COVID-19 gera onda de solidariedade em todo o país

PorSheilla Ribeiro,10 mai 2020 10:49

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O “djunta mó” sempre foi um hábito dos cabo-verdianos. Neste contexto de crise, por causa da COVID-19, em que muitas pessoas estão impedidas de sair de casa em busca do ganha-pão, vários empresários, jovens e associações viram em si despertados um sentimento de solidariedade, especialmente para ajudar as famílias mais vulneráveis.

Conhecida na capital por ajudar aqueles que mais precisam, Safende Tudora (STO) é uma das muitas associações comunitárias que aderiram à onda de solidariedade provocada pela COVID-19. O presidente desta organização, Oracy Cruz, revela ao Expresso das Ilhas que começaram as suas actividades no dia 1 de Abril, quando entregaram cestas básicas a 24 famílias, num total de 119 agregados.

“Além de cestas básicas, distribuímos vários panfletos que informam e explicam quais as formas de prevenir o coronavírus. Depois, entregamos 50 kits de higiene com sabão e penso higiénico às mulheres a partir dos 16 anos”, diz.

No dia 22 de Abril, conta, a STO voltou a atribuir cestas básicas a 22 famílias, correspondente a 105 agregados, contabilizando assim, 224 agregados contemplados.

Oracy Cruz revela que no dia 21 desse mês, a STO iniciou uma campanha, no Facebook, cuja meta é conseguir 300 contos. Em 3 dias, a campanha já tinha acumulado pouco mais de 70 mil escudos.

“A ideia é ajudar pelo menos mais 400 pessoas de Safende e não só”, conta, confidenciando que as ajudas provêm de empresas e de emigrantes na diáspora. Para além disso, a associação abriu mão do dinheiro que vinha juntando para comprar uma viatura, de modo a abranger um maior número de famílias que, neste momento, “passam por uma situação complicada”.

A cesta básica distribuída por essa associação é, conforme o seu presidente, suficiente para aguentar as famílias até o fim do estado de emergência. As doações, explica Oracy Cruz, variaram de acordo com as características de cada família. Por exemplo, as famílias com crianças com necessdiades especiais ou idosos, receberam uma cesta básica maior.

“Por isso, apenas 22 famílias foram beneficiadas. Se tivéssemos optado por uma cesta básica com menos itens, mais famílias seriam contempladas, mas, optamos pela qualidade da cesta e não pela quantidade das cestas”, justifica.

Para o líder de Safende Tudora é preciso que o Governo dê mais “importância” ao papel das associações nas comunidades uma vez que estão “na linha da frente” no suporte às populações.

Outras associações, o mesmo acto

A Associação Kelém em Desenvolvimento, no bairro de Kelém, Achada Santo António, nos finais de Março beneficiou cerca de 150 famílias com cestas básicas. Estas foram, segundo conta o seu representante, resultado de doações dos emigrantes daquele bairro na diáspora, mas também de pessoas que se sensibilizaram com o trabalho daquela associação.

“Além disso, recebemos doações da organização Luxemburguesa Malta Sky e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, menciona o presidente da Associação Kelém em Desenvolvimento, Gerson Pereira.

No dia 24 deste mês, a Kelém em Desenvolvimento entregou, com a ajuda da Câmara Municipal da Praia (CMP), cerca de 100 cestas básicas, doadas pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, abrangendo não só famílias daquele bairro, mas também de outras comunidades como Jamaica, Alto da Glória e Casa Lata. No sábado (25) entregaram mais 20 cestas básicas doadas pela Malta Sky.

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“Como jovens desse bairro, conhecemos todas as famílias mais necessitadas, mas foram surgindo pessoas que vivem momentos complicados, mesmo que tendo um trabalho, devido à pandemia. Então, acudimos não apenas os vulneráveis, mas também aqueles que, de uma forma ou de outra, vieram até nós para pedir apoio”, aponta.

Relativamente às primeiras cestas básicas distribuídas, Gerson Pereira julga não serem suficientes para chegarem até o final do estado de emergência, uma vez que não contavam com a extensão do prazo.

Apesar disso, segundo o presidente da Associação Kelém em Desenvolvimento, a meta é atingir 300 famílias dentro e fora da comunidade Kelém, escolhidas através da Rede de Associações da Praia. Rede essa que, de acordo com este líder associativo, surgiu devido à situação que o país e o mundo vivem.

“Juntamos as forças de modo a interagir melhor com as autoridades e ajudar-nos uns aos outros”, avança Gerson Pereira, desta vez na qualidade de representante da Rede de Associações da Praia.

A Rede de Associações tem neste momento pouco mais de 20 associações e já distribuiu cerca de 1.800 cestas básicas na cidade da Praia.

“Temos enfrentado alguns constrangimentos a nível de articulação com a Câmara Municipal em alguns bairros porque a cesta não é suficiente para todos ou não vai para todos os lugares. Mas de uma forma geral, o trabalho com a CMP tem sido bom e lamento a questão de apoio financeiro que foi prometido pelo governo, porque muitos têm reclamado que tem demorado e outros até já perderam a esperança de serem contactados. Gostaria de chamar atenção para esta demora”, observa.

E em Eugénio Lima...

No bairro de Eugénio Lima, cerca de 187 famílias já receberam a ajuda da Associação Comunitária de Achada Eugénio Lima (ACAEL). Conforme a presidente da ACAEL, Ricardina Semedo, desde o dia 28 de Março que a associação vem realizando várias actividades no âmbito do combate à COVID-19.

Apontou como exemplo a sensibilização nas ruas da comunidade, informando as pessoas sobre o vírus, falando da importância de ficar em casa e explicando, nos estabelecimentos comerciais, sobre o distanciamento social e a não aglomeração de pessoas.

“Falamos com idosos que vivem sozinhos e famílias vulneráveis dando-lhes força e coragem e mostrando-lhes que não estão sozinhos. Cuidamos dos idosos que vivem sozinhos com alimentação, limpeza da residência e cuidados de saúde, além da entrega de cestas básicas. E oferecemos apoio e garantia de segurança aos nossos pensionistas no dia 13 de Abril”, descreve.

Pensando nas casas sem água canalizada, a ACAEL lançou ainda a campanha Água e Sabão. Recentemente, com o apoio de emigrantes, esta associação lançou uma campanha cujo objectivo era conseguir 4 mil euros, em doações.

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“Mas, com o término do estado de emergência dentro de uma semana, e objectivo passou a ser 2200 euros para reforçar e contemplar mais famílias”, confidencia Ricardina, complementando que a maioria das doações tem sido de filhos de Eugénio Lima na diáspora, mas que também residentes em Cabo Verde, empresas e outras associações de outros bairros da capital também têm estado a colaborar.

“As cestas básicas que nós entregamos não são suficientes para aguentar essas famílias até o fim do estado de emergência. Aquelas que foram entregues na semana passada já devem ter terminado e na segunda fase fizemos diferente, aumentamos o valor da cesta. Isto, tanto para reforçar aqueles que já tinham sido entregues e outros que ainda faltavam entregar”, considera.

Para além daquele bairro, a ACAEL distribui cestas básicas no Monte Pensamento, bairro onde a maioria dos residentes são pessoas do Eugénio Lima que foram para lá viver. Ricardina Semedo manifesta ainda esperança em conseguir ajudar mais pessoas, dependendo das doações da campanha que actualmente decorre.

“A nossa comunidade é bastante grande, com mais de 8 mil habitantes e a maioria trabalha no sector informal, principalmente rabidantes que, conforme for o dia, assim é a panela desse dia”, refere.

Empatia entre os estudantes no estrangeiro

Os estudantes no estrangeiro também estão sendo afectados, economicamente, pelo coronavírus. Nisso, o estudante de Gestão de Marketing, Júnior Lima, lançou, através das redes sociais, uma campanha para ajudar aqueles que passam por um momento difícil na cidade do Porto.

“A ideia de ajudar os estudantes surgiu depois de eu ter mandado uma carta para a embaixada de Cabo Verde pedindo ajuda para os estudantes no Porto e a sua resposta foi que não podiam ajudar porque não possuem meios para tal. Daí comecei a ajudar os alunos com dificuldades em comprar alimentos e estamos à procura de recursos para apoiar com outras despesas, tipo renda de casa, água e luz”, narra.

Até agora, a iniciativa fez com que cerca de 50 doações fossem realizadas. Mas, informa Júnior, 75 estudantes entraram em contacto pedindo ajuda.

“São estudantes que os pais não têm como mandar a remessa e outros que se sustentavam, mas que perderam o emprego porque não tinham contrato de trabalho”, profere.

A esses estudantes são-lhes dado um vale em cartão para comprarem o que quiserem. A campanha para ajudar aqueles que precisam na cidade Invicta, é feita boca a boca, nos grupos de estudantes existentes no Messenger e no Instagram. As doações estão sendo feitas na plataforma Mbway.

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As doações, na cidade da Praia, estenderam-se às máscaras. Foi pensando naqueles que “não podem” comprar esse bem que hoje é essencial, que Glória Martins e Lívia Semedo lançaram a campanha “Com vida 1000 máscaras”.

O objectivo é, conforme Glória Martins, confeccionar mil máscaras para serem doadas à algumas instituições de um dos bairros periféricos da cidade Praia. Além disso, a campanha visa ainda possibilitar aos costureiros algum rendimento durante o estado de emergência.

A campanha foi lançada há cerca de 7 dias e divulgada através da rede social Facebook. Cada pessoa pode contribuir doando pedaços de tecido que tenha em casa, de preferência em algodão, elásticos e linhas para costura, doando um valor monetário para aquisição de material para confecção das máscaras e suporte dos custos com os costureiros ou ainda confeccionado as máscaras.

A ideia é, de acordo com a nossa entrevistada, distribuir as máscaras antes do fim do Estado de emergência. Logo que estiverem prontas, continua, as máscaras serão encaminhadas para algumas instituições para que sejam doadas.

“Já temos a ideia de doar as máscaras para a Tenda El-Shaddai, também para a Associação de Crianças Portadoras de Necessidades Especiais, estamos a ver os grupos de pessoas com maior risco e comunidades pobres. Por exemplo, a igreja sugeriu-nos o bairro Jamaica. Onde a gente ver que há pessoas com menos acesso às máscaras, vamos levar as mesas”, afirma.

Glória Martins desafia às Câmaras Municipais a aproveitarem todas doações feitas pelas pessoas, em valor monetário ou tecidos, elásticos e linhas, para garantir aos costureiros um salário.

“Nós mobilizávamos, enquanto sociedade mobilizávamos os meios de produção. A partir daí seriam distribuídas máscaras para todas as pessoas, ou por um valor simbólico, ou de forma gratuita para quem não pode pagar. Seria uma boa ideia se as câmaras e as ONG, mesmo pessoas particulares aproveitassem essa experiência”, expressa. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 962 de 6 de Maio de 2020. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,10 mai 2020 10:49

Editado porJorge Montezinho  em  11 mai 2020 8:24

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