Projecto Xalabas. Txeka Zona*

PorChissana Magalhães,12 jan 2019 7:39

Mural pintado por Ananda Nahú
Mural pintado por Ananda Nahú(Xalabas)

​O nome oficial é Projecto Comunidades no Centro – A Identidade Local como Factor de Desenvolvimento do Turismo Sustentável. Mas todos o conhecem como projecto Xalabas di Kumunidadi ou apenas Xalabas. Em Outubro de 2018 completou-se um ano do início do projecto criado pela ONG África 70.

Financiado pela União Europeia e com a Associação Pilorinhu e a Câmara Municipal da Praia como parceiros, até à sua conclusão, em 2020, Xalabas pretende transformar Achada Grande Frente num dos pontos turísticos de referência da capital do país.

Isso mesmo. Fazer turismo em Achada Grande Frente.

Esqueça as imagens clichés quando se fala em turismo. Nada de praias de areia branca, espreguiçadeiras ao sol ou cocktails á beira de uma piscina. Também não se trata de “glamourização” da pobreza à moda de certas excursões às favelas brasileiras.

O que o projecto Xalabas pretende é a transformação e o desenvolvimento de Achada Grande Frente (AGF) de modo a atrair um turismo que beneficie directamente os habitantes do bairro e contribua assim para um maior desenvolvimento. Ou seja um círculo contínuo de causa-efeito onde a requalificação urbana do bairro joga um papel importante.

Geográfica e tradicionalmente voltada para o mar, AGF é uma comunidade piscatória, daí o nome “xalabas”, um objecto usado na pesca artesanal, escolhido como marca do projecto. Situado num dos dois planaltos (Achada de Santo António é o outro) que ladeiam a baía da Gamboa, com as melhores vistas da cidade da Praia, a escassos minutos do aeroporto e com o porto aos pés, o bairro não só tem potencial para figurar em roteiros turísticos modernos e sustentáveis como tem o que oferecer: cultura (é a casa de uma das três tabancas da capital) e gastronomia são apenas alguns dos diamantes em bruto que o projecto Xalabas está a trabalhar.

Com uma população de 4, 436 indivíduos (Censo de 2010), sendo 2832 com idades entre os 15 e os 64 anos dos quais apenas 1964 activos, o bairro cuja construção remonta aos anos 80 do século XX, tem sido marcado ao longo das últimas décadas por problemas sociais característicos de cenários onde os resultados da desigualdade social são bem visíveis. A violência e a criminalidade são alguns destes problemas. Contudo, os moradores que ouvimos são unânimes ao dizer que o ambiente no bairro melhorou muito nos últimos anos e mais ainda com o arranque do Xalabas di Kumunidadi.

                                             

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Ainda assim, quando em Dezembro regressamos ao bairro para registar os novos trabalhos em curso, tinham passado poucos dias desde que ali uma jovem fora assassinada pelo ex-companheiro, que de seguida se suicidou. Duas vidas interrompidas e que já não irão ter no florescer da comunidade uma oportunidade de um futuro mais colorido.

O novo colorido do bairro salta à vista logo á chegada. São as pinturas murais resultantes dos workshops de arte urbana realizados no âmbito do projecto (ver caixa).

“ Mais do que embelezar, o que mais interessa é chamar a atenção para as necessidades e levar as autoridades a equilibrar os investimentos”, diz Mariangela Fornuto, representante da África 70 e a coordenadora do projecto.

Luís Ferreira, morador da zona desde a infância, é o proprietário do grupo Foto Repórter e, como diz, fez questão de instalar no bairro um dos satélites da empresa, dando oportunidade de emprego a locais. Mas não é só. A empresa é uma das parceiras do projecto social e tem contribuído financeiramente para algumas das obras de arruamento que a Câmara Municipal vem promovendo em consequência deste e que criaram postos de trabalho na comunidade.

“ Está a ver essa rua calcetada?”, pergunta-nos, apontando uma viela que desemboca na rua onde tem a sua empresa. “Até há poucos dias era de terra batida. Pedi várias vezes que a viessem calcetar mas… nunca mais vinham. Poucos dias depois de pintarem ali aquele mural a Câmara mandou finalmente gente para a obra e em pouco tempo fez-se a calçada”.

Luis Ferreira acredita que uma das maiores vantagens do projecto Xalabas é dar e criar oportunidades para os jovens da zona – que diz serem muito discriminados no acesso ao trabalho na cidade, onde quando se sabe que são de AGF muitas vezes são rejeitados - abandonarem a delinquência e conseguirem uma ocupação, seja remunerada ou não.

“É perceptível uma diminuição na violência. Diminuiu o número de assaltos”, assegura. “Sei o impacto que isto está a ter junto dos jovens, na vida do bairro. A melhoria do ambiente…”

Qualquer oportunidade de emprego criada pelo projecto é ávidamente disputada pelos moradores. Daí ter havido alguma tensão quando se percebeu que nas obras de remodelação do antigo chafariz ia trabalhar o pessoal de uma empresa de construção civil de fora do bairro.

“ A empresa trabalha com trabalhadores formalizados, com contabilidade organizada, e nós também por obrigação do contracto do projecto temos que ter tudo formalizado. Mas conseguimos chegar a um acordo e alguns trabalhadores do bairro foram integrados na obra”.

O velho chafariz, até ali abandonado e vandalizado, vai ganhar vida nova. A parte traseira foi transformada em sanitário público. Na parte frontal está a nascer um quiosque, a ser comercialmente explorado por um grupo de mulheres do bairro.

Projecto Xalabas workshops
Projecto Xalabas workshops

São as MAE - Mulheres Activistas e Empreendedoras, um grupo de chefes de família que têm nos seus micro-negócios – venda de peixe, de alimentos, artesanato e outros, a sua fonte de rendimento.

“Queremos negociar com a Pró-Empresa um modelo de formação em micro-negócios que se adeqúe a estas mulheres”, explica Fornuto que adianta ainda que uma das próximas etapas do projecto será a criação do roteiro gastronómico.

Os bares e tascas de Achada Grande Frente já foram muito procurados pelo seu búzio e a sua moreia frita. A ideia, conforme explica a coordenadora, é recuperar essa tradição mas também criar novos pontos, com outro tipo de oferta (cachupa, pincho, etc.), de modo a estimular especialidade em cada ponto gastronómico e evitar que todos ofereçam o mesmo produto.

Já há um comité criado, integrado pela CMP, Câmara do Comércio e Escola de Hotelaria e Turismo, que irá apoiar a formação dos proprietários dos estabelecimentos seleccionados e a implementação desse roteiro gastronómico.

Os donos das casas que formarão o parque hoteleiro do bairro, através do sistema de homestay, ou turismo domiciliar, também serão capacitados para a oferta deste serviço.

“Optamos por não avançar com a promoção turística no primeiro ano. Antes, queríamos criar uma certa dinâmica e também criar condições para uma oferta de produtos e serviços”, explica Mariangela Fornuto reconhecendo haver já uma “fome” dos turistas pela zona.

É que mesmo sem ainda terem começado o trabalho junto às agências, já há um fluxo espontâneo de visitantes, sobretudo os que chegam nos navios cruzeiro que atracam no porto, em baixo, e das primeiras coisas que vêem da cidade são as casas de AGF plantadas à beira dos miradouros naturais do bairro e de onde se tem uma vista deslumbrante para o mar e para a marginal Charles Darwin.

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O projecto espera que a Câmara Municipal invista na requalificação e apetrechamento de pelo menos um desses miradouros. Outro investimento sonhado é na criação de um acesso pedonal ao porto. Grande parte dos habitantes de AGF recorre ao porto para trabalhar ou obter pescado para venda. No entanto, o acesso ainda se faz por caminhos improvisados na rocha íngreme. No porto funciona, sem as devidas condições, um mercado de peixe informal. Quer-se então a criação, de raiz, de um mercado de peixe próximo ao porto.

São muitos os planos e os sonhos. E, pelo meio, necessidades básicas como um melhor saneamento (o lixo continua a ser um problema), melhor distribuição de água e iluminação pública. A expectativa é de que antes que venham os turistas se supram estas necessidades. Não sendo possível, que a chegada destes provoque então as melhorias necessárias.

* Zona (expressão que se pode traduzir para “Note a [nossa] zona”) é o nome da web-TV comunitária criada no âmbito do projectoa partir da formação do núcleo multimédia.


Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 893 de 9 de Janeiro de 2019.

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Autoria:Chissana Magalhães,12 jan 2019 7:39

Editado porChissana Magalhães  em  14 jan 2019 9:49

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