Estórias de um projecto de estórias

PorSara Almeida,29 dez 2018 10:01

​Começou por ser um projecto de estórias para o Benjamim. A bem dizer, ainda são estórias para o Benjamim, mas agora partilhadas na esfera pública com outras gentes, pequenas e graúdas.

O primeiro livro do projecto “Estórias do meu país inventado”, da autoria de João Fonseca, tem ilustrações de Sabino Gomes Horta e o traço característico da arte dos Rabelados. Recentemente editado pela Livraria Pedro Cardoso, “As tartarugas também choram” mostra um pedaço de Cabo Verde, das suas praias de areia, a biodiversidade, as desigualdades, mas também a possibilidade de (re)união. Outros pedaços serão entretantos mostrados em outros livros deste projecto que visa levar estórias às gentes, pintando narrativas poéticas e conceptuais da realidade cabo-verdiana.

A história do ‘Estórias’

Quando João e Inês se fartaram do ram-ram da sua vida em Portugal decidiram parar. Largar tudo e passar um período de experimentar a vida de outras paragens. Mindelo foi o local eleito para passar umas longas férias, na perspectiva de, se surgissem oportunidades laborais, ficar. As oportunidades apareceram, e durante dois anos e meio viveram em São Vicente, até que uma proposta de trabalho os levou para Santiago. Entretanto, a vida em Mindelo dera em vida: foi aí que nasceu Benjamim, o protagonista da história do Estórias.

No dia que foram visitar a casa para onde iriam viver no Tarrafal, depois de uma passagem de dois meses por Assomada, aconteceu um episódio que serviu de base à primeira estória de um projecto que João estava a germinar. Um projecto-prenda, em que cada aniversário do seu filho Benjamim seria celebrado com uma estória escrita por si.

Ao projecto, que contemplará cinco estórias, chamou “Estórias do Meu país Inventado”. Estórias que mais do que histórias, são retratos poéticos de várias facetas da realidade de Cabo Verde. Pedaços deste país, para que o Benjamim (que vai fazer três anos) mais tarde conheça o local onde nasceu e viveu: um país com tartarugas, onde há crianças que não têm água em casa, onde o rural e o urbano muitas vezes se (con)fundem, onde há desigualdade social, onde há também solidariedade, … onde há mar e montanha e vulcão…

Então, a cada ano uma estória, e a primeira estória, para o primeiro aniversário foi “As tartarugas também choram”. Havia o texto, mas nada mais. Isso surgiu depois. Numa visita à comunidade dos Rabelados, João lembrou-se: “Olha, podíamos pintar o livro para o Benjamim!” Falou com Sabino, um dos artistas da comunidade dos Rabelados, acertaram o preço e começou a aventura da ilustração da obra. (Ver caixa)

Entretanto, e porque os novelos das vidas se enredam, a Livraria Pedro Cardoso tomou conhecimento do projecto e mostrou interesse em editar o livro. E “uma coisa que era inicialmente para ser para o Benjamim” chega agora aos escaparates.

As estórias do ‘Estórias’

O acontecimento que deu origem a “As tartarugas também choram”, conforme narrado pelo autor, João Fonseca, foi o seguinte: “estávamos a passear na praia [do Tarrafal] e um rapaz mostrou-nos uma tartaruga bebé”. Tinha-a encontrado moribunda, semi-enterrada na areia. O rapaz “foi pô-la dentro de água, que é o gesto que simbolizamos aqui”, diz apontando a ilustração da capa. “Foi assim que nasceu ‘As tartarugas também choram’. Todas as estórias do “Estórias do Meu país Inventado”, têm, aliás, por base um “acontecimento real da sociedade cabo-verdiana que depois transformo”, explica.

Esta primeira estória do projecto “Estórias do meu país Inventado” aborda então o tema da biodiversidade, evocando as ambiências do Maio, Sal e Boa Vista onde as tartarugas nidificam.

“Era uma vez uma terra com Praias de areia branca e areia preta” é a frase que encabeça a abertura do livro (antes da estória propriamente dita). Uma abertura onde essa primeira frase muda, consoante as paisagens desta “terra país”, e o resto do texto se manterá ao longo das cinco histórias.

Mas nem só de preocupações com a Natureza fala o livro. Elas são parte integrante e, ao mesmo tempo, simbólica das preocupações sociais que percorrem a estória, que mais do que um manifesto pela preservação das tartarugas é um livro político.

A própria complexidade do texto, que proporciona leituras múltiplas, parece vir dar razão ao autor quando diz que um escritor que escreve – embora insista sempre em dizer que não é um – para um público infanto-juvenil nunca é um “escritor infanto-juvenil”. É um escritor. Ponto.

O livro mostra então as desigualdades sociais, os contrastes rico-pobre, mas também a forma como todos são iguais perante as riquezas naturais como a praia e o mar. “No Azul da Terra, as pessoas das casas pequenas eram iguais às pessoas das casas grandes”, lê-se na estória-livro. Ao mesmo tempo, apesar das coisas más que se vivem e acontecem, e há choros (reais e simbólicos) de pedidos de ajuda, a mensagem final é de esperança e solidariedade. De união dos “homens das casas pequenas” com os “homens das casas grandes”.

De certa forma, o que o autor faz é que pegar “nestas questões da pobreza” e tentar “transformar em coisas bonitas”, como ele próprio diz.

Venham mais quatro...

A segunda estória do projecto já está escrita e deverá em breve começar a ser ilustrada, de princípio por Josefa, a única mulher artista dos Rabelados. O tema é “a falta de água [canalizada] no interior das ilhas”.

A história que dá origem à estória é, desta feita, a seguinte: todos os dias, quando a esposa de João ia para a Calheta, onde estava a trabalhar, passava em Ribeira Principal por um grupo de crianças da mesma família que leva água à cabeça. “A irmã mais velha, de uns 10 anos, levava uma lata de 20 litros, um mais novo, uma lata de 10, depois o outro, atrás, uma de 5 e depois um bebé de pouco mais de dois anos, levava 1,5 litros”. João também viu essa forçada procissão várias vezes.

São crianças que, embora inscritas na escola, muitas vezes nem vão às aulas, às vezes por falta de dinheiro para o transporte, outras porque a família precisa que ajudem nas tarefas domésticas e agrícolas. O segundo livro é, assim, sobre as pessoas que nascem com falta de oportunidades, que vivem sem água canalizada e sem luz eléctrica no interior das montanhas. E o “cenário” é pois as ilhas montanhosas, nomeadamente o interior de Santiago, Santo Antão, São Nicolau…

Três outras estórias completarão projecto.

“O terceiro em princípio será sobre o Mindelo, sobre o problema do alcoolismo e dos cães abandonados da rua. Será também sobre a emigração e a falta de trabalho”, revela João Fonseca.

O quarto volume vai versar sobre a Praia, a forma como a capital se tem vindo a formar a nível urbanístico e o conflito entre a “cidade urbana” e o rural. “É sobre os bairros. A Praia tem duas realidades diferentes. Ainda há bairros com uma estrutura rural a nível de funcionamento”, mesmo no centro da cidade, aponta. É a cidade onde vacas andam na rua, enquanto passa uma caravana do Primeiro-Ministro. Onde nos bairros, mesmo nos mais urbanos, que nasceram com maior planeamento e albergam infra-estruturas públicas há criação de porcos e galinhas.

O quinto e último livro, parte da última erupção do Vulcão do Fogo, e do facto desta ter colocado em risco de extinção uma ave autóctone. “O gongon nidifica na cratera e estava em reprodução na altura da erupção. Esta espécie em concreto é única de Cabo Verde, não existe em mais lado nenhum”, explica. Felizmente, os gongons sobreviveram. Pretende-se nesta estória, “através desse acontecimento, criar a ideia do fim do mundo, dar a ideia do que as pessoas passaram, e mostrar que depois com a solidariedade, com ajuda, conseguimos fazer isto mais bonito e fazer com que as coisas avancem”.

“O primeiro está feito, o segundo está escrito e vamos agora pintá-lo. Vou escreve-los todos, mas não sei se serão editados”, resume ainda o escritor (que insiste que não o é).


Pintando a estória

A ilustração do “As tartarugas também choram” é provavelmente a maior aventura do livro. Há regras para as ilustrações de livro (como por exemplo, a criação de personagens e a construção de uma narrativa visual que, de alguma forma, siga a do texto) que Sabino não conhecia. Nas primeiras experiências “resumia toda a estória numa única pintura, incluía personagens novos e o personagem nunca tinha a mesma cor da roupa”.

Sabino, aliás, nem sabia muito bem o que era um livro ilustrado. Andaram, então, autor e pintor, as duas faces da mesma obra, pela Praia, nas livrarias, a ver exemplos para melhor compreensão da Ilustração. Passaram ainda por galerias de arte, mas também por cafés, hotéis, … Algumas realidades tiveram de ser (re)descobertas pelo pintor. Houve por exemplo dificuldade em desenhar uma “casa rica” (a estória fala em bairros de casas ricas e bairros de casas pobres). Foi preciso ver. Com olhos de ver e registar.

“A história da ilustração é maior do que a história do livro”, avalia agora João, o autor. Mas o resultado final compensou toda a aventura. E trouxe o traço inconfundível dos Rabelados, esse património cabo-verdiano, para um livro-estória.

Ainda sobre a ilustração, a ideia inicial era, como foi dito, que o livro fosse um presente privado para o Benjamim. Os quadros foram comprados inclusive pelo autor, com isso em mente. Com a edição agora, pela Pedro Cardoso, saltam, como refere João Fonseca, para a esfera pública, mostrando as obras que aquela comunidade, ainda tão sub-conhecida faz em Cabo Verde.

Para dar destaque a essas obras de Sabino, a paginação – a cargo de Inês Ramos – separa completamente texto e imagem, ocupando a ilustrações as páginas impares, por inteiro e sem qualquer alteração dos originais. O livro traz ainda um pequeno texto sobre a história da Comunidade dos Rabelados de Espinho Branco e sobre a Aldeia RabelArte, que teve como principal impulsionadora a artista plástica Misá.

De referir ainda que lógica do projecto é ainda de que cada uma das cinco histórias que o compõem seja pintada por um artista diferente dos Rabelados. E que as obras, que saltaram da tela para o livro, saltem agora para fora. Sejam expostas pelo país.

Além disso, o projecto pretende divulgar a arte dos Rabelados e nesse sentido, uma das suas componentes seria a realização de exposições com as ilustrações/pinturas da estória “As tartarugas também choram”, que foram pintadas em telas de pano.


“Estórias do meu país inventado”

Muito mais do que livros-objectos

“Eu sou um leitor, não sou um escritor”, diz João Fonseca.

Leitor-escritor, convenhamos, João tem uma visão da literatura infantil em que defende que “primeiro, é preciso livros e é preciso que as crianças vejam o livro como um brinquedo e não como uma coisa sagrada, que não é para estragar ou abrir”.

“Segundo, é preciso as pessoas contarem histórias às crianças e lerem, porque os primeiros leitores de uma criança, são os adultos. Ninguém aprende a ler com os próprios olhos, primeiro aprende-se a ler com os olhos de alguém”, acrescenta, na linha dos artigos que inclusive tem escrito para a revista Leitura, também editada pela Pedro Cardoso.

Assim, destacando-se a importância de contar estórias – algo que aliás faz parte “do imaginário cabo-verdiano” – a parte da contação de histórias é uma vertente fundamental do projecto

“O contador de histórias é uma coisa fabulosa, que se tem perdido com o tempo, com esta nova urbanização e com os novos modelos culturais da sociedade e então eu achei que devia associar a este projecto”, conta.

O próprio autor, para grupos mais pequenos e numa versão mais simples, mas também Valdir Brito,que contará a estória num formato de espectáculo de palco, dão cara e voz a esta vertente do projecto. O cenário está já pronto, e a estória-contada está adaptada para crianças do pré-escolar aos 10 anos.

Pretende-se, então, a partir de Janeiro ir às escolas, contar e socializar a estória. O número de escolas a visitar dependerá da receptividade das mesmas, dos apoios disponibilizados para o périplo, mas também das verbas resultantes da política de financiamento do projecto (nomeadamente o merchandising).

“Não procuro retorno económico nenhum com este projecto. O dinheiro que vier será para investir na contação de histórias”, diz João Fonseca. Mas o projecto tem de ser sustentável.

Assim, com vista a essa sustentabilidade, e recusando ficar à espera de reconhecimento e financiamento pelas entidades, foi criado algum merchandising para suportar os custos

Parte do dinheiro das vendas do mesmo destina-se ao artista plástico (o de Sabino Gomes Horta) e o restante servirá para levar o contador de estórias às escolas de Cabo Verde.

O merchandinsing contempla uma edição de sacos pintados à mão, numerada e limitada que estão a ser vendido mão a mão mas que deverão ser também disponibilizados em algumas lojas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 891 de 24 de Dezembro de 2018.

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Autoria:Sara Almeida,29 dez 2018 10:01

Editado porAntónio Monteiro  em  30 dez 2018 10:52

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