Menstruação: Mitos e factos para diferentes gerações

PorSheilla Ribeiro,22 mar 2020 8:35

Apesar de ser natural, a menstruação e tudo o que lhe diz respeito já foi e ainda é encarada de forma negativa e cercada de mitos. Nesta reportagem mulheres de diferentes gerações contam as suas experiências após a primeira menstruação, as conversas ou falta delas e o que se ouve dizer sobre o assunto na sociedade cabo-verdiana.

Teresa Neto de 47 anos menstruou pela primeira vez aos 14 anos. Sabia, antes mesmo de menstruar, do que se tratava devido à sua curiosidade que a levou a fazer perguntas às pessoas sobre o fenómeno.

O seu conhecimento, conforme contou, consistia em saber que uma menina menstruada é “considerada mulher” e que depois disso, ao envolver-se com homens, poderia gerar uma gravidez.

“Antes mesmo de menstruar, a minha mãe, que vivia em Portugal, tinha mandado para mim pensos. Embora ela vivesse longe nós falávamos, por isso ela preparou-me mandando-me pensos, caso eu tivesse minha primeira menstruação”, conta.

Na época, esclarece, quando menstruou pela primeira vez, o penso não era vulgar, as pessoas usavam aquilo que chamavam de “pano bidé”.

Os panos, explica Teresa, eram dobrados no formato dos pensos e colocados entre as pernas. Após usar era preciso lavar, secar e voltar a usar. Esta entrevistada aprendeu a usar o penso higiénico com uma prima e outras colegas.

Menstruar sem saber do que se trata

Aos 14 anos Sulan Sequeira, hoje com 37 anos, menstruou pela primeira vez. Na época ainda brincava na rua.

“Quando vi pela primeira vez a minha menstruação pensei logo que estava ferida. Eu nem sabia o que era menstruação. Por isso pensei que se tratava de uma ferida, fiquei com receio de voltar para casa porque eu estava a brincar e a minha mãe podia pensar que me tinha magoado durante a brincadeira”, recorda.

O medo fez com que Sulan se abrisse com a irmã mais velha que, entretanto, riu da sua reacção e depois “resumiu” o que se estava a passar.

Na altura, os pensos eram grandes e era costume as mães oferecer panos de bidé branco às filhas. “Era bem esquisito usar aqueles panos”, fala Sulan.

O receio de contar à mãe que tinha menstruado devia-se ao facto de nunca antes a progenitora ter tocado no assunto, segundo Sulan Sequeira.

Quando resolveu contar, a mãe não disse nada. “Ela nunca me explicou do que se tratava, nunca falou nada sobre o assunto comigo, apenas a minha irmã e ela nem sequer entrou em detalhes”, manifestou.

Sulan não sabia que poderia engravidar, muito menos que no mês seguinte voltaria a menstruar. Afinal, nem a mãe e nem a irmã lhe contaram sobre este facto.

“Na segunda vez eu disse à minha mãe, ela deu-me dinheiro para comprar penso”, descreveu. Entretanto, a cada vez que menstruava acabava por sujar-se, uma vez que não sabia como e não controlava o período e podia acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar.

“Lembro-me de uma vez no liceu, sujei-me porque não sabia que a menstruação estava prestes a vir. Aliás eu só comprava penso depois de ver o sangue. Havia uma colega angolana mais experiente então avisou-me que eu tinha sangue na saia”, lembra.

Naquele dia, contou, a colega andou atrás dela até a casa de banho, para que ninguém visse o sangue na saia. Na casa de banho, tirou a roupa, lavou, colocou um papel higiénico e voltou para casa.

As colegas não falavam sobre o período. Apenas no 5º ano (actualmente 9º ano) ao estudar a disciplina Formação Pessoal e Social (FPS), teve esclarecimento sobre o sangue que fazia uma visita todos os meses.

O medo da menstruação

Hoje com 25 anos, Dicla Pereira recorda com humor a primeira vez que menstruou aos 14 anos. Pânico, medo e caos são os sentimentos que a jovem utiliza para descrever o momento.

“Primeiro, eu não estava em casa. Na altura estudava o 8º ano, fui a um acampamento de mulheres organizado pela escola. Fiquei com pavor à menstruação porque uma das meninas do acampamento menstruou, ela sentiu-se mal, estava cheia de cólicas e tonturas e acabou por desmaiar, então meu primeiro pensamento foi que quando eu menstruasse ia passar pelo mesmo, por isso fiquei perturbada”, relatou.

Uma vez que se tratava de um acampamento de mulheres, tinham lá um estoque de pensos para as meninas usarem. Foi também no acampamento que aprendeu a usar o penso.

Depois de voltar do acampamento, a jovem recorda que levou mais de meia hora para ganhar coragem e pedir à mãe dinheiro para comprar pensos, devido a vergonha.

Apesar do medo, Dicla Pereira afirma que já sabia do que se tratava a menstruação por ser a mais pequena de uma casa cheia de mulheres. Entretanto, ainda que tivesse três irmãs mais velhas, a jovem reitera que não se lembra de ter tido uma conversa sobre as mudanças derivadas do período com a mãe.

“Antes de menstruar eu já sabia do que se tratava porque, além de presenciar em casa, já tinha ouvido falar na escola. Mas, com a minha mãe não me lembro de ter uma conversa sobre a menstruação, não me lembro dela ter tocado no assunto”, sublinha.

image

Mitos sobre o período

Ao Expresso das Ilhas Teresa Neto conta que a primeira conversa sobre menstruação com a avó referia-se aos mitos.

Criada pela avó, Teresa Neto revela que, após menstruar, a conversa girou à volta dos cuidados que devia ter a partir de então. Por exemplo, ninguém podia saber que estava menstruada, ao lavar o pano de bidé não podia deitar aquela água no caminho onde as pessoas passavam. Afinal, de acordo com as crenças da anciã, ninguém podia pisar aquela água.

Entre outros conselhos da anciã, Teresa Neto recorda que a avó aconselhou a não usar lixívia durante o tempo que estava menstruada, não podia usar produtos cheiro como perfumes nem carregar peso.

“Mas eu nunca fui chegada a mitos, fazia tudo aquilo que diziam que não se podia fazer e nada de mal me aconteceu”, ironiza.

Sulan Sequeira, 10 anos mais novo do que Teresa Neto, aponta mitos similares que ouvia enquanto adolescente.

“Sempre ouvi dizer que a mulher quando está com ‘chica’ não podia lavar a cabeça, não podia usar nada de cheiro. Só que depois constatei que não tinha nada a ver”, diz.

Com 25 anos, Dicla Pereira confidencia que entre meninas e rapazes da mesma idade sempre falaram abertamente sobre o período. Contudo, a avó paterna, relata, sempre chamou a sua atenção em que não podia usar lixivia, não podia comer laranja ou lavar a cabeça durante o período menstrual, para que o sangue não lhe “subisse à cabeça”.

“São sempre as mulheres mais velhas que dão esse tipo de conselhos, porque, segundo dizem, se o sangue subir a mulher acaba por ficar com problemas psicológicos”, riu-se.

E o que fariam ou fizeram de diferente?

Teresa Neto propala que tem uma filha de 25 anos e que, desde sempre, falou com ela sobre menstruação.

“Ela com uns 3, 4 anos via-me a colocar pensos. Houve uma altura em que apanhava o penso e colocava no meio das pernas (risos). Para ela era tão normal que quando menstruou pela primeira vez, na altura vivia com a minha mãe em Portugal, falou com o meu padrasto antes de falar com a minha mãe ”, anuncia.

Para Sulan Sequeira, a menstruação já “não é tanto um tabu”, tendo em conta que hoje, os pais falam mais abertamente com os filhos, assim como a escola ensina desde cedo sobre o assunto.

“Antes eram muito poucos os pais que falavam abertamente com os filhos. Por exemplo, eu sempre fui escuteira e mesmo no escuteiro não se falava sobre isso e agora nós preparamos as jovens para tudo”, exemplifica Sulan Sequeira acrescentando que mesmo tendo dois filhos rapazes aborda com eles o assunto.

“Se eu tivesse uma filha falaria abertamente com ela sobre a menstruação, mas hoje, as meninas estão mais espertas, mais abertas, então falaria com elas abertamente”, pondera Dicla Pereira.

O feminismo e a menstruação

Para Érica Miranda, feminista, a menstruação é um tabu “porque quem menstrua não está no centro das decisões mundiais”.

“O período menstrual, na sociedade patriarcal, é considerado um período de purificação da mulher, a menstruação é vista como algo sujo e impuro. Desde a antiguidade nós mulheres somos consideradas misteriosas e o tabu da menstruação cresce baseando-se num lado supostamente obscuro feminino que é expelido durante a menstruação, ou seja, os tabus menstruais estão no centro da origem do patriarcado”, diz.

Tabus culturais e informações erradas levam à estigmatização da menstruação, conforme opina Érica Miranda. E a estigmatização do período é “uma forma de misoginia e pode afectar a saúde mental e física das meninas e mulheres”.

Nessa linha de raciocínio, a feminista diz que as mulheres são acusadas de estar de TPM ou síndrome pré-menstrual, quando emitem alguma opinião mais contundente. Esta acusação é para Érica Miranda uma forma clara de descriminação, por passar a ideia de que a opinião ou crítica da mulher não é legítima mas sim emitida por mera questão de descontrolo hormonal.

“Inconstante, instável, carente, hipersensível, mal-humorada, é alguns dos adjectivos e expressão que associam à uma mulher menstruada”, observa.

Assim, considera ser importante engajar meninos e homens para que esse “preconceito” não persista enquanto “principais” agentes da estigmatização da menstruação. Para Érica Miranda, por causa dos numerosos tabus em torno do período, as mulheres, muitas vezes mantêm-se afastadas de actividades sociais.

Isto porque, continua, por vezes surgem piadas que as envergonha, fazendo-as desejar ficar fora das escolas e de ambientes de trabalho.

“As mulheres e meninas são mantidas à parte de diversas actividades sociais, abrindo espaço para que os homens continuem ocupando mais os espaços públicos. É hora de falarmos abertamente sobre menstruação, algo tão presente durante uma boa parte da vida de metade das pessoas do planeta”, argumenta.

A forma como a menstruação é falada muda num ritmo lento por causa da profundidade do enraizamento dos tabus menstruais nas culturas, crenças e histórias. Nessa linha, Érica Miranda diz que a mudança nos tabus precisa ser estrutural.

“Quem disse que não se pode fazer sexo durante a menstruação? Porque é no mínimo estranho não fazer sexo por causa de nojo mas, no entanto, admitimos que os nossos corpos sejam inundados de sémen”, questiona, acrescentando que da mesma forma que a menstruação é usada para minimizar as mulheres, pode ser usada como uma ferramenta para o empoderamento feminino. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 955 de 18 de Março de 2020. 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Sheilla Ribeiro,22 mar 2020 8:35

Editado pormaria Fortes  em  22 mar 2020 8:35

pub.
pub.
pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.