Glaucoma, doença silenciosa que pode causar perda irreversível da visão, é comum em Cabo Verde

PorSheilla Ribeiro,15 mar 2026 9:28

O glaucoma é uma doença crónica e silenciosa que pode levar à perda irreversível da visão e que, muitas vezes, só é diagnosticada em fases avançadas. Em Cabo Verde, apesar de ser uma patologia frequente, a realização de cirurgias específicas nem sempre é possível devido à escassez de especialistas com formação nesta subespecialidade da oftalmologia.

Demorou sete anos até que o glaucoma congénito de Naldi Veiga fosse diagnosticado. Quando finalmente chegou ao médico, a pressão ocular já tinha provocado danos irreversíveis no nervo óptico.

Hoje, completamente cega, recorda uma infância marcada por sintomas ignorados. “O meu glaucoma é congénito. Nasci com este problema, mas não foi diagnosticado cedo e, consequentemente, também não houve tratamento”, conta.

A doença foi identificada apenas quando tinha sete anos, numa altura em que os danos já estavam avançados. Naldi Gomes conta que a infância decorreu no interior do país, onde o acesso à informação e aos cuidados de saúde era mais limitado.

“A minha mãe também não tinha conhecimento acerca da doença. Vivíamos no interior e acredito que por isso demorou um pouco a levar-me ao médico”, explica.

Antes do diagnóstico, os sinais estavam presentes no quotidiano. “Os meus olhos lacrimejavam muito e tinha muita sensibilidade à luz. Não conseguia encarar as luzes, nem do Sol nem de outro tipo”, recorda.

Para conseguir ver minimamente as pessoas à sua volta, adaptava-se como podia. “Tinha de semicerrar os olhos ou fechar um deles e muitas vezes colocava a mão na testa para conseguir ver mais longe. Mesmo assim não via bem”, descreve.

Quando finalmente chegou ao médico, o tempo sem tratamento já tinha causado danos irreversíveis. “A pressão na vista já tinha destruído o meu nervo óptico e o nervo óptico é que leva a imagem do olho para o cérebro”, refere.

Hoje, apesar de conseguir perceber a claridade, não consegue formar imagens. “Após perder totalmente a visão, eu vejo a claridade, mas não vejo a imagem porque o meu nervo óptico está destruído. Às vezes fico com vontade de ver a imagem porque vejo toda a claridade, mas a imagem não aparece na minha vista”, lamenta.

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Credito: Depositphotos_365761772_XL

A perda total da visão aconteceu entre 2001 e 2002. Até então ainda mantinha uma baixa visão. “Eu não nasci totalmente cega. Via pouco, mas via. Se tivesse feito o tratamento mais cedo, havia probabilidade de não perder totalmente a visão”, acredita.

Glaucoma

A oftalmologista Karina Mascarenhas explica que o glaucoma evolui lentamente e sem sinais evidentes, o que faz com que muitas pessoas só procurem ajuda médica quando os danos já estão instalados.

“O glaucoma é uma doença crónica, silenciosa, que, progressiva e lentamente, vai causando a perda da visão. E esta perda é irreversível”, afirma.

De acordo com a especialista, a patologia é frequentemente conhecida como o “ladrão silencioso da visão”, precisamente porque, geralmente, não provoca sintomas nas fases iniciais.

“Quando a pessoa percebe que começa a apresentar sinais, já está num estado bastante avançado”, avalia.

Embora exista uma forma aguda da doença, que provoca dor intensa, Karina Mascarenhas esclarece que essa situação é menos comum. “É um tipo de glaucoma que causa dor intensa, mas não é tão frequente quanto o outro”, refere.

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Existem diferentes tipos de glaucoma, cada um com características próprias. Entre os principais estão o glaucoma de ângulo aberto, o glaucoma de ângulo estreito, os glaucomas secundários, o glaucoma congénito e o chamado glaucoma de pressão normal.

“No glaucoma de ângulo aberto, que é o mais comum, a drenagem do humor aquoso ocorre de forma gradual e silenciosa. Temos também o glaucoma de ângulo estreito, os glaucomas secundários que podem surgir devido a medicamentos ou doenças sistémicas, o glaucoma congénito e o glaucoma de pressão normal”, diz.

Segundo a oftalmologista, em Cabo Verde predomina o glaucoma de ângulo aberto.

Quando a doença se manifesta

Quando o glaucoma começa finalmente a manifestar-se, um dos sinais mais frequentes é a perda de campo visual periférico, que muitas vezes passa despercebida.

“A maioria das pessoas diz que consegue ver bem à frente, mas de lado não consegue ver”, relata a especialista.

Em muitos casos, a suspeita inicial não está associada ao glaucoma. “Eles vão à consulta porque pensam que precisam de trocar os óculos. Acham que é um problema de visão relacionado com as lentes”, acrescenta.

Alguns pacientes referem ainda dores de cabeça ou ligeira sensação de desconforto ocular, mas estes sinais nem sempre são valorizados.

O diagnóstico da doença é feito mediante um exame oftalmológico completo, realizado por um especialista. “O oftalmologista avalia a visão, mede a pressão ocular e faz uma fundoscopia para observar o nervo óptico”, explica Karina Mascarenhas.

Dependendo dos resultados obtidos nessa avaliação inicial, podem ser solicitados exames complementares que ajudam a confirmar o diagnóstico.

Segundo a médica, a realização de consultas preventivas é fundamental, sobretudo para pessoas com maior risco de desenvolver a doença.

“Principalmente a partir dos 40 anos, as pessoas devem fazer avaliações regulares”, recomenda.

Apesar de o glaucoma ser frequentemente associado ao envelhecimento, existem também formas que podem surgir logo nos primeiros meses de vida.

“Há o glaucoma congénito, que afecta crianças que já nascem com a doença”, explica. Por esse motivo, a oftalmologista considera que as avaliações oculares deveriam começar cedo.

“Todos os bebés deveriam ser avaliados nos primeiros seis meses de vida”, defende.

No entanto, reconhece que essa prática ainda não é comum no país. “Não é habitual levar um bebé ao oftalmologista logo após o nascimento, mas seria importante fazer essa avaliação”, diz.

Algumas doenças crónicas também podem contribuir para o desenvolvimento do glaucoma. “A diabetes pode provocar alterações nos vasos da retina que acabam por bloquear a drenagem ocular”, enfatiza.

Também a hipertensão e o colesterol elevado podem afectar a circulação sanguínea ocular, criando condições que favorecem o surgimento da doença.

Além disso, o uso prolongado de determinados medicamentos pode provocar formas secundárias de glaucoma.

Casos chegam em diferentes fases

Embora não existam dados estatísticos precisos sobre o diagnóstico da doença em Cabo Verde, a experiência clínica indica que os casos aparecem tanto em fases iniciais como avançadas.

Entre os factores que dificultam a detecção precoce estão, segundo Karina Mascarenhas, a falta de informação e o acesso limitado a especialistas.

“As pessoas procuram o médico quando já sentem alguma coisa. Não temos o hábito de ir à consulta apenas por rotina”, afirma.

Outro desafio prende-se com a distribuição geográfica dos especialistas em oftalmologia no país.

“Nós temos oftalmologistas apenas nas ilhas de Santiago, Sal e São Vicente. Embora sejam realizadas deslocações periódicas a outras ilhas, a cobertura ainda é limitada. Se alguém vive numa ilha onde o médico só aparece uma vez por mês, o acesso torna-se mais difícil”, diz.

Mesmo dentro de algumas ilhas existem obstáculos relacionados com a distância entre localidades.

“Em Santo Antão, por exemplo, há distâncias enormes entre as zonas”, observa.

O glaucoma não tem cura, mas pode ser controlado quando é diagnosticado precocemente. O tratamento baseia-se principalmente no uso de colírios que ajudam a reduzir a pressão intra-ocular.

“O objectivo do tratamento é diminuir a pressão dentro do olho”, esclarece.

Quando os medicamentos não produzem o efeito desejado, pode ser necessário recorrer à cirurgia ou a procedimentos com laser.

“No caso de os colírios não serem suficientes, pode ser indicada cirurgia, como a trabeculectomia ou o implante de válvulas”, aponta.

Esses procedimentos, contudo, não curam a doença. “A cirurgia não vai curar o glaucoma. Serve para tentar controlar a pressão ocular”, acrescenta.

Cirurgia nem sempre disponível no país

Em Cabo Verde, a realização de cirurgias específicas para o glaucoma nem sempre é possível devido à falta de especialistas com formação nessa subárea.

Quando profissionais com essa formação visitam o arquipélago, alguns casos podem ser operados localmente. Caso contrário, os pacientes podem ser encaminhados para tratamento no exterior.

“Quando não temos especialistas disponíveis, discutimos os casos entre colegas e às vezes os doentes são enviados para fora”, refere Karina Mascarenhas.

O glaucoma é considerado uma das principais causas de cegueira irreversível. Para compreender o impacto da doença, a oftalmologista distingue diferentes tipos de cegueira.

Também existem situações classificadas como cegueira evitável, quando o tratamento adequado impede a progressão da doença. No caso do glaucoma, porém, os danos são permanentes.

“O glaucoma é uma doença irreversível e infelizmente temos vários pacientes com esta condição em Cabo Verde”, afirma.

Para controlar o glaucoma, o cumprimento rigoroso da medicação é essencial.

Conforme Karina Mascarenhas, muitos pacientes interrompem o tratamento por não compreenderem que o objectivo é evitar a progressão da doença e não recuperar a visão perdida.

“Quando o paciente chega com perda de visão, nós vamos manter o que ele ainda tem. Não vamos recuperar”, adverte.

A situação é particularmente desafiante entre idosos que comparecem às consultas sem acompanhantes. “Explicamos que têm de usar as gotas regularmente, mas às vezes chegam a casa e a família diz que a visão não melhorou. Então acabam por parar a medicação”, complementa.

Esse abandono do tratamento pode agravar rapidamente o quadro clínico.

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Tipos de glaucoma segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS):

1.Glaucoma primário de ângulo aberto – é o mais comum. Ocorre quando o sistema de drenagem do humor aquoso (líquido do olho) funciona mal, levando a um aumento gradual da pressão intra-ocular. Desenvolve-se lentamente e sem sintomas nas fases iniciais, podendo causar perda progressiva da visão.

2.Glaucoma primário de ângulo fechado – acontece quando o ângulo de drenagem do olho se fecha parcial ou totalmente, impedindo a saída do líquido. Pode surgir de forma aguda, com dor intensa no olho, visão turva, náuseas e vermelhidão, sendo considerado uma emergência médica.

3.Glaucoma congénito – está presente desde o nascimento ou nos primeiros anos de vida, devido a uma malformação do sistema de drenagem do olho. Pode provocar olhos aumentados, lacrimejamento excessivo e sensibilidade à luz.

4.Glaucoma secundário – resulta de outras doenças ou condições, como traumatismos oculares, inflamações, uso prolongado de corticosteroides, diabetes ou tumores.

5.Glaucoma de pressão normal – neste caso há lesão do nervo óptico mesmo com pressão intra-ocular dentro dos valores considerados normais. A causa exacta ainda não é totalmente conhecida.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1267 de 11 de Março de 2026.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,15 mar 2026 9:28

Editado porJorge Montezinho  em  15 mar 2026 9:57

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