Um lar como resposta social

PorSara Almeida,17 fev 2019 9:27

​Desde que as Aldeias SOS abriram portas em Cabo Verde, há 35 anos, com a inauguração das Aldeias de Assomada, que se têm vindo a assumir-se como uma das principais respostas nacionais a crianças que perderam, ou estão em risco de perder, os cuidados parentais.

O seu modelo de acolhimento, que tenta propiciar um ambiente familiar aos seus internos, é único em Cabo Verde. E por isso mesmo, o trabalho das Aldeias SOS tem sido reconhecido pela sociedade em geral e pelo próprio ICCA que, através da parceria que mantem com esta ONG, tem vindo nos últimos anos a encaminhar internos (cerca de uma trintena) para as suas estruturas.

“O trabalho de protecção infantil é um trabalho que não é, nem pode ser, de apenas uma organização”, aponta o director nacional das Aldeias SOS de Cabo Verde, Dionísio Pereira. Assim, esta rede é, pois, fundamental e as Aldeias vêm dar uma resposta complementar – mas em grande medida também diferenciada – ao trabalho de outras entidades públicas e ONG que lidam com crianças em risco, suas famílias e comunidades. A grande diferença parece ser, acima de tudo e como referido, a estrutura familiar que se tenta recriar.

“Procuramos conferir um lar a quem o perdeu no seio da família biológica, por via de acção das mães e tendo o director da aldeia como uma figura paterna”, explica Dionísio Pereira.

Visita às aldeias

Mas então como é a vida nas aldeias? Uma visita não é suficiente para uma total compreensão dessa vivência, mas dá para ter uma ideia.

Na manhã que visitamos as Aldeias SOS de São Domingos o ambiente está calmo. A maior parte das cerca de 90 crianças aqui acolhidas está na escola (frequentam a escola pública) e as poucas que não estão, brincam sem grandes alaridos. Empolgam-se, porém, quando vêem o director, José Alcides Moreira, e vêm a correr abraçá-lo. Estão sorridentes. Da tristeza, que acreditamos haver, não vemos sinal.

As crianças parecem, na realidade, felizes, mas “sabem que a sua realidade é diferente, por exemplo, dos colegas da escola”, observa o director desta Aldeia, José Alcides Moreira. É um fardo que carregam, mas que os funcionários da instituição, principalmente as mães, tentam aliviar.

Como causa primeira de entrada nas Aldeias SOS está, não a orfandade, mas a negligência dos pais muitas vezes associada às dependências. Um causa que é também o principal motivo de internamento em outras instituições, destacadamente os Centros do ICCA. Seguem-se os maus tratos. Tal como no ICCA. Mas se a raiz é a mesma, o funcionamento do internamento é diferente.

Quando uma criança aqui chega, aliás, antes ainda da sua vinda, avaliam-se as necessidades específicas, e estuda-se qual a casa/mãe em que se “encaixa melhor”. É despoletado todo um programa de integração da criança, incluindo o acompanhamento psicológico. Finda essa fase, a mãe, ainda que em articulação contínua com os técnicos, assume o cuidado da criança. Mais do que estar com uma instituição, tenta-se levar a vida “como uma família ‘normal’”.

Uma família “normal”

Há nove casas na aldeia de São Domingos. Visitamos uma delas. A casa da mãe “Maria” é arejada, com muita luz natural, espaçosa e limpa. No ar paira o cheiro de comida que sai da panela ao lume. Sala, duas casas de banho (uma com duches, outra com sanitários). As outras oito casas, dizem-nos, são em tudo iguais a esta casa da mãe “Maria”.

São quatro os quartos: um para a mãe; outro, com três camas, para as raparigas; e outros dois, com a mesma disposição para os rapazes. O quarto delas cheio de bricabraques, os deles, sem nenhuma vaidade ou mais cuidado que a limpeza.

“Maria”, que tem três filhos biológicos, já grandes, vive agora mais oito (cinco rapazes e três raparigas) filhos. E fala-nos também de outros que teve nas Aldeias e que já saíram de casa. Perdemos-lhe a conta. Ela não. Lembra-se de todos.

“Muitos filhos é problema”, brinca, bem-disposta. De resto, a tudo que responde acrescenta: “como numa família normal”.

“Eles brigam muito?”, Perguntamos. “Credo! Como numa família ‘normal’.” “São bem comportados?” “Alguns, como numa família normal…”

As meninas de “Maria” vão ficar nessa casa até saírem da Aldeia. Os rapazes, quando fizerem 14 anos irão passar a viver no lar juvenil, ali ao lado. Mas o laço não se quebra. Virão sempre visitá-la.

Além de Maria há mais 10 mães das Aldeias de São Domingos. São 11 no total, embora só nove vivam nas nove casas na Aldeias. O director explica as contas: “temos uma mãe que se reformou e levou as crianças com ela, pelo afecto que tinha. Essas crianças também já estavam muito crescidas. Temos ainda uma casa de acolhimento em Santa Cruz que abriu em parceria com a Câmara Municipal local e que constitui a nossa nova visão para o futuro”.

Aliás, há duas apostas em que as Aldeias SOS estão a investir actualmente, no sentido de proporcionar as respostas mais adaptadas ao bem-estar das crianças em risco: o trabalho com as famílias para promoção da reintegração familiar, mas também (quando ou enquanto esse não é possível) a criação de casas na comunidade. São casas que funcionam de forma semelhante à das aldeias (com uma mãe), mas que estão nos próprios bairros, nas comunidades. O factor instituicionalização esbate-se ainda mais, com essa integração na comunidade, acredita-se.

“Trabalhar com as famílias”

Entretanto, ao longo dos anos (a primeira “aldeia”, a de Assomada, foi inaugurada em 1984) tem havido uma diminuição do número de crianças internas. “Tem diminuído, não porque não haja necessidade, mas porque incorporamos uma nova valência que é menos conhecida, que é o trabalho de reforço nas famílias disfuncionais”, explica o director nacional, DionísioPereira. Com o reforço de capacidades psicológicas e económicas, as famílias já não entregam com tanta frequência as crianças às instituições. Este é um trabalho que vem na linha do paradigma seguido pelo ICCA e demais parceiros.

Esse trabalho com as famílias é também feito a jusante, por forma a promover a reintegração e tem vindo, inclusive, a mudar um pouco a filosofia das Aldeias. Há uns anos, uma criança quando entrava, ficava quase sempre até aos 21 anos. Hoje, trabalha-se a integração com a família de origem (desde que reunidas as devidas condições). E para promover a reintegração no seio familiar foi já criada a “Escola de famílias” que pretende capacitá-las para que a reunificação efectivamente seja possível.

Adopção, pelo contrário, não é uma opção. É uma matéria sensível e “não constitui a nossa filosofia de trabalhar. Trabalhamos é com a família biológica”, afirma o director das Aldeias de São Domingos.

“Fomos criados com o princípio de acolher aqueles que de outra forma não teriam amparo, orientá-los para a vida e prepará-los para depois fazerem os próprios voos, de modo que essa perspectiva de adoção não constituiu , nem constitui, a perspectiva do nosso trabalho”, explicita José Alcides Moreira.

Se a criança não puder ser reintegrada na família, fica nas Aldeias até completar 21 anos e todo o trabalho com as crianças é, pois, feito no sentido da criação dessa autonomia, dessa preparação para a saída.

É um modelo diferente, mas de facto funciona? Permite um desenvolvimento psico-emocional equilibrado às crianças? O espelho do sucesso e vantagem da resposta prestada pelas Aldeias é, para Dionísio Pereira, “o feedback recebido daqueles que um dia fizeram parte da família”,. Grande parte dos ex-internos continua a manifestar um grande afecto e ligação às aldeias (em particular às mães e aos “irmãos” da mesma casa), mantendo contacto e apoiando o seu funcionamento da ONG de várias maneiras.

“Isto representa algo que confirma a validação e a apreciação deste modelo”, resume.


254 crianças acolhidas em 2018

Não há estatísticas compiladas sobre as crianças institucionalizadas em Cabo Verde. Estas têm de ser fornecidas, em particular, por cada instituição. De acordo com dados que nos foram fornecidos, num levantamento informal sobre o número de crianças institucionalizadas (número esse que apontamos na reportagem da edição passada), as Aldeias SOS tinham, em finais de 2018, cerca de 160 crianças institucionalizadas. Entretanto, de acordo com a Brochura “Factos & Feitos 2018”, da própria ONG, durante todo esse ano, terão estado nas Aldeias (Assomada e São Domingos ) 210 crianças. Além disso, as Aldeias SOS foram ainda responsáveis por 15 crianças acolhidas em duas casas de Acolhimento (Tarrafal e Santa Cruz) e 29 crianças, no centro Social do Mindelo. No total, foram assim 254 crianças que no ano passado estiveram ao cuidado das Aldeias SOS de Cabo Verde, ONG que conta com 108 colaboradores.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 898 de 13 de Fevereiro de 2019.

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Autoria:Sara Almeida,17 fev 2019 9:27

Editado porDulcina Mendes  em  18 fev 2019 13:38

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