Com a aproximação do Natal, as casas ganham novas cores e detalhes feitos à mão. Em São Vicente, a costureira criativa Hortênsia Dias dedica dias, e muitas noites, à transformação de tecidos em peças decorativas que dão novo encanto a salas, cozinhas e sofás.
“Tenho peças decorativas conforme o cliente pede, como cortinas para a sala ou a cozinha e almofadas de sofá”, explica. Há pelo menos cinco anos que o Natal se tornou uma época forte do seu trabalho artesanal. “Há sempre muita procura no Natal. Quando lanço novos modelos, muitos clientes aderem”, afirma.

Os pedidos não se limitam a São Vicente. Chegam encomendas de ilhas como o Sal e a Boa Vista e, no ano passado, o trabalho chegou ao exterior. “Inclusive, no ano passado cheguei a enviar para fora”, recorda.
Segundo Hortênsia, a época reflecte-se directamente nas vendas. “No Natal costumo vender muito mais. É uma época especial que atrai muitos clientes”, diz. Contudo, o período também exige esforço intenso.
“Deito-me tarde e acordo de madrugada. Às vezes, às 5h00 já estou na máquina para conseguir entregar tudo a tempo”.
Apesar do cansaço, a procura estende-se para além do dia 25. “Alguns clientes deixam para o Ano Novo, porque percebem que não dá para entregar tudo antes do Natal”.
A divulgação do trabalho é feita sobretudo nas redes sociais, principalmente no Facebook e no WhatsApp. A preparação começa bem antes de Dezembro, com orçamentos de materiais e criação de novos modelos para evitar repetições.
Por vezes, surgem dificuldades na obtenção de materiais em São Vicente, sendo necessário recorrer à Praia, o que pode causar atrasos, mas sem impacto no preço final para o cliente.
Quanto ao balanço de 2025, Hortênsia nota uma ligeira quebra. “A procura está um pouco menor do que no ano passado, mas ainda assim é satisfatória”.
Kits personalizados
Dirce Brito, proprietária de uma papelaria em Mindelo, decidiu transformar a forma como muitas pessoas escolhem as suas prendas, apostando em kits personalizados que misturam criatividade, carinho e um toque de gourmet. A iniciativa, conforme assegura, tem conquistado famílias, empresas, escolas e amigos, tornando o Natal mais próximo e menos impessoal.
“Cada proposta de kit é pensada consoante o público-alvo. No caso das escolas, os kits são mais simples, com menos produtos, tendo em conta os custos. Já os destinados à família são preparados de forma personalizada, respeitando o pedido e a necessidade de cada cliente, seja de um filho para uma mãe ou vice-versa, seja algum namorado ou namorada”, explana.

Para as empresas, os kits respondem directamente às suas necessidades específicas. Uma das apostas que mais tem agradado são os kits gourmet, pensados para este sector.
“Agora, para as empresas, estamos a trabalhar nos kits gourmet, que levam garrafa de vinho e produtos gourmet, o que é uma forma mais agradável de uma empresa oferecer aos seus colaboradores”, refere.
Dirce Brito acrescenta que esta solução permite que o presente seja efectivamente utilizado na consoada.
A ideia de presentes personalizados nasceu de forma espontânea, a partir de pedidos feitos por clientes habituais.
“Como já tenho a papelaria, os kits de Natal surgiram a partir de pedidos, porque por vezes faço kits para oferecer a pessoas e daí começaram os pedidos por presentes personalizados”, conta.
A partir daí, começou a pesquisar referências na internet e a procurar novas ofertas para apresentar não só aos clientes da loja, mas também a um público mais alargado.
Este ano, sublinha, fez uma mudança importante na estratégia de divulgação. “É a primeira vez que estou a divulgar esses presentes nas redes sociais, porque trabalho sempre para algo mais restrito”, explica.
Dirce diz que sentiu necessidade de dar a conhecer o produto e oferecer alternativas diferentes das que se encontram habitualmente no mercado. Para a empresária, a diferença está no cuidado e no detalhe.
“Ao invés de a pessoa ir a uma loja comprar um brinquedo ou um perfume, embrulhar e oferecer, fazemos um kit, uma decoração de Natal, alguns bombons, um bom preparo e amor, para não ficar apenas algo comprado numa loja”.
A resposta do público tem sido bastante positiva. Segundo Dirce Brito, a procura é elevada, com mesas já preparadas para entrega imediata, permitindo também que os clientes passem pela loja para levantar os seus pedidos.
“As vendas aumentaram de forma significativa com esses kits”, afirma, reconhecendo que, por ser a primeira vez que aposta neste modelo, não é possível fazer comparações com anos anteriores, uma vez que no ano passado produziu apenas para a família e pessoas próximas.
Devido ao sucesso deste ano, Dirce pretende continuar com os kits no próximo ano.
“Este ano não foi algo planeado. A ideia surgiu de uma hora para outra. Acredito que o planeamento poderá trazer melhores resultados e maior margem de lucro”, considera.
“As redes sociais são, sem dúvida, o que influenciou o sucesso deste negócio. Sem essa divulgação, os produtos ficariam apenas dentro da loja. Tudo o que estou a vender agora foi através do marketplace do Facebook e de outras redes”, acrescenta.
Entre as tendências de consumo, sobressaem os produtos de beleza para homem. “Tivemos mais procura de produtos de beleza para homem porque, para o homem, é mais difícil encontrar um presente”, explica.
Também os kits empresariais têm surpreendido pela aceitação. “Ao invés de brindes personalizados que acabam por não ser usados, a proposta passa por algo prático, como uma mini-tábua fria, cujos produtos podem ser apreciados na consoada”.
Rústico feito à mão
Com a carteira a pedir contenção, há quem procure prendas que falem mais alto pelo sentimento do que pelo preço. O artesanato rústico feito à mão com materiais reaproveitados, segundo Janine Henriques, tem conquistado cada vez mais espaço nas escolhas natalícias, levando muitas pessoas a optar por peças únicas, carregadas de simbolismo e afecto.

Aliás, Janine já há algum tempo se dedica à criação de produtos de decoração rústicos, produzidos a partir de materiais recicláveis e de tudo aquilo que pode ganhar uma nova vida.
No período natalício, a procura cresce e o interesse pelas suas criações tem sido visível, sobretudo através das encomendas feitas online. “No Natal, as pessoas procuram prendas de valor simbólico porque as despesas são muitas, há muitos gastos”, explica.
Perante este cenário, Janine decidiu levar as suas peças a um público mais alargado, recorrendo às redes sociais. “Então resolvi publicar no Marketplace do Facebook bandejas, porta-chaves, vasos decorativos, cestos, entre várias peças que fiz. Por acaso, as pessoas já começaram a fazer os seus pedidos para oferecer e não só, mas também para as suas casas”, conta, entre sorrisos.
Nesta época festiva, as peças decorativas rústicas ganham um significado especial, associado ao espírito de partilha e aconchego próprio do Natal.
“Cada peça é criada com muito cuidado, tempo e dedicação. Este é o segundo Natal que vendo essas peças. Não são peças feitas de zero, reaproveito o que já tinha feito e dou um toque natalício. O estilo rústico traz a sensação de aconchego, de casa, simplicidade e combina muito com o espírito de Natal”, defende.
A procura tem aumentado, o que, para Janine, revela uma tendência clara de valorização do que é feito à mão e fora do circuito comercial tradicional.
“As pessoas querem oferecer algo diferente, algo feito à mão e que não se encontra assim nas lojas e, quando as pessoas gostam da nossa arte, dá-nos mais motivação para fazer as peças”.
Com cola quente e EVA
É assim que Lenira Rodrigues tem dado forma a enfeites de Natal artesanais, feitos em casa, por gosto e paixão, sem formação na área, mas com criatividade e atenção ao detalhe e à durabilidade.
A aventura começou no ano passado, quase como uma experiência. “Eu decidi vender produtos de Natal no ano passado e comecei a fazer enfeites para vender. Publiquei nas redes sociais, consegui uma venda razoável e decidi continuar”, conta.

Entre os produtos que cria estão cestos pequenos para doces e chocolates, ideais para prendas simbólicas, gravatas decorativas e guirlandas que fogem ao padrão industrial.
Cada peça é feita com materiais simples de papelaria, como papel EVA brilhante ou mate, cola quente e outros elementos combinados. O que diferencia o seu trabalho, garante, não é apenas o aspecto visual, mas sobretudo a qualidade.
“Os meus produtos são diferenciados. São artesanais, são mais duradouros. O que encontramos nas lojas também é bonito, mas, ao guardar de um ano para outro, perde a qualidade. Os que eu faço não”, assegura. A prova disso está em casa. “Eu tenho produtos que fiz há anos para decorar a minha casa e continuam intactos”.
Apesar de não se tratar de um negócio de grande escala, a venda dos enfeites acabou por garantir algum rendimento extra.
“No ano passado, os produtos que vendi ajudaram-me a obter algum rendimento extra, por isso decidi voltar a fazer este ano”, refere. Ainda assim, admite desafios num mercado habituado a produtos importados. “Não costuma ser algo muito expressivo porque as pessoas estão habituadas a produtos chineses. Hoje em dia, os produtos chineses não são tão baratos”, observa.
Mesmo sabendo que o artesanato tem custos mais elevados, Lenira faz questão de manter preços acessíveis. Mais do que um rendimento sazonal, o artesanato é uma paixão antiga.
“É uma paixão que eu tenho desde criança, tenho dom e talento para tal”, confessa, acrescentando que pretende investir em formação para aperfeiçoar técnicas e ganhar mais experiência.
Experiências gastronómicas
Para Sylvia Varela, fundadora de uma empresa de confeitaria, o Natal representa também uma oportunidade de transformar a sua paixão pela confeitaria num negócio sólido e criativo.
“Criei a minha empresa pelo desejo de transformar momentos especiais em experiências memoráveis através da gastronomia. Comecei de forma artesanal, atendendo pequenas encomendas e, ao longo do tempo, fomos crescendo, ganhando estrutura e conquistando a confiança dos clientes pela qualidade, cuidado na apresentação e sabor”, afirma Sylvia Varela.
A empresa, que já existia antes do Natal com a venda de bolos, doces e salgados para eventos, passou a estruturar menus e kits específicos para a quadra natalícia.

“Dezembro é a época mais movimentada do ano e consomem-se muitos produtos de pastelaria e confeitaria. Vimos a oportunidade e aproveitámos para inovar, dinamizar e fazer os nossos clientes viverem o Natal com mais intensidade”, explica.
Entre as opções disponíveis, oferece bolos de Natal, kits de ceia, doces tradicionais, salgados, mini bolos para oferta, tábuas doces e salgadas, bem como soluções para coffee breaks, principalmente para empresas e eventos familiares.
“Decidi apostar nos bolos e menus de Natal ao perceber que muitas famílias e empresas procuram soluções práticas, mas sem abdicar da qualidade e do sabor caseiro. O Natal é uma época muito especial, marcada pela partilha e tradição, e vi aí uma oportunidade de facilitar a vida das pessoas”, acrescenta.
Para dar resposta à maior procura nesta altura do ano, Sylvia recorre a apoio pontual, garantindo que todas as encomendas são entregues com qualidade e dentro dos prazos.
“Actualmente, a maioria do trabalho é feita por mim, mas, em períodos de maior procura, como o Natal, conto com ajuda extra para assegurar organização e qualidade”, especifica.
O impacto financeiro desta época é significativo para o negócio. “O Natal representa uma parte muito importante do rendimento anual. É um período de grande volume de vendas e os ganhos extras são bastante relevantes, ajudando a equilibrar o ano e a reinvestir no crescimento da empresa”.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1256 de 24 de Dezembro de 2025.
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