“As barreiras estão lá para todos”

PorSara Almeida,12 fev 2022 8:32

Já jovem adulta, e apenas com a primária feita, foi na emigração que Clara Silva retomou os estudos e nunca mais parou. Fez o seu caminho de pesquisadora não nas ciências ditas exactas, onde as mulheres estão em menor número, mas na área da educação e é hoje professora catedrática em Florença. A sua história mostra como todos os obstáculos enfrentados, podem ser ultrapassados. Seja na vida pessoal, seja no estudo e investigação.

A estória de Clara Silva é, até certo ponto, igual à de muitas mulheres cabo-verdianas nos anos 80, que viram na emigração uma forma de melhorar a sua vida. Nascida em São Nicolau, tinha 17 anos e a 4ª classe quando, através de uma amiga que morava em Itália, país para onde seguiam várias patrícias, arranjou um trabalho em Florença.

Na altura moravam nessa cidade cerca de 150 cabo-verdianos, quase exclusivamente mulheres que trabalhavam como domésticas em casa das famílias italianas. Tinham, por norma, duas tardes livres por semana. Nesses momentos, pouco havia para fazerem. Encontravam-se nas praças e aí ficavam quase como que em exposição. Não havia espaços nem actividades culturais, nenhum sítio onde ir, nem o que fazer. Felizmente, algum tempo após a sua chegada, começaram a realizar-se actividades e a haver espaços proporcionados pela Igreja para ocupar os momentos de lazer. A certa altura, uma irmã italiana começou a ensinar costura às cabo-verdianas. Clara foi, e nas conversas que tinha com essa irmã confessava o seu sonho de continuar os estudos.

Assim, três anos após chegar a Itália, a irmã ajudou-a não só a encontrar uma escola como um trabalho compatível com os estudos. Depois foi para um colégio que hospedava meninas de outras partes de Itália e aí ficou a residir. Trabalhava de forma intensiva durante as férias para pagar os estudos, que foram então avançando até à licenciatura. Escolheu a formação na área da educação com a ideia de voltar a Cabo Verde para dar o seu contributo ao país.

“Ainda havia muito analfabetismo e achei que seria uma área importante. E assim licenciei-me em Pedagogia, na Universidade de Florença”.

Mas o destino trocou-lhe as voltas. Na faculdade conheceu o marido, italiano. Ficou. Continuou a estudar e no doutoramento começou a “fazer pesquisa na área de inserção escolar dos filhos de imigrantes”.

“Naquela altura era uma novidade para Itália, também porque os imigrantes, de todos os países, aumentaram e os filhos que chegavam tinham as mesmas dificuldades na escola que eu encontrei”: a língua, os estereótipos, etc.

Após o doutoramento integrou a universidade e foi subindo na carreira, até ao topo, em 2020. Hoje é professora catedrática, coordenadora de licenciatura e mestrado e de uma revista científica.

Clara Silva continua, pois, até hoje a trabalhar na área da emigração, interculturalidade e educação. É uma questão de pesquisa, mas também uma questão da sua estória.

“Reforçavam-se um com o outro: de um lado a biografia, do outro lado a investigação”.

Ser mulher, migrante

Ser mulher fez diferença? Para Clara Silva, “a questão de género é uma questão geral” e no seu caso junta-se também a questão “da etnicidade”.

Mas para cada barreira que encontrou Clara preocupou-se em encontrar uma maneira de a ultrapassar.

“Acho que as barreiras estão lá para todos”, analisa.

E apesar de muito ter mudado nos últimos 40 anos, os problemas que Clara, migrante, enfrentou mantém-se, no geral.

“Não acho que tenha havido muitas mudanças”. É um facto de que houve um aumento de imigrantes e também que há já muitas crianças que nasceram em Itália e aí frequentam a escola. “Mas a mentalidade, embora um pouco mais aberta, e a cultura mudam muito pouco”.

Entretanto, em relação ao género na migração, o que a catedrática nota a título pessoal e nas suas pesquisas “é um grande protagonismo das mulheres”.

“Ainda não se vê uma mudança em termos de avanço social, cultural e económico, mas as mulheres na imigração, em geral, têm um papel muito importante e um modelo de integração muito melhor do que os homens”, explica.

As pesquisas de Clara Silva não têm, porém, incidido na questão de género, mas sim na integração e identidade, nomeadamente da chamada segunda geração.

“O problema da integração não é muito fácil. De um lado há a cultura familiar, que é uma cultura que tem traços muito importantes do país dos pais, e do outro lado, o país onde nasceram e cresceram, do qual eles também são filhos. Então, há um conflito e a escola tem uma tarefa muito importante nessa vertente, e nem sempre percebe que o tem”.

Assim, o trabalho principal desta pesquisadora nessa área “é fazer compreender que é muito importante esta construção conjunta” da identidade. E aí, a questão de género não faz muito diferença.

“A construção da identidade é uma questão complexa, para todos”, diz.

Cabo Verde

Entretanto, nos seus projectos para o futuro Clara Silva quer “trabalhar mais com Cabo Verde.”

“É meu desejo reforçar as relações entre Itália e Cabo Verde na área da educação, mas nas áreas científicas”, especifica.

Enfim, “quero criar relações mais fortes com a realidade de Cabo Verde” diz.

“É uma coisa que me falta muito porque, no meu caminho como mulher cabo-verdiana, a minha emigração foi voluntária, mas a verdade é que naquela altura, até certo ponto não tinha muita escolha, então quero reforçar a ligação”.

Ou seja, tal como na sua área da pesquisa, a parte pessoal conjuga-se com a laboral.

Clara Silva, embora salvaguarde que não é o seu caso, devido aos contactos que tem com Cabo Verde, lamenta o olhar que o país tem para com os seus emigrantes. “Uma coisa são os que vão estudar e voltam. Outra são os que emigram” e não são tidos em conta nas áreas do saber.

É que, apesar de todos os discursos, Cabo Verde “ainda não percebeu que tem um grande recurso no exterior” na figura desses emigrantes, faltando criar um espaço onde esse potencial possa ser manifestado. E quando há aproveitamento desse potencial ele é “um pouco instrumental, não é paritário”, considera.

É preciso dar um passo avante, advoga. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1054 de 9 de Fevereiro de 2022. 

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Autoria:Sara Almeida,12 fev 2022 8:32

Editado pormaria Fortes  em  13 fev 2022 9:02

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