“Estou muito grato a este povo que me ajudou a exercer a minha profissão da melhor forma possível”

PorAntónio Monteiro,1 jan 2022 8:59

O médico-cirurgião egípcio Morris Haroun Makar Bashier chegou a Cabo Verde, em 1983, com um contrato de trabalho com a duração de um ano. A paixão pela profissão e o afecto “pelo povo destas ilhas” deram outro rumo à sua vida e acabou por ficar em Cabo Verde mesmo depois da reforma.

Em conversa com o Expresso das Ilhas, o dr. Morris, como é carinhosamente tratado pelos praienses, fala da evolução da medicina em Cabo Verde desde os princípios dos anos 80 até à presente data, das amizades que cultivou com seus colegas de profissão, dos pacientes que tratou e do país que se tornou na sua segunda pátria e onde foi alvo de três homenagens em reconhecimento pelos serviços prestados à saúde pública cabo-verdiana.

Como é que um jovem médico egípcio descobre Cabo Verde e vem trabalhar aqui?

(Risos). Não descobri Cabo Verde, porque naquela altura era difícil saber onde ficava. Corria o mês de Janeiro do ano de 1983 quando o governo de Cabo Verde solicitou à Cooperação Egípcia a vinda de um médico-cirurgião com carácter de urgência, pois havia falta de quadros médicos na altura. Então assinei um acordo de trabalho com a Cooperação Egípcia e cheguei a Cabo Verde no dia 19 de Julho de 1983.

E no dia 19 de Junho de 2017 foi condecorado pelo Governo de Cabo Verde com o Segundo Grau de Medalha de Mérito Profissional, pelos serviços prestados à Nação desde Julho de 1983.

Sim, mas não foi só daquela vez. Anteriormente já tinha sido condecorado pelo Presidente Mascarenhas Monteiro e pelo Presidente da Câmara Municipal da Praia, Felisberto Vieira. Creio que sou o único médico que foi condecorado por dois partidos diferentes: pelo actual Primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva, do MpD, pelos servidos prestados ao país e enquanto cidadão da Praia pelos serviços prestados ao município, pelo então presidente da Câmara Municipal da Praia, Felisberto Vieira. Além da já referida condecoração pelo Presidente Mascarenhas Monteiro.

Na homenagem de 2017, o governo destacou que o seu nome fica na galeria de grandes homens de Cabo Verde que ganhou, por mérito próprio, o direito de ser considerado um dos expoentes máximos da medicina e da cirurgia cabo-verdianas. Com que sentimentos ouviu estas palavras?

Uma homenagem em vida é sempre boa e importante. Senti muito orgulho pela distinção do governo, mas principalmente pela gratidão do povo de Cabo Verde que me ajudou para que merecesse essa condecoração.

Chegou a Cabo Verde com um contrato de um ano. Ter-lhe-á passado então pela cabeça que essa relação de trabalho iria perdurar por mais de três décadas?

Na verdade, vim com um contrato de cooperação de quatro anos, renovável uma única vez. Depois passamos ao regime de semi-cooperação em que o Egipto pagava metade do meu salário e Cabo Verde metade. Findo esse regime, o governo de Cabo Verde pediu para ficar e estou aqui há quase quarenta anos. De facto, nunca me passou pela cabeça que iria ficar em Cabo Verde por todos esses anos. No princípio deparei-me com muitos obstáculos para exercer medicina em Cabo Verde, mas estranhamente as coisas resolveram-se mais depressa do que eu pensava. E fiquei.

Que tipo de obstáculos?

Não vale a pena falar disso. Como disse, o problema foi resolvido da melhor forma possível.

Por que resolveu ficar em Cabo Verde?

Na altura havia no Egipto muitos médicos iguais a mim, mas aqui em Cabo Verde havia falta de médicos-cirurgiões e era muito necessário eu ficar aqui, porque havia muitos pacientes que precisavam do meu trabalho. Só isso e a paixão pelo exercício da minha profissão. E o terreno era fértil para a gente trabalhar aqui.

Li também que conseguiu evitar que muitos pacientes fossem evacuados para fora.

Sim, felizmente.

O dr. Morris diz que muito do seu sucesso aqui dependeu da equipa com a qual trabalhou. Podia explicar melhor?

Olhe, a cirurgia não se resume ao indivíduo, a cirurgia é equipa, material, circunstância e paciente. O paciente tem que confiar nas pessoas que o vão operar. A cirurgia é um ramo totalmente diferente da medicina. Você vai a um médico, ele passa uma receita, se você não gostar joga fora. Já na cirurgia, se você não gostou da operação vai passar mal pelo resto da vida. Ou seja, a cirurgia depende do grau de confiança entre o paciente e a equipa do médico: a começar pelo anestesista, instrumentista e serventes. Tudo isso faz parte do sucesso da cirurgia. Como disse acima, a cirurgia depende da confiança no médico, porque o paciente entrega o seu corpo ao cirurgião. E a operação deixa marca nas pessoas, as cicatrizes: é a assinatura do médico.

Quantas operações realizou em Cabo Verde em todos seus anos de serviço?

É difícil de dizer. Só sei que consegui acabar com a lista de espera em Cabo Verde e até muitas cirurgias que estavam há muito tempo pendentes. Quando me reformei, em 2016, não deixei nenhuma cirurgia pendente. Só isso. De facto, no início registava todas as minhas operações, mas como em Cabo Verde não havia nenhuma estatística sobre isso, desisti.

O dr. Morris acompanhou a evolução da medicina em Cabo Verde de 1983 até à presente data. Que aspectos dessa evolução destacaria?

Logicamente que a medicina evoluiu não só em Cabo Verde, mas em todo o mundo. A mortalidade infantil baixou não por causa do mérito deste ou daquele, mas por causa das vacinas e do avanço da medicina em todos os ramos. Por exemplo, em 1991 começamos em Cabo Verde com a laparoscopia. Agora está parada por falta de material. Em 1992, uma equipa de cirurgiões formado pelo dr. José Maria [Martins], dr. Vera-Cruz, dr. Bernardino Afonso e eu, fizemos 105 cirurgias numa única semana. 105 cirurgias de laparoscopia e está registado. Depois fizemos outras operações com uma equipa portuguesa que se deslocou a Cabo Verde chefiada pelo cirurgião madeirense dr. José Maria Correia Neves que implantou a laparoscopia em Cabo Verde. Agora infelizmente está parado.

Tem afirmado que uma das razões que o levaram a ficar em Cabo Verde foi a paixão e o afecto “pelas gentes desta terra e pela sua simpatia”.

De facto, o bom trato deste povo foi superior a tudo o mais.

Que amizades cultivou com seus colegas de profissão e com os seus pacientes?

Primeiramente gostaria de dizer que raramente tive conflito com meus colegas e os meus pacientes podem comprová-lo, pois sempre que regresso a Cabo Verde tenho muitos doentes à minha espera.

Em 2017, depois de reformado, regressou ao seu país, mas acabou por voltar. Qual foi a motivação?

Estive um ano no Egipto, mas sentia-me mal, porque tinha pouco trabalho, porque já poucas pessoas me conheciam como médico. Também houve muitas pessoas aqui em Cabo Verde que me pediram para regressar para dar o meu contributo. Devo lembrar que como médico-cirurgião eu sou o mais antigo em Cabo Verde depois do dr. Dario [Dantas dos Reis] e do dr. Lisboa Ramos. Os outros médicos formaram-se comigo aqui – o dr. Bernardino, o dr. Vera-Cruz, o dr. José Maria Martins, todos se formaram na minha presença como cirurgiões.

O dr. Morris, teve como base principal de trabalho o Hospital Central “Dr. Agostinho Neto”, mas temporariamente exerceu nos hospitais “Dr. Baptista de Sousa” e no Hospital da ilha do Fogo. Como foi a experiência?

No hospital Dr. Baptista de Sousa trabalhei apenas três meses, pouco depois da minha chegada. Comecei a exercer aqui na Praia, mas o então ministro da Saúde disse-me que São Vicente precisava de um cirurgião e fui trabalhar no hospital Dr. Baptista de Sousa. Mas não consegui adaptar-me e pedi para regressar para Praia e consegui. Já para a ilha do Fogo, desloquei-me sempre em missão de serviço. Passava entre uma semana e 10 dias, fazia as cirurgias e regressava à Praia. Nessa altura trabalhavam na Ilha do Fogo o dr. Sidónio Monteiro, o dr. José da Rosa e o enfermeiro sr. Zuca [Rolando Lima Bárber].

O dr. Morris assumiu também funções de docência no curso de medicina da Uni-CV.

Exerci essas funções durante seis anos. Resultou de negociações com professores da Universidade de Coimbra e conseguimos implementar o curso. Os alunos estudavam parcialmente em Cabo Verde e completavam o curso em Coimbra. Tive o privilégio de ter sido docente da primeira leva de 17 estudantes que hoje são médicos. Foi um sucesso.

Gostaria de contar uma anedota das quase quatro décadas da sua actividade profissional em Cabo Verde?

Bom, o cirurgião quando vai fazer uma operação, entra na sala muito preocupado. Depois vai-se relaxando e no fim começa a contar anedotas. Ou seja, a anedota é a parte final da cirurgia sobre pacientes que reagiram bem ou reagiram mal durante a operação e que depois vêm pedir desculpas. Lembro-me de uma paciente que tinha uma tiroide enorme, provavelmente a maior de Cabo Verde até então, que pesava à volta de 800 gramas, enquanto a normal pesa 25 gramas. A senhora foi para Portugal e não foi operada, foi para os Estados Unidos, mas também não conseguiu ser operada porque não tinha o dinheiro para arcar com as despesas e regressou a Cabo Verde. Coincidiu que na altura tínhamos no Hospital Agostinho dois portugueses estagiários que ficaram desorientados com o tamanho da tiroide porque em Portugal era difícil encontrar aquele volume e eles perguntaram-me se era possível fazer a operação. Eu disse que sim, e fizemos a cirurgia. No segundo dia, quando a paciente foi ao hospital, ela perguntou-me ‘disseram-me que foi o senhor que me operou’. Disse-lhe, ‘sim, senhora’, ao que ela me respondeu, ‘se eu soubesse que iria ser operada por um preto, nunca o iria permitir, pois pensava que seria operada pelos dois brancos’. Disse-lhe, ‘minha senhora, esses dois brancos são meus alunos, estão ainda a aprender comigo’. Aconteceu que a operação foi um sucesso e ela já conseguia respirar tranquilamente. Então não se cansou de me pedir desculpas. [A enfermeira que presenciou a entrevista comentou comigo que os praienses conhecem bem a senhora].

O que mais aprecia deste país?

O povo que é muito amigável e que me ajudou a exercer de melhor forma a minha profissão.

O que acha mais estranho na cultura cabo-verdiana?

O consumo de bebidas alcoólicas. É bastante exagerado como em muitos países da África infelizmente. Acho que não é exagerado dizer que a taxa de alcoolemia em Cabo Verde é muito superior à dos países africanos. Mas acredito que os cabo-verdianos têm maturidade suficiente para saberem ultrapassar este problema.

Quais são os pontos de contacto entre a cultura egípcia e a cabo-verdiana?

África. A cultura africana. Somos todos africanos e temos hábitos idênticos de festejar o Natal, os casamentos e as mortes. A única diferença está do grau dessas celebrações.

O Egipto é um país enorme, Cabo Verde não passa de um pequeno ponto no mapa. São se sente aqui um pouco constrangido espacialmente?

De jeito nenhum. Você pode viver num grande país como os Estados Unidos, mas o círculo de amigos e familiares é limitado. Eu não conheço os 22 milhões de habitantes do Cairo. Conheço a minha família e os meus vizinhos. Mais nada, e os meus pacientes. Aliás, penso que é melhor viver num país pequeno que num grande. Aqui você conhece quase toda a gente e tudo é mais fácil.

Cabo Verde é um país de música. O que mais aprecia na nossa música?

Ildo Lobo, sou um fã incondicional de Ildo Lobo. Era meu grande amigo e repetia-lhe sempre: se tivesse nascido num outro país, a sua projecção seria bem maior.

Portanto, Morna.

A minha mulher gosta muito da Cesária Évora e eu gosto muito do Ildo Lobo.

Para terminar. Por quanto tempo pensa trabalhar ainda em Cabo Verde?

Enquanto eu puder. Enquanto tiver forças para trabalhar.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1048 de 29 de Dezembro de 2021. 

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Autoria:António Monteiro,1 jan 2022 8:59

Editado porAntónio Monteiro  em  3 jan 2022 17:26

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