Em 2025, a Associação Bons Amigos contabilizou 77 adopções e registou, pela primeira vez em 25 anos de actividade, uma lista de espera com mais de 70 pessoas interessadas em adoptar.
Para Madueno Cardoso, presidente daquela associação, o cenário actual não surgiu por acaso. Resulta de um trabalho contínuo, iniciado há mais de duas décadas, centrado na castração, desparasitação e controlo reprodutivo.
“O que mudou foi o trabalho que os Bons Amigos têm feito ao longo desses 25 anos. Menos reprodução, menos animais na rua, consequentemente menos animais sem rumo”.
Segundo o responsável, nos últimos três anos terão sido esterilizados entre seis e oito mil cães, numa média aproximada de dois mil por ano. A lógica é simples: reduzir drasticamente o número de crias para estabilizar a população.
“É a primeira vez, nestes 25 anos, que temos pessoas do ano passado ainda à espera de adoptar”, refere.
Curiosamente, segundo a Bons Amigos, a procura divide-se quase em partes iguais entre cães e gatos. “É 50-50. Há quem venha por um cão e, não encontrando, leve um gato”.
Contudo, há nuances. A procura incide sobretudo sobre cães entre os zero e os cinco meses. Cães adultos, alguns com cinco ou seis anos, permanecem mais tempos no centro. “As pessoas preferem bebés. Adultos temos cerca de cinco à espera de adopção”.
O perfil dos adoptantes também se diversificou. Há famílias da capital e das zonas periféricas, mas também residentes do interior que procuram cães para guarda. Outros pretendem simplesmente companhia, evitando que os animais circulem na rua.
Também o contacto com turistas tem gerado situações particulares. Visitantes que encontram animais doentes nas ruas procuram a clínica dos Bons Amigos para tratamento e, em alguns casos, avançam para adopções internacionais.
Um dos processos em curso destina-se ao Reino Unido, implicando vacinação antirrábica, microchip, exames e cumprimento das exigências da União Europeia, um procedimento que pode prolongar-se por três a quatro meses.
Adopção comunitária e responsabilidade
Maria Zsuzsanna Fortes, presidente do MCCR, reconhece que as adopções aumentaram, mas relativiza o seu impacto directo na diminuição de animais errantes.
“Não consideramos que a diminuição do número de animais seja directamente resultado das adopções. As adopções não são tão numerosas”, sustenta.
O movimento, criado em 2016 e com cerca de 600 voluntários em todo o país, aposta numa lógica de comunidades responsáveis. Ao invés de recolher sistematicamente os animais, promove a adopção comunitária, cães que vivem na rua passam a ser cuidados colectivamente, recebendo alimentação, vigilância e, idealmente, esterilização.
Quando nascem crias, a comunidade mobiliza-se para encontrar famílias. Ainda assim, confirma, os adultos continuam a ser menos procurados do que os bebés.
A organização desenvolveu também uma plataforma digital para registo e acompanhamento de adopções, mas defende que sem um sistema nacional de identificação com microchip e registo obrigatório do proprietário será difícil responsabilizar quem abandona.
“Enquanto são pequenos, toda a gente gosta. Quando surgem problemas, muitos são colocados na rua”, lamenta.
Envenenamento: acidental, criminoso ou institucional?
Se na castração há consenso quanto à sua utilidade, no envenenamento as leituras convergem na gravidade do fenómeno, mas divergem na interpretação estrutural.
A Associação Bons Amigos aponta para dois tipos de situações. Por um lado, envenenamentos domésticos acidentais, associados à venda descontrolada de pesticidas. “Estamos a falar de envenenamento doméstico quando se trata de casos de cães com dono que ingerem produtos destinados a baratas ou ratos”, explana.
Por outro, surgem suspeitas de actos criminosos. Há relatos de cães encontrados mortos nas varandas, com sinais de vómito. “As pessoas dizem que alguns indivíduos envenenam porque os cães alertam sobre possíveis assaltos”, acrescenta.
Para o Movimento Comunidade Responsável, o problema assume também contornos institucionais. Em 2022 e 2024, segundo Maria Fortes, terão ocorrido envenenamentos massivos em várias ilhas. O movimento apresentou queixa-crime em conjunto com 16 organizações.

Análises laboratoriais, afirma, identificaram substâncias como o carbofurano, um pesticida proibido, e o Plaguicidas Altamente Peligrosos (PAP).
“Estamos perante crime ambiental e crime contra a saúde pública”, sublinha, defendendo que o extermínio apenas reduz temporariamente a população, que volta a crescer dois ou três anos depois.
A organização defende que o recurso ao veneno, além de provocar sofrimento extremo, não resolve estruturalmente o problema.
Castrações e leis
A Bons Amigos actua bairro a bairro, combinando esterilização, tratamento e sensibilização. Este ano, prepara o arranque do “Castronova”, com uma unidade móvel que pretende esterilizar mil cães na Cidade da Praia, além das intervenções na clínica.
Já o Movimento Comunidade Responsável advoga “mega-castrações” concentradas numa área delimitada, abrangendo cerca de 80% dos animais num único ciclo reprodutivo. Só assim, defende, se assegura um declínio sustentado ao longo de cinco a sete anos, acompanhado de manutenção.
Sem essa abordagem integrada, alertam, existe o risco de repovoamento, sobretudo se o abandono continuar.
Ambas as entidades sublinham a importância da legislação. O Movimento Civil Comunidade Responsável destaca a lei que criminaliza maus-tratos, considerando-a um avanço, mas insiste na necessidade de aplicação efectiva.
“Quando há uma lei, esta só funciona quando é cumprida”, frisa Maria Fortes, pedindo maior celeridade da justiça.
A Bons Amigos, por seu turno, manifesta preocupação com a reprodução descontrolada de cães de raça. “Estamos a castrar para diminuir os vira-latas, mas não temos controlo dos cães de raça”, alerta Madueno Cardoso.

Sem regulamentação, prossegue, teme-se um novo cenário de cruzamentos descontrolados, com potenciais impactos ao nível da agressividade e segurança. Ambas as organizações defendem que a solução não passa apenas por recolher ou eliminar animais, mas por responsabilizar donos, educar comunidades e estruturar políticas públicas consistentes.
Outro desafio comum é a sustentabilidade financeira. A Bons Amigos pretende equipar melhor a clínica com meios de diagnóstico, raio-X, ecografia, análises, para assegurar respostas mais eficazes.
Paralelamente, prepara programas de formação para adoptantes, exigindo acompanhamento sanitário regular e compromisso com a esterilização.
Fórum nacional e outras propostas
Em Outubro, mês do Dia Mundial do Animal, a Bons Amigos planeia organizar o primeiro fórum sobre saúde e bem-estar animal em Cabo Verde. A meta consiste em reunir associações, autoridades e especialistas para avaliar progressos, lacunas e financiamento disponível.
O Movimento Comunidade Responsável também aposta na articulação nacional. Criou uma Aliança Nacional para a Gestão Ética da População Canina e Felina e promove uma iniciativa legislativa popular para uma lei abrangente de protecção animal, recolhendo assinaturas em todos os concelhos.
Entre propostas comuns surgem o registo obrigatório com microchip, campanhas massivas de esterilização, educação para a posse responsável, fiscalização eficaz e cooperação estreita entre associações, municípios e Governo.
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Em 2024, o MCCR denunciou que a morte de três mil cães, indicando que a maioria dos casos aconteceram no Sal e na Boa Vista, as duas ilhas mais turísticas do arquipélago.
Na altura, só na Cidade da Praia, associações de defesa dos animais estimavam a existência de cerca de 20 mil cães de rua, representando um problema de saúde pública.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1264 de 18 de Fevereiro de 2026.
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