga e disse-lhe para tratar-me porque assumiria todas as despesas. Soube através desta amiga que tentou ajudar-me. Muitos anos depois vim a saber da resposta da técnica de saúde: Infelizmente caso diPatta é um caso perdido, ka tem solução pa el. Não sei quem é esta técnica e isto nem é importante. Importante é sim, certamente, a certeza de que hoje, quando ela passar por mim, dirá a si mesma: não há casos perdidos, nem casos sem solução. Os técnicos precisam ser suficientemente humildes para avaliarem de forma honesta o seu desempenho nesta matéria. Nos casos de insucesso é muito fácil dizer: ele não quer deixar as drogas, ele não está motivado. É função dos técnicos mudar este quadro mental nos seus pacientes, e devem humildemente questionar-se: como posso melhorar o meu desempenho no tratamento deste paciente? Nenhum toxicodependente é feliz com as drogas e com a sua dependência. Ninguém consome para ser toxicodependente. A dependência da droga distorce de forma profunda a nossa forma de ver e avaliar as coisas. Trata-se de uma pessoa que se encontra doente e como tal deverá ser tratada.

Olhando para toda a problemática da prevenção o que pensa da etapa que estamos vivendo? Estamos a ganhar a luta contra as drogas na área da prevenção?

Quando se fala em ganhar a luta contra as drogas penso que devemos ser realistas e não falarmos em termos absolutos ou definitivos. É preciso que nos capacitemos cada vez mais para reduzirmos a entrada de drogas no país. Penso que com os meios que temos disponíveis e considerando a nossa própria geografia as nossas polícias vêm há vários anos fazendo um excelente trabalho. No entanto, a maior vitória sobre as drogas é dizermos: as drogas existem, estão disponíveis mas eu não as uso. É isso que precisamos incutir nos nossos jovens desde tenra idade. Conseguir sensibilizá-los neste sentido.

Estamos numa quadra festiva em que o conceito de família e de amor têm uma visibilidade especial. Que mensagem tem para os que estão na dependência para as suas famílias?

Durante muitos anos vivi consumindo convicto de que não havia retorno. Cheguei a um estado lastimável que defino como a de um autêntico farrapo humano. Apesar do apoio da família que sempre tive, acabei a viver e a dormir nas ruas. O paraíso que as drogas me tinham reservado era uma sentina que estava sempre fechada. Acordava diariamente envolto em poças de urina e o cheiro a fezes. Era neste ambiente degradante que me protegia e escondia a minha vergonha. Pensava todos os dias no suicídio. Bati à porta da morte várias vezes, mas por alguma razão não tinha chegado a minha hora. Fiz um tratamento, voltei a estudar e conclui a minha licenciatura como um dos melhores alunos da minha faculdade, trabalhei durante nove anos no centro onde me tratei e hoje sou fotógrafo profissional com trabalho que é reconhecido e procurado, distinguiram-me como homem do ano em 2016, tenho hoje a minha família e não hesito em dizer que finalmente sou uma pessoa feliz. Acima de tudo sinto-me uma pessoa digna que não precisa andar mais de olhos postos no chão com vergonha de encarar as pessoas. Hoje sinto – porque vivi esta experiência até ao mais profundo dos poços da dependência das drogas – que a superação é possível, que a libertação é possível e acima de tudo é possível sermos felizes. Viver em paz com o nosso passado, tirar dele as melhores ilações para construirmos uma vida com sentido.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 890 de 19 de Dezembro de 2018.

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Autoria:António Monteiro,23 dez 2018 7:40

Editado porFretson Rocha  em  24 dez 2018 8:53

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