Mulheres estão cada vez mais actuantes no mundo dos negócios

PorSheilla Ribeiro,21 nov 2021 8:34

Cada vez mais as mulheres têm conquistado seu espaço na sociedade, sobretudo no empreendedorismo. O Dia Internacional do Empreendedorismo Feminino foi assinalado a 19 de Novembro, razão pela qual o Expresso da Ilhas traz nesta reportagem relatos e experiências de duas mulheres empreendedoras.

Os desafios que se impõem aos negócios em Cabo Verde, sobretudo as ambientais, são enormes. Ainda assim, Cleusa Delgado resolveu focar em energias renováveis, para empreender.

Foi em 2018 que Cleusa Delgado teve a ideia de abrir uma empresa dedicada à instalação de energias renováveis. Conforme conta, depois de se formar em Instalação e Manutenção de Sistemas Fotovoltaicos de Produção de Energia Eléctrica, no Centro de Energias Renováveis e Manutenção Industrial (CERMI), começou a trabalhar numa empresa de vendas de materiais renováveis.

Entretanto, esta mulher empresária queria fazer trabalhos práticos e não apenas vender materiais de instalação de energias renováveis. Assim, convidou uma antiga colega para juntas abrirem a Eletrosol, Energias Renováveis Lda.

“Depois tivemos a necessidade de convidar mais dois antigos colegas, homens, para fazerem parte da empresa. Então, desde 2019, temos vindo a fazer instalações de painéis solares e não só”, narra.

Por sua vez, Zeila Tavares quis apostar numa área que ajudasse a população da ilha de Boa Vista, a Saúde. Foi assim que criou a Tavares Laboratórios, hoje com certificado para a realização de teste PCR, de despiste de COVID-19, com capacidade de realizar até 10 mil testes por semana.

“A Tavares Laboratórios é uma policlínica com quase dois anos de funcionamento e o nosso forte é o laboratório, minha área de formação. Começamos com aparelhos e análises que até então não eram realizadas na ilha da Boa Vista”, diz.

A empreendedora lembra que antes, na Boa Vista, era preciso esperar meses até obter a resposta de uma análise, quando solicitada por um médico. Situações que a motivaram a formar-se na área, de modo a contribuir para a saúde da ilha.

Conforme salienta, neste momento está a trabalhar para aumentar os serviços da Tavares Laboratórios e daqui a algum tempo abrir um Hospital Privado com todas as condições de Saúde Pública que o mercado nos exige.

Desafios da mulher empreendedora

Para Cleusa Delgado, no início, o maior desafio tinha a ver com o facto de ser mulher a empreender em energias renováveis. Facto que levou à procura de mais sócios, homens.

“Quando eu e a minha colega, mulher, íamos fazer algum trabalho havia sempre uma certa desconfiança. As pessoas não acreditavam que nós podíamos fazer aquele trabalho. Então, propusemos dois ex-colegas, homens, à sociedade para termos um suporte masculino já que nesse ramo de negócio, em específico, não acreditam muito na mulher”, afirma.

No início, a Eletrosol, Energias Renováveis Lda. fez uma parceria com a CERMI que arranjava trabalhos que surgiam. Depois, segundo Cleusa Delgado, trabalhou com a Electra na iluminação pública.

Desde o seu surgimento, a empresa já fez inúmeros orçamentos. Contudo, o número de instalações é três vezes menor.

“Já fizemos muitos orçamentos, mas ainda pouca gente fez a instalação, até porque muitos têm de fazer empréstimos no banco. E só agora, um ou outro banco começou a conceder créditos para as energias renováveis”, diz.

Na mesma linha, Zeila Tavares considera que, como mulher, ao empreender os desafios duplicam a realidade do país.

“No nosso contexto, geralmente um homem sai para trabalhar, depois chega em casa e já não há muitas preocupações para dar respostas. Já nós, as mulheres, somos mães, esposas, filhas, sobrinhas… É como trabalhar em duas empresas. Para mim, a maior dificuldade é conciliar as funções”, observa.

Ou seja, ser empreendedora, sem deixar de ser mãe, esposa, sem esquecer a lista de compras, de preparar a mochila do filho e ainda resolver questões particulares que uma empresa exige.

Um outro desafio apontado por Zeila Tavares é a desacreditação na capacidade das mulheres que ocupam determinados cargos, ainda que pouco a pouco o cenário esteja a mudar.

“Por exemplo, no momento da construção da clínica, na hora de debater com os empreiteiros, pintores, pedreiros, uma área em que as mulheres não têm 100% do domínio, foi estranho ter de dar ordens aos homens e dizer que não queria que o chão fosse de um determinado tipo, ou que era preciso ser mais nivelado”, exemplifica.

Expectativa vs. Realidade

Cleusa Delgado pensava que por a energia renovável ser considerada o futuro, abrir uma empresa na área seria fácil. Todavia, cita que além dos impostos, há vários constrangimentos no que concerne às energias renováveis em Cabo Verde.

“Há época em que passamos meses sem nenhum trabalho e quando aparece algum não há material no mercado para se fazer a instalação. Apesar do que as pessoas dizem, de que a energia renovável é o futuro, ainda há muito a desejar no nosso país. Não só por causa da procura, mas também pelo material disponível no país”, profere.

Durante o ano de 2021, até ao passado mês de Junho, Cleusa Delgado conta que a empresa não tinha feito uma única instalação. Passados seis meses do início do ano, aumentaram as instalações.

“Isto porque muitas vezes as pessoas pedem o orçamento e por ser um valor elevado, voltam depois de meses para fazer a instalação. Mas, quando é assim temos o tal problema de material. As pessoas querem logo os painéis instalados, no entanto, levamos no mínimo um mês inteiro para tal, porque temos que esperar que o fornecedor tenha os materiais necessários”, relata.

Até agora, a maioria das instalações que a Eletrosol, Energias Renováveis Lda. tem feito tem sido em casas de famílias, ao contrário do que Cleusa Delgado imaginava ao conceber a empresa. Isto porque é um investimento que custa, no mínimo, 400 mil escudos. Isso num kit de três quilowatts.

“No fundo, ainda temos a esperança de que as energias renováveis sejam o futuro de Cabo Verde e que vão aparecer muitos trabalhos e projectos”, espera.

Já Zeila Tavares, aponta que sempre teve a ideia de que empreender não seria fácil, contudo, não tinha a real noção de quais eram e quais serão as lutas que ainda tem a travar.

“Cada dia aparece um dragão para ser derrotado. Deparei-me muito com problemas institucionais aqui em Cabo Verde e há muita falta de informação”, precisa.

Por esta razão, salienta que empreender significa estar sempre à procura de novidades e de estratégias que possam firmar a empresa para que possa estar de pé e dar cada vez mais respostas que o mercado esteja a necessitar.

“Não as respostas que já foram dadas mas sempre a inovar. Empreender é a necessidade de estar continuamente em alerta e a pensar. Para mim é uma luta diária, um esforço contínuo, um stresse também”, pondera.

Zeila Tavares revela que sem ser a parte financeira, o que a motiva a empreender é a vontade de ajudar e de trabalhar com o público.

Assim, espera até o final do ano que a Tavares Laboratórios tenha 100% dos equipamentos que podem ser encontrados nos laboratórios das ilhas de Santiago e São Vicente, bem como a nível internacional. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1042 de 17 de Novembro de 2021.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,21 nov 2021 8:34

Editado pormaria Fortes  em  22 nov 2021 11:22

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