Concursos internacionais: uma experiência “única”, que abre as portas para o mundo

PorSara Almeida,2 dez 2023 8:22

 Equipa First Global Cabo Verde 2023
Equipa First Global Cabo Verde 2023

Este ano, e pela 7.ª vez, Cabo Verde esteve presente no Concurso de Robótica FIRST Global Challenge, que decorreu em Singapura, de 7 a 10 de Outubro. Aí, e à semelhança dos anos anteriores, marcaram presença também milhares de jovens, entre os 12 e os 18 anos, de 191 nações. Eventos como este são uma oportunidade ímpar para os jovens participantes abrirem horizontes e aprofundarem a sua paixão e expertise nas Ciências e Tecnologia. Para além das medalhas, quem ganha é o país.

Tudo começou em 2017, quando a Direcção Nacional da Educação recebeu um convite para participar nesta competição promovida pela FIRST Global. No seguimento, esta contactou João Pinheiro, professor da área das TIC e membro da direcção do Liceu Ludgero Lima, no sentido de criar uma equipa que representasse o país.

Assim fez o docente. E em Julho desse ano, este mentor e três estudantes do secundário, de São Vicente, rumaram a Washington para participar no FIRST Global Challenge, naquela que seria a primeira de sete participações de Cabo Verde. Aos EUA, sucederam-se México, em 2018, e Dubai, em 2019. Nos dois anos seguintes, devido à pandemia, a olimpíada deu-se online. Já em 2022, estudantes cabo-verdianos foram competir em Genebra (Suíça).Este ano, o professor, agora reformado, juntamente com Pedro Santos, Odair Rocha, Maiva Silva, Igony da Graça, o capitão de equipa, Vasco Santos e Déborah Vera-Cruz, ponto focal da First Global Challenge em Cabo Verde, viajaram até Singapura, para mais uma competição.

Esta participação é a parte visível, e que tem sido, aliás, bastante noticiada. Por detrás, porém, há todo um trabalho realizado e um ponto de partida comum a todos os membros: a paixão pela robótica.

Preparação

O primeiro passo é formar equipas. Neste quesito, os WebLabs, actualmente encerrados [ver caixa], foram até hoje um importante elemento para a equipa First Global de Cabo Verde.

“O projecto WebLab surgiu em 2018, logo a seguir à nossa primeira participação, e conseguiu alimentar esta equipa, porque quando chegam aos 18 anos saem e entram novos”, conta João Pinheiro, explicando que os alunos devem ter entre 12 e 18 anos.

Em Mindelo, quatro escolas tinham esses laboratórios onde, inclusive, eram ministrados cursos de robóticas. Os alunos interessados na área eram então “recrutados” através dos monitores e integravam a equipa. Depois, iniciam-se os trabalhos. O grupo reúne-se geralmente ao sábado, ou de forma mais frequente nas férias para avançar com os projectos.

Os trabalhos prolongam-se durante todo o ano, até porque, além do concurso em si, há vários desafios e tarefas que a equipa tem de cumprir: manter uma boa presença nas redes sociais, fazer o relatório da construção do robot, cumprir projectos de divulgação, fazer demonstrações de robótica em escolas, entre outros.

O Kit para a participação do Challenge chega em Abril/Maio – “este ano só chegou em Agosto” - é desenhado e projectado o robô, seguindo as exigências da organização e plano de jogo, depois monta-se e testa-se. A última etapa, é a competição internacional.

Estes concursos são, na verdade, uma oportunidade de motivar e aumentar o gosto pelo STEM, como aliás é objectivo da organização, e fazer crescer os participantes enquanto indivíduos e “cientistas”.

“É notável [o aumento de interesse pela área]”, refere João Pinheiro, dando o exemplo de vários alunos que já integraram a comitiva do país e hoje estão a tirar cursos superiores na área, inclusive no estrangeiro.

A visão do capitão de equipa

Vasco Costa tem 16 anos, estuda na Escola Salesiana de Artes e Ofícios de Mindelo e é o capitão da equipa que foi a Singapura representar Cabo Verde.

Sempre teve interesse pelas áreas STEM, principalmente por informática, mas foi a partir mais ou menos dos 12 anos que despertou para a robótica.

“O meu pai inscreveu-me no projecto da WebLab, onde fiz um curso de robótica” (no Liceu Ludgero Lima, pois a escola do salesianos não tem esses laboratórios). “O então monitor da Weblab, que também é monitor da First Global, viu que eu gostava da área e convidou-me para a equipa”, recorda. Vasco integrou assim a First Global de Cabo Verde e participou pela primeira vez no challenge na edição, online, de 2021. No ano passado, deslocou-se às provas em Genebra.

Somam-se, pois, já três participações, carregando a bandeira de Cabo Verde.

O melhor Prémio

Os melhores resultados de Cabo Verde foram conseguidos nas participações de Washington e Genebra. No México, a equipa venceu o prémio Segurança (Safety Award) e este ano, embora não tenham conquistado os principais troféus, venceram o Prémio Social Media, referente à divulgação do trabalho no First Global nas redes sociais.

Quanto ao resto, “não foi como estávamos à espera, mas esperamos que o próximo ano seja bem melhor”, refere.

Aliás, a própria viagem e participação já são um prémio. “Não há muitas crianças em Cabo Verde que tenham essa oportunidade de ir para um local tão longe”, reconhece , lembrando que muitos dos seus colegas nunca tinham sequer saído de Cabo Verde.

Outro grande prémio é o convívio com gente de todo o mundo. “Eu sabia que era uma competição internacional, mas ver todas essas pessoas, de tantos países, reunidos no mesmo lugar, é uma coisa que nunca visto e não sei se vou voltar a ver. É fenomenal”, diz.

Por lá, fazem-se também contactos entre os jovens. “Depende da pessoa, algumas são mais abertas do que outras, mas ficamos com contactos de pessoas da Venezuela, Lesoto, Noruega, só para dar alguns exemplos. E temos grupos no whatsapp. Não é só o evento em si. É para além do evento”, conta o jovem.

Enfim, “todas essas coisas não seriam possíveis [sem esta oportunidade]. “É extremamente importante sair do país, conhecer culturas novas, especialmente neste ambiente de aprendizagem e cooperação.”, destaca.

Quanto ao futuro, Vasco já escolheu a área que quer: Ciências da Computação.

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Os WebLabs, considerados um sucesso, foram encerrados há cerca de um ano, após o término do WebLab I. O WebLab II prevê para levar os laboratórios para as salas de aula, mas pretendida transição dos laboratórios existentes para o Ministério da Educação (ME) tem sido problemática, faltando o inventário e relatório sobre os equipamentos por parte do NOSi. O NOSi, que vinha a gerir os WebLab I, por seu turno, aponta que o ME não assumiu as responsabilidades acordadas, o que levou ao encerramento por falta de recursos para manter os monitores. O futuro dos WebLabs permanece incerto, com discussões sobre possíveis reorientações e o governo ainda não tomou uma decisão formal. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1148 de 29 de Novembro de 2023.

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Autoria:Sara Almeida,2 dez 2023 8:22

Editado porDulcina Mendes  em  3 dez 2023 16:07

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