Voos interilhas - CVSky levanta voo para ligar as ilhas, mas prioridade passa por estabilizar operação

PorAndré Amaral,18 mar 2026 11:16

Manuel Lima, PCA da Linhas Aéreas de Cabo Verde
Manuel Lima, PCA da Linhas Aéreas de Cabo Verde

Cabo Verde deu esta terça-feira um passo na reorganização do transporte aéreo doméstico com o arranque das operações da CV Sky, a nova marca da companhia estatal Linhas Aéreas de Cabo Verde (LACV), pensada exclusivamente para assegurar as ligações entre as ilhas do arquipélago.

A apresentação decorreu na cidade da Praia e marcou o início de uma fase que o próprio Governo e a administração da empresa descrevem como determinante. Mais do que lançar voos, trata-se de recuperar confiança num sector que, nos últimos anos, tem sido marcado por irregularidades, mudanças de operadores (Binter, BestFly, TACV e agora CVSky) e dificuldades em garantir ligações consistentes.

Para já, a operação ainda decorre num modelo transitório. Os voos estão a ser realizados em regime de ACMI - ou seja, com aeronaves, tripulação, manutenção e seguros assegurados por um operador externo - enquanto a CV Sky prepara a transição para um controlo total da sua actividade. A meta apontada é clara: até ao final de Março, a companhia deverá assumir plenamente as rédeas, tanto na vertente operacional como na comercial.

Responder às necessidades

À frente da empresa, Manuel Lima não esconde o simbolismo deste momento, mas também não ignora os desafios. A ambição, disse durante a apresentação que decorreu no auditório do Tech Park da Praia, é construir uma companhia “sólida, fiável e sustentável”, capaz de responder de forma consistente às necessidades dos cabo-verdianos.

Essa consistência passa, desde logo, por garantir algo que tem faltado com frequência: regularidade. Durante anos, viajar entre ilhas em Cabo Verde implicou lidar com atrasos, cancelamentos e dificuldades em encontrar lugares disponíveis. É precisamente esse cenário que a nova companhia quer inverter.

A CV Sky inicia operações com duas aeronaves do modelo ATR 72-600, adequadas à realidade geográfica do país. Ainda assim, a administração reconhece que este é apenas o ponto de partida. O plano passa por reforçar gradualmente a frota, mas de forma sustentável, evitando repetir erros do passado e garantindo que o crescimento acompanha a capacidade real de operação.

Do lado do Governo, a mensagem é de prudência, mas também de convicção. O primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, enquadra a criação da nova companhia como uma escolha estratégica, essencial para garantir a coesão territorial e o direito à mobilidade num país arquipelágico como Cabo Verde.

O chefe do Executivo lembra que, apesar das dificuldades enfrentadas ao longo dos últimos anos, o país conseguiu manter as ligações interilhas sem interrupções totais, mesmo em momentos particularmente exigentes, como durante a pandemia ou nas transições entre operadores. Ainda assim, reconhece que isso não foi suficiente para responder à procura existente.

E é precisamente aí que reside um dos maiores desafios. Segundo Ulisses Correia e Silva, há um mercado interno claramente por satisfazer. Há pessoas que querem viajar por motivos profissionais, familiares ou turísticos, mas que muitas vezes se deparam com falta de lugares ou horários pouco fiáveis.

Por isso, a prioridade imediata está bem definida: estabilizar. Só depois virá a fase de crescimento. A ideia é criar primeiro uma base sólida, com voos regulares e previsíveis, antes de avançar para uma expansão mais ambiciosa.

Outro ponto considerado essencial é a articulação entre os voos domésticos e internacionais. O Governo entende que melhorar essa ligação pode ter um impacto directo no turismo, permitindo que visitantes que chegam ao país consigam circular com maior facilidade entre as ilhas, descobrindo diferentes destinos dentro do arquipélago.

A criação da CVSky surge também no contexto de uma reorganização mais ampla do sector. A partir de agora, as ligações interilhas ficam concentradas nesta nova companhia, enquanto os voos internacionais continuam sob responsabilidade da TACV. Esta separação pretende trazer maior foco e eficiência a cada uma das operações.

Números a crescer

Recorde-se que, desde 2024, a TACV tinha assumido, de forma transitória, tanto as ligações domésticas como internacionais, depois dos problemas registados com a anterior concessão do serviço interilhas. A criação de uma empresa dedicada exclusivamente ao mercado interno já estava, por isso, nos planos do Governo há algum tempo.

Os dados mais recentes ajudam a perceber a dimensão do desafio. Em 2025, o movimento de aeronaves e passageiros nos aeroportos de Cabo Verde cresceu 16%, mas foi no tráfego interilhas que se registou o aumento mais expressivo. A circulação interna subiu 34%, ultrapassando as 820 mil passagens, entre embarques, desembarques e trânsitos.

Estes números vêm reforçar a percepção de que há cada vez mais procura por ligações entre as ilhas. Seja pelo dinamismo do turismo, pelo peso da diáspora ou pela própria mobilidade interna, o transporte aéreo tornou-se ainda mais central no dia-a-dia do país.

É neste cenário que a CV Sky entra em cena e a expectativa é que represente uma mudança de paradigma. A promessa é simples, mas exigente: voos mais regulares, maior previsibilidade e um serviço capaz de acompanhar o ritmo de crescimento do país.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1268 de 18 de Março de 2026.

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Autoria:André Amaral,18 mar 2026 11:16

Editado porClaudia Sofia Mota  em  20 mar 2026 11:16

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