Mais de 5% da população afirma ter dificuldades auditivas, mas a falta de dados actualizados esconde a dimensão real do problema

PorEdisângela Tavares,12 abr 2026 7:18

Em Cabo Verde, 4,1% da população com cinco anos ou mais afirma ter alguma dificuldade em ouvir, 1,6% afirma ter muita dificuldade e 0,1% não consegue ouvir de modo algum, segundo o V Recenseamento Geral da População e Habitação do INE.

No entanto, a ausência de dados mais recentes impede uma avaliação precisa da realidade actual, num contexto em que especialistas alertam para casos por diagnosticar e para a necessidade de reforçar a prevenção e o diagnóstico precoce.

O uso frequente de auscultadores (ou fones de ouvido) em volume elevado, muitas vezes de qualidade duvidosa, a exposição prolongada à música alta e a ambientes ruidosos são hábitos comuns que, no dia-a-dia, passam despercebidos. No entanto, esses comportamentos podem causar danos progressivos à audição e contribuir para a perda auditiva — uma diminuição da capacidade de ouvir que pode variar de ligeira a profunda. Diferentemente da surdez, que corresponde à ausência total de audição, a perda auditiva é mais comum e tende a manifestar-se de forma gradual, muitas vezes apenas percebida em fases mais avançadas.

Dados

A perda auditiva afecta mais de 1,5 mil milhões de pessoas no mundo, das quais cerca de 430 milhões necessitam de reabilitação, segundo a Organização Mundial da Saúde. Sem medidas eficazes, o número pode atingir 2,5 mil milhões até 2050, com mais de 700 milhões a precisarem de cuidados especializados, sendo que quase 80% dos casos ocorrem em países de baixo e médio rendimento. Em África, cerca de 40 milhões de pessoas vivem com perda auditiva incapacitante, podendo esse número subir para 54 milhões até 2030.

Em Cabo Verde, dados do V Recenseamento Geral da População e Habitação do INE (Instituto Nacional de Estatística) indicam que 4,1% da população com cinco anos ou mais tem alguma dificuldade em ouvir, 1,6% tem muita dificuldade e 0,1% não consegue ouvir de modo algum. A condição afecta mais mulheres do que homens, é mais frequente no meio urbano e, na forma mais grave, regista uma ligeira predominância masculina nas zonas urbanas (170 homens contra 161 mulheres).

Termos e diferenças

Em conversa com a especialista em audiologia e reabilitação auditiva, Mirandolina Coimbra, a surdez corresponde à ausência total de audição. “Surdez total é quando a pessoa, de facto, não consegue ouvir. O termo científico é cofosse, quando não há qualquer reacção aos estímulos sonoros.” Já a perda auditiva engloba diferentes níveis de diminuição da capacidade de ouvir, podendo variar de ligeira a profunda. Trata-se, portanto, de um espectro, enquanto a surdez total representa o grau extremo dessa condição. Na experiência profissional da especialista, com mais de três décadas na área, a realidade mostra que ainda existe um grande défice de informação, não necessariamente por falhas institucionais, mas sobretudo pela postura dos próprios pacientes.

“Existe uma certa desinformação, mas muitas vezes está ligada à atitude das pessoas, que levam muito tempo a procurar ajuda. Essa demora é frequentemente influenciada por crenças culturais e religiosas, sobretudo em zonas mais rurais. Há pessoas que acreditam que é uma condição que Deus mandou e que deve ser aceite. Esse pensamento faz com que adiem a procura por cuidados de saúde. No dia-a-dia, a maioria dos casos atendidos é de pessoas idosas, embora também surjam situações em crianças, adolescentes e adultos. Ainda assim, tem havido alguma evolução na consciencialização, sobretudo em contextos urbanos. Nas cidades há mais ruído e as pessoas acabam por notar mais facilmente quando há falhas na audição. Já nas zonas rurais, onde há mais silêncio, isso pode passar despercebido durante mais tempo.”

Causas

As causas da perda auditiva são múltiplas e variam ao longo da vida. Mirandolina Coimbra aponta que, na infância, podem estar associadas a factores congénitos, hereditários, complicações na gravidez, uso de determinados medicamentos ou doenças como a meningite. Mesmo quando os rastreios são feitos à nascença, há situações que surgem posteriormente.

Ao longo da vida, outros factores podem influenciar, nomeadamente a exposição prolongada ao ruído. “O uso de fones inadequados, música alta, discotecas — tudo isso contribui para a perda auditiva, sobretudo nos jovens.” Nos adultos e idosos, a idade também é um factor determinante, com a chamada presbiacusia, que é a perda auditiva associada ao envelhecimento. A hereditariedade também desempenha um papel importante, mas não é determinante por si só.

“Existe o factor genético, sim, mas hoje fala-se muito da forma como a nossa postura ao longo da vida pode influenciar esses factores. Podemos minimizar os impactos se tivermos cuidados”, explica.

Entre as causas evitáveis, destaca-se claramente a exposição ao ruído. “Há situações que não podem ser evitadas, como problemas à nascença ou doenças, mas o ruído excessivo pode e deve ser controlado”, sublinha. A especialista chama a atenção para os níveis extremos de som em ambientes de lazer.

“Há locais onde o som atinge 130, 150 ou até 180 decibéis, quando os níveis normais de audição são muito inferiores. O impacto disso é extremamente negativo. Essa exposição não se limita às discotecas. O uso de sistemas de som potentes em veículos e o hábito de ouvir música com volume elevado em auscultadores também contribuem significativamente para o problema. Há pessoas que vivem cinco, sete ou até dez anos com perda auditiva antes de procurar ajuda. Quando o diagnóstico é tardio, muitas vezes já não é possível reverter a situação.”

Realidade nacional/sinais de alerta

A ausência de dados actualizados dificulta uma leitura mais precisa da realidade nacional. Os dados disponíveis do INE, de 2021, indicavam que 1,8% da população apresentava algum grau de perda auditiva, mas a especialista acredita que esses números estão desactualizados e subestimados, uma vez que muitos casos nunca chegam a ser diagnosticados. A identificação precoce é fundamental, especialmente em crianças. No entanto, nem sempre os sinais são reconhecidos.

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Credito: Depositphotos

“Se a criança não responde quando chamada, aumenta o volume da televisão, pede constantemente para repetir ou apresenta dificuldades na escola, são sinais de alerta”, explica. Ainda assim, há pais que interpretam esses comportamentos como desobediência.

Impactos / Diagnóstico

Os impactos da perda auditiva vão muito além da dificuldade em ouvir. A nível social, pode levar ao isolamento, à exclusão e até à depressão. Mirandolina Coimbra sublinha que “a pessoa deixa de participar nas conversas, afasta-se e muitas vezes entra em depressão.” Em contexto escolar, pode comprometer o desempenho, embora existam casos de superação. No que diz respeito ao diagnóstico, existem vários exames que permitem avaliar a audição, sendo a audiometria tonal simples o mais comum. Este exame permite determinar o grau de perda auditiva. Outros exames incluem a timpanometria, que avalia o funcionamento do tímpano, a cofonometria, utilizada em casos de zumbido, e as otoemissões acústicas, especialmente indicadas para crianças pequenas.

“O processo de diagnóstico deve seguir um protocolo rigoroso. Tudo começa no médico otorrinolaringologista. Só depois é que se faz a avaliação audiológica”, sublinha.

A especialista alerta para os riscos de procurar soluções sem orientação médica adequada. Em termos de tratamento, as soluções variam consoante o caso. Podem incluir desde acompanhamento médico até ao uso de próteses auditivas. No entanto, o acesso ainda apresenta desafios, sobretudo para pessoas com menos recursos.

“Embora existam iniciativas no sistema público, como a doação de aparelhos auditivos, muitos pacientes recorrem ao sector privado ou à ajuda de familiares no estrangeiro. Neste contexto, surge um problema frequente: o envio de amplificadores em vez de próteses auditivas adequadas. O amplificador apenas aumenta o som, mas não resolve o problema. Pode até piorar a situação. As próteses auditivas, por sua vez, exigem um processo de adaptação individualizado, baseado no perfil auditivo do paciente, na idade, no contexto social e profissional. O aconselhamento não deve ser feito com base no preço, mas na necessidade da pessoa. Os custos variam significativamente, existindo opções mais acessíveis e outras mais avançadas, com tecnologia de ponta. Ainda assim, a percepção de que são sempre muito caras pode afastar potenciais utilizadores.”

Outro aspecto importante apontado por esta especialista é a manutenção e substituição dos aparelhos. “Tal como acontece com os óculos, a prótese auditiva pode precisar de ser ajustada ou substituída ao longo do tempo”, explica.

Prevenção

A prevenção continua a ser um dos pilares fundamentais. Evitar a exposição a ruídos intensos, utilizar equipamentos de qualidade e adoptar hábitos adequados são medidas essenciais. Entre os erros mais comuns está o uso de objectos para limpar os ouvidos.

“As pessoas usam tampas de canetas, chaves, penas. Isso pode causar danos graves. A cera, muitas vezes vista como sujeira, tem, na verdade, uma função protectora. A sua remoção inadequada pode provocar problemas como rolhões e infecções. O ouvido limpa-se sozinho. O que deve ser limpo é apenas a parte externa. Práticas caseiras, como o uso de azeite, leite ou cones com fogo, são igualmente desaconselhadas. Podem causar danos irreversíveis. Se há queixas, procure um médico. Não tome decisões sem orientação. A reabilitação auditiva deve ser feita com base em diagnóstico sério e acompanhamento adequado.”

A especialista insiste ainda na importância da informação, da prevenção e da responsabilidade individual na gestão da saúde auditiva, num contexto em que muitos casos continuam por diagnosticar e tratar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2008, instituiu o Dia Mundial da Audição, assinalado a 3 de Março, que visa sensibilizar a população para a importância da saúde auditiva e melhorar os cuidados nesta área. O tema de 2026, “Das comunidades para as escolas: cuidados auditivos para todas as crianças”, destaca a importância da prevenção, detecção precoce e tratamento de problemas auditivos na infância, reforçando o papel das comunidades e das escolas na promoção da saúde auditiva.

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Em termos clínicos, a audição é considerada normal quando a pessoa consegue perceber sons entre -10 e 20 decibéis (dB), de acordo com parâmetros utilizados por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). A partir desse nível, começam a surgir diferentes graus de perda auditiva, que variam de ligeira, entre 21 e 40 dB, a moderada, moderadamente severa e severa, podendo ultrapassar os 90 dB nos casos mais graves, classificados como perda auditiva profunda ou surdez. Quanto maior for a intensidade sonora necessária para que o indivíduo consiga ouvir, maior é o grau de comprometimento da audição.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271 de 08 de Abril de 2026.

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Autoria:Edisângela Tavares,12 abr 2026 7:18

Editado porFretson Rocha  em  12 abr 2026 8:19

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