Fundação Nadeje inaugura sede em Santa Cruz

PorSheilla Ribeiro,22 nov 2021 8:13

Em 2016, Mónica Sofia Duarte fundou, na República Checa, a Fundação Nadeje. Em 2019 criou a Câmara do Comércio Checa-cabo-verdiana. Em Novembro de 2021 inaugurou, em Santa Cruz, a sede da fundação Nadeje ou Esperança Cabo Verde.

A engenheira e empresária na República Checa é natural de Santa Cruz e fundou a Nadeje Cabo Verde para apoiar, principalmente, crianças, jovens e mulheres desfavorecidos no que tange ao acesso à saúde, à educação, à cultura, ao desporto, à música, à integração na sociedade e ao desenvolvimento pessoal.

Segundo Mónica Duarte, a Nadeje ou Esperança Cabo Verde também visa apoiar a comunidade cabo-verdiana na República Checa e em Portugal.

Desde a sua criação, a fundação beneficiou mais de 10 mil crianças e famílias, abriu 16 centros juvenis equipados com mais de 200 computadores, televisão e acesso a internet, no concelho de Santa Cruz.

Computadores que também foram distribuídos em algumas escolas básicas do interior de Santiago e a estudantes desfavorecidos, além de presentear com dois autocarros escolares o concelho de Santa Cruz e um no Tarrafal de Santiago.

“Oferecemos esses autocarros porque sabemos o problema que as pessoas do interior enfrentam quanto ao acesso ao transporte escolar. Durante a pandemia da COVID-19, a fundação enviou um ventilador ao Ministério da Saúde, centenas de respiradores, milhares de máscaras, álcool gel, materiais à Protecção Civil e Bombeiros”, diz.

A fundação também pretende oferecer uma ambulância a cada município do país. Até agora, apenas a ilha de São Nicolau foi contemplada com uma ambulância completamente equipada. Aos poucos, de acordo com as prioridades, os outros municípios também serão contemplados.

Projecto Casa dos Sonhos

Em declarações ao Expresso das Ilhas, Mónica Duarte narra que há um ano surgiu o projecto “Casa dos Sonhos”. Segundo conta, após ter constatado o problema habitacional, durante uma visita ao país, quando chegou à República Checa, lançou o projecto.

“Um outro problema social, não só de Cabo Verde, mas de toda a África, é a habitação. Se nós não começarmos a tentar solucionar este problema agora, daqui a pouco as pessoas, principalmente os jovens, vão ter problemas para construir uma casa”, justifica.

Por esta razão, o projecto que inicialmente pretendia reabilitar 100 casas, decidiu reabilitar 110 casas de todos os municípios. Em cada município cinco famílias serão contempladas com o projecto.

“Já arrancamos com o projecto em Santa Cruz e vamos iniciar agora em Calheta de São Miguel. Vamos também para Santa Catarina, Ribeira Grande de Santiago e depois para Ribeira Brava e Tarrafal em São Nicolau. O projecto vai sendo alargado aos outros municípios no decorrer dos anos”, explana, acrescentando que se trata de um projecto orçado em meio milhão de euros, com 7500 a 9 mil euros para cada casa.

Antes da pandemia, Mónica Duarte confessa que a Nadeje Cabo Verde pretendia reabilitar essas casas em dois anos.

“Trouxe dois contentores da República Checa com materiais de construção, então se calhar vamos conseguir reconstruir todas as casas em menos de dois anos. Contudo, os preços dos materiais de construções subiram muito e então tivemos que reavaliar os orçamentos”, discorre.

O objectivo, prossegue, não é apenas reabilitar, mas sim oferecer uma verdadeira casa dos sonhos com tudo que cada família sempre sonhou. Neste caso, a presidente da fundação Nadeje aponta aspectos como uma casa com mosaicos, frigorifico, televisão, um quarto e uma casa de banho equipada.

Aliás, conforme realça, para a Nadeje Cabo Verde, as casas de banho não são luxo e sim uma necessidade.

“A minha força de vontade infelizmente, ultrapassa as minhas possibilidades”, afirma Mónica que menciona que a procura por reabilitações, supera a actual capacidade da fundação, principalmente na ilha de Santiago.

Tendo em conta a demanda, a presidente da fundação declara que tiveram de definir alguns critérios para a selecção.

Para que uma família seja contemplada com o projecto, a primeira regra é ser jovem, com o máximo de 40 anos de idade, dado ser a classe “mais avulta e onde o problema habitacional é maior”.

Também têm prioridade as mães solteiras, com maior número de filhos menores, além das famílias com crianças portadoras de deficiência.

“Damos também prioridade àqueles cujo rendimento mensal é inferior a 50% do salário mínimo. Tentamos focar na classe jovem porque é a classe que mais precisa e nas crianças, para que possam viver numa condição condigna. Não vamos focar nos idosos porque não vão viver por muito tempo e depois haverá um problema de herança entre os filhos”, fundamenta.

Ajudar os homens para aliviar as mulheres

Mónica Duarte denota que um outro projecto da fundação concerne à Educação Cívica para os homens, cujas inscrições se iniciaram agora.

“Acredito que queremos ajudar as mulheres, mas focamos muito nelas quando a maioria dos problemas estão nos homens. Por exemplo, fui visitar a cadeia central e pude constatar que a maioria dos presos não conhece o respectivo pai”, ressalta.

A presidente da Nadeje reconhece que foi a partir de então que pensou que para ajudar as mulheres, é preciso começar a ajudar os homens, através, por exemplo, de uma formação cívica na sua localidade, Santa Cruz.

“Estamos a pensar tornar esse projecto nacional porque pensávamos que as pessoas não iam estar interessadas e até oferecemos incentivos para poderem candidatar-se. Agora temos tantos inscritos que vamos precisar de mais professores e uma sala maior para dar formação”, realça.

Hospital Nadeje

Um outro projecto da fundação Nadeje e que Mónica Duarte define como sendo “muito ambicioso”, é a construção de um hospital que complemente os serviços prestados a nível nacional.

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Assim sendo, especifica que seria um hospital cabo-verdiano e checo, constituído por profissionais dos dois países, mas com tecnologias “avançadas” da República Checa.

Isto, segundo a entrevistada, para ajudar Cabo Verde com o que aquele país tem, sobretudo nas áreas médicas com “mais problemas”, nomeadamente a nível cardiológico e oncológico.

“Estamos a trabalhar no projecto e já temos parceiros na República Checa, temos também parceiros turcos. Vamos planear tudo e depois apresentar de forma oficial ao governo e ver como prosseguir”, comenta.

Mónica Duarte assegura que quer um novo hospital público, todavia sem substituir os hospitais existentes. Ou seja, clarifica, seria um novo hospital em parceria com o Ministério da Saúde.

“Poderíamos focar nas áreas em que há défice, por exemplo a cardiologia, a oncologia, a maternidade, salas cirúrgicas, materiais, médicos e não só. Aqui temos problemas com médicos especializados porque o salário é diferente da Europa. Então temos que motivar as pessoas de forma diferente e motivá-las a virem para cá trabalhar”, argumenta.

Uma solução seria um intercâmbio de médicos cabo-verdianos na República Checa e vice-versa, como ilustra.

Actualmente, a Nadeje Cabo Verde está a avaliar uma possível localização do hospital. Isto posto que tinha de ser um ponto estratégico, na ilha de Santiago, próximo dos hospitais já existentes e onde há um maior número de população possível para que seja acessível a todos e a todas as ilhas.

“Inicialmente pensamos em Santa Cruz, mas, definitivamente, não beneficiaria o país em geral”, admite.

Para a realização de todos os projectos, a fundação vai produzir, na própria sede, jóias, calçados e roupas que serão vendidas juntamente com a marca “Mónica Sofia”, visando gerar empregos e rendimento.

Conforme Mónica Duarte, a Nadeje Cabo Verde sempre funcionou com o apoio das suas empresas e tem como principal parceiro a Câmara de Comércio Checa-cabo-verdiana e as empresas membros daquela instituição.

“Queremos parcerias com as instituições públicas como a Associação dos Municípios para promoverem os nossos projectos e até para fiscalizarem-nos. Porém, não queremos ser mais uma fundação que vem aqui fazer projectos para angariar fundos ou tirar o dinheiro da sociedade. Eu prefiro que a fundação funcione como um património e é um património”, garante.

Câmara do Comércio Checa-cabo-verdiana

Nos finais de 2019, Mónica Duarte fundou, com o apoio do governo checo, a Câmara de Comércio Checa-cabo-verdiana da qual hoje é vice-presidente, como forma de equilibrar o social e o económico, uma vez que os checos “estão interessados em investir em Cabo Verde”.

Desde a sua fundação, a Câmara do Comércio Checa-cabo-verdiana já realizou várias actividades como o Fórum de Investimento entre os dois países, realizado no ano passado e que contou com a participação do vice Primeiro-ministro e dos presidentes das Câmaras de Comércio nacionais.

“Neste momento temos sete empresas checas em Cabo Verde. Conseguimos realizar o nosso projecto do condensador de água a partir do ar, usando a energia solar. São condensados mais de 200 litros de água diariamente. Este condensador foi oferecido ao governo e está em Porto Madeira a condensar todos os dias água destilada”, informa.

A Câmara do Comércio Checa-cabo-verdiana vai ainda trazer um condensador que irá condensar até 7 mil toneladas de água, diariamente, a partir do ar. O aparelho, de acordo com Mónica Duarte, será montado e comercializado para outros países da CEDEAO.

Entre os feitos da Câmara de Comércio que fundou, Mónica cita a mobilização de investidores para comprarem, em plena pandemia, empresas de turismo na República Checa que operam em Cabo Verde.

“Como resultado tivemos no dia 5 de Fevereiro, o primeiro voo da República Checa para Cabo Verde e até hoje temos, todas as semanas, um voo que vem à ilha do Sal e agora à Boa Vista. Também influenciamos os polacos a virem”, cita.

“Recebemos agora, neste mês, centenas de checos que não vieram somente a Sal e Boa Vista mas também a Santiago. Porque nós queremos expandir o turismo não só para Boa Vista, mas um turismo de todo Cabo Verde, um turismo não all inclusive que é o que acreditamos que beneficiará o país”, continua.

Segundo Duarte, há em Cabo Verde membros da Câmara do Comércio Checa-cabo-verdiana que irão produzir vitaminas e outros que irão trabalhar com a energia solar.

Além disso, a entidade está a trabalhar para que haja uma representação oficial da Škoda Auto, uma companhia automobilística internacional da República Checa.

Actualmente, a Câmara do Comércio Checa-cabo-verdiana é presidida por Kamil Bahbouh, dono do projecto “Redonda Central Resort”, um projecto que visa a criação de uma “nova cidade” sustentável, no município de Santa Cruz.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1042 de 17 de Novembro de 2021.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,22 nov 2021 8:13

Editado porClaudia Sofia Mota  em  23 nov 2021 8:45

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