Os impactos da manipulação de informação são reais e assustadores

PorJorge Montezinho,28 abr 2019 8:56

​A ideia de uma relação virtuosa entre as redes sociais e a democracia parecia bastante sólida, até que a realidade aconteceu. Antes do impacto negativo, a internet ajudou a eleger Barack Obama e a derrubar ditadores um pouco por todo o mundo. Depois aconteceu o caso Cambridge Analytica, a chegada à Casa Branca de Donald Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. De repente, esquecemos que a tecnologia é neutra em termos de valores. Pode ser usada para os mais diversos fins: económicos, sociais e políticos. Pode ser usada para o bem e para o mal. Sophie Kwasny, Chefe da Unidade de Protecção de Dados do Conselho da Europa, esteve em Cabo Verde, onde participou na conferência Dados Pessoais, Redes Sociais Onlline e Democracia, organizada pela Comissão Nacional de Protecção de Dados, e falou com o Expresso das Ilhas sobre estas questões.

As redes sociais são inimigas da democracia?

É uma pergunta complicada, para começarmos. Penso que as redes sociais e, diria, as plataformas da Internet no geral, são uma grande oportunidade para a humanidade no seu todo, uma vez que todos temos acesso à mesma informação, podemos educar-nos de maneiras que nunca tinham sido possíveis antes, e falo em termos de acesso à informação, o que, para mim, é a chave para a democracia, mas há, de facto, alguns desafios pela frente. A informação que circula nessas plataformas pode ser manipulada e isso pode falsear a percepção da opinião pública. Já vimos casos destes e, presumo que seja onde queres chegar. Penso que hoje o grande perigo para a democracia é a existência de ferramentas que deviam ser usadas de forma neutra e para o benefício de todos nós. Penso que devemos ser muito cuidadosos na abordagem destes desafios. Penso também que já começamos a levar este problema muito a sério por que os impactos são reais e assustadores. Por natureza, sou optimista e espero que possamos continuar a beneficiar da tecnologia, mas de forma que não nos ameacem.

Penso que estamos a assistir a uma espécie de paradoxo. Porque até, digamos, 2016, a internet e as redes sociais eram consideradas “amigas” da democracia – houve a Primavera Árabe, a revolução iraniana através do Twitter – depois veio o Brexit e a eleição de Donald Trump e a internet e as redes sociais passaram a ser consideradas as “inimigas” da democracia. Conseguimos explicar esta contradição?

Eu dataria a questão ainda mais cedo, não 2016, mas indo até ao Snowden em 2013 e as revelações sobre a exportação de dados pessoais e a sua posse por entidades privadas e plataformas da Internet. O mundo da internet colapsou nesse dia e depois foi ficando cada vez pior. Quando pensávamos que tínhamos chegado ao fundo, conseguimos descobrir que as coisas eram ainda mais graves do que pensávamos. De facto, há um paradoxo, quando vemos, por exemplo, Tim Berners-Lee, um dos pais da internet, a pôr em causa a sua criação e a expor os perigos a que estamos sujeitos. Ou quando vimos os criadores de tecnologia, que trabalham em Silicon Valley, criadores de muitas das ferramentas que permitiram o acesso aos nossos dados, agora a tentarem reverter essas ferramentas. Hoje, penso, estamos conscientes do que representa a internet e penso que queremos reverter o caminho.

E como seremos bem sucedidos?

Não sei como seremos bem sucedidos, porque muitos dos modelos de negócios assentam precisamente nessa premissa.

Sei que estamos a falar de questões complexas, porque a tecnologia, no fundo, é neutra em termos de valores. É o uso que as pessoas lhe dão que a pode transformar em algo benéfico ou maléfico.

Claro. Penso que devemos continuar a argumentar a necessidade de termos salvaguardas. Tem de existir protecção e esta tem de ser implementada e reforçada. Temos de inserir na tecnologia funcionalidades que permitam que haja um total respeito pelos direitos das pessoas e isso é algo que pode ser feito.

Mas não considera assustador a forma rápida e acrítica como se instalam ideias nas nossas sociedades?

É uma questão de educação. Temos de educar as pessoas para que elas não acreditem em tudo. Eu sei que é difícil, e temos assistido a isso com todo este cenário actual de fake news, manipulação, inclusive de vídeos, que nos fazem questionar no que podemos confiar e no que devemos acreditar.

E onde traçamos a linha para essas questões?

É muito difícil. Mesmo que tenhamos consciência que existe o risco de sermos manipulados, como podemos saber no que confiar ou não? Como podemos verificar? Responder a estas questões será crucial para o futuro.

É o único caminho?

Absolutamente.

Mas os cidadãos também terão de ter essa consciência, procurar a verdade de forma individual e não apenas estar à espera que haja uma entidade que lhes diga no que devem acreditar ou não.

Claro que tem de ser a nível individual, mas, e peço desculpa, o papel dos meios de comunicação será também fundamental a esse respeito. Em assegurar que o que é contado é verdadeiro.

Mas nós também estamos a perder terreno para as redes sociais.

É verdade e é um problema. Reconheço que a informação circula livremente pelas redes sociais, sem qualquer preocupação com a veracidade e sem a supervisão de profissionais da informação. Mas é por isso também que o Conselho da Europa trabalha no desenvolvimento do que chamamos novas noções dos meios de comunicação, como se pode verificar o conteúdo dessas plataformas e as suas responsabilidades. Penso que a sociedade, a todos os níveis, e de forma individual, os cidadãos, têm de ter preocupação com aquilo que estão a receber como informação.

Sabemos que quando o Obama foi eleito e reeleito houve igualmente manipulação, e a análise de big data foi fundamental. O mesmo aconteceu com o Brexit e a eleição de Donald Trump. A diferença é que no tempo do Obama não houve críticas ao mau uso das redes sociais e das plataformas online. Ou seja, a internet é má apenas quando os resultados não são os que queremos?

Bem, hoje temos de forma bem patente o uso abusivo e as suas consequências. No futuro, poderemos ter um uso semelhante para o bem da humanidade. Isso será mais aceitável? Não sei se o posso afirmar. Nos casos que referiste, sabemos que houve violações claras de alguns direitos-chave. E penso que a manipulação benigna nunca violará esses princípios. Por isso, penso que o ponto de partida é muito diferente.

Claro que não podemos analisar de forma simples questões que são demasiado complexas, apesar de termos esse vício. Por isso, os governos terão de jogar também um papel fundamental nestas questões?

Absolutamente. Penso que o governo cabo-verdiano tem a perfeita noção do que está a acontecer em termos digitais e é bastante pró-activo. Do meu ponto de vista, o que vi foi Cabo Verde a ratificar duas convenções que considero fundamentais na era digital: uma sobre cibercrime e outra sobre protecção de dados. Penso que isso é um sinal extremamente positivo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 908 de 24 de Abril de 2019.

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Autoria:Jorge Montezinho,28 abr 2019 8:56

Editado porAntónio Monteiro  em  29 abr 2019 9:19

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