Em conversa com a educadora financeira e empreendedora Maria Maurício, esta explica que a realidade nacional revela desafios estruturais persistentes. “De forma estrutural, temos um nível de literacia financeira bastante baixo. Mesmo utilizando inquéritos que já são antigos e precisam de ser actualizados, a realidade é que continuamos com muitas fragilidades. E, quando falamos de crianças e jovens, isso ainda é mais sensível, porque não existe uma educação financeira formal integrada na escola e, em casa, o tema também não é abordado.”
Na ausência de uma abordagem sistemática, o conhecimento financeiro acaba por depender quase exclusivamente do contexto familiar. “Isso faz com que o conhecimento dependa da experiência individual. Haverá algumas situações em que essas crianças e adolescentes acabam por ter alguma informação, mas, na grande maioria dos casos, isso não acontece. E acabam por chegar à vida adulta sem bases sólidas, o que depois se reflecte em decisões financeiras menos conscientes”, afirma.
Famílias e relação com o dinheiro
Na prática, as abordagens das famílias cabo-verdianas em relação ao dinheiro variam significativamente. Na cidade da Praia, Keila opta por não dar qualquer quantia à filha, Kemilly, por receio dos riscos associados ao contacto precoce com o dinheiro.
“Prefiro comprar tudo o que ela precisa. Nem dinheiro para levar para a escola ela tem. Faço a lancheira todos os dias”, explica, acrescentando que acredita que as crianças não precisam de lidar com dinheiro tão cedo.
Em sentido contrário, Lena diz que entrega diariamente 30 escudos à filha de 11 anos, para que possa comprar algo na escola. “É para ela não passar vontade ao ver os colegas com doces ou outras coisas”, refere.
Já Cármen adopta uma solução intermédia, dando 100 escudos por semana e deixando o valor na carteira, permitindo que o filho, Edmilson, aluno do terceiro ano do ensino básico obrigatório, retire 20 escudos por dia. “Saio cedo para o trabalho e, às vezes, esqueço-me, então deixo já separado para a semana”, explica.
Entre os adolescentes, a lógica muda. Lenine conta que o filho, de 16 anos, recebe uma mesada mensal de dois mil escudos, destinada a despesas escolares e lanches na escola. “Ensino-o a dividir o dinheiro por semana e a poupar uma parte. Assim, no fim do mês, já tem alguma quantia acumulada”, afirma, sublinhando que a intenção é incentivar hábitos de gestão e responsabilidade.
Educação financeira
Para Maria Maurício, um dos principais equívocos é associar a aprendizagem financeira apenas ao início da vida profissional. “A relação com o dinheiro não começa quando a pessoa começa a trabalhar, mas sim muito antes disso, na infância, através de comportamentos e da observação. As crianças são bastante visuais. Não aprendem apenas com o que ouvem; aprendem muito com o que vêem, com a forma como os adultos lidam com o dinheiro no dia-a-dia.”
Neste sentido, defende que a educação financeira deve ser introduzida de forma natural e progressiva desde os primeiros anos de vida. “Quanto mais cedo essa criança começar a receber educação financeira, mais natural isso lhe vai parecer. Vai conseguir construir uma relação saudável com o dinheiro, baseada em consciência, responsabilidade e capacidade de escolha.”
Impactos
A ausência de educação financeira não se limita à má gestão do dinheiro, tendo impactos directos no comportamento, nas emoções e na forma como os indivíduos encaram o futuro.
“Uma das consequências mais comuns é a dificuldade em planear o futuro financeiro. As pessoas vivem muito no curto prazo, sem organização de médio e longo prazo. Temos muito essa cultura do imediatismo, de viver hoje porque amanhã não se sabe”, explica.
Este padrão traduz-se em decisões pouco sustentáveis. “Acaba por haver consumo impulsivo, dificuldade em distinguir o que é necessário do que é apenas um desejo. As decisões financeiras tornam-se pouco sustentáveis e, com o tempo, vemos também um aumento do endividamento.” Além disso, esta educadora sublinha que há um impacto emocional significativo, onde “as pessoas acabam por desenvolver uma relação de medo com o dinheiro. Vêem o dinheiro como algo difícil de obter, insuficiente, que nunca chega. E essa relação não é saudável e acaba por reflectir-se numa vida financeira desequilibrada.”
Por onde começar
Para Maria Maurício, a introdução à educação financeira não precisa de ser complexa, mas deve ser consistente e adaptada à idade. “A partir dos quatro ou cinco anos já é possível trabalhar conceitos simples, como a troca, a espera para obter algo, a definição de prioridades e pequenas decisões”, explica.
Entre os conceitos fundamentais, destaca o poupar, gastar e partilhar. “A criança precisa de perceber que o dinheiro não tem apenas uma função e que cada decisão implica uma escolha. Guardar dinheiro não é apenas por guardar; tem de haver um objectivo, uma meta.” No caso do consumo, reforça a necessidade de consciência. “Quando o dinheiro sai, deve sair por um motivo. A criança deve perceber porque quer comprar algo e qual a importância dessa decisão.”
Influência das redes sociais
A influência das redes sociais surge como um factor cada vez mais determinante no comportamento financeiro das crianças. Segundo a educadora financeira, esta exposição altera a forma como os desejos são construídos. “A criança deixa de basear o consumo na necessidade e passa a basear-se no que vê nas telas. Há uma forte componente de comparação social, ligada à aceitação e ao reconhecimento. As redes sociais criam uma exposição constante a estilos de vida idealizados, a padrões de consumo que muitas vezes não correspondem à realidade”, afirma.
Neste contexto, muitas decisões deixam de ser racionais. “O consumo passa a responder a uma necessidade emocional e não prática, o que pode ser problemático se não houver limites bem definidos.”
“Evitar o tema dinheiro não protege a criança”
Apesar da influência externa, os pais mantêm um papel central na formação financeira das crianças. Maria Maurício alerta que evitar o tema dinheiro não protege a criança. Defende, por isso, uma abordagem mais aberta e natural.
“Os pais são a primeira e mais importante referência. Mesmo sem educação formal, existe sempre uma educação implícita que acontece através do comportamento. O dinheiro deve ser apresentado como uma ferramenta, não como algo negativo ou distante. Não falar sobre dinheiro deixa a criança sem orientação. Depois vai buscar referências noutros sítios, como redes sociais ou publicidade, que nem sempre promovem uma relação saudável com o dinheiro.”

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Construir hábitos
Entre as estratégias recomendadas, destaca-se o uso da mesada como ferramenta educativa, e Maria Maurício defende também a importância da autonomia.
“A mesada pode ser muito útil, mas deve ter regras claras. A criança precisa de perceber que aquele dinheiro deve ser gerido ao longo do tempo e não gasto imediatamente. A criança deve ter liberdade para tomar decisões e aprender com as consequências. É assim que se constrói responsabilidade.”
Na prática, a educação financeira pode ser trabalhada com estratégias simples. O uso de um cofre transparente, por exemplo, permite à criança visualizar o crescimento do dinheiro, tornando a poupança mais concreta. A atribuição de pequenas recompensas por tarefas ajuda a associar esforço à recompensa, enquanto a definição de objectivos, como poupar para comprar um brinquedo, ensina a importância da espera e da priorização.
Mais do que saber contar moedas
Em conversa com a representante da plataforma ZINRAI, plataforma dedicada à educação financeira e investimento digital, Miryan Katiza Rodrigues, reforça a necessidade de encarar a educação financeira como uma prioridade.
“A educação financeira consolidou-se como uma competência vital. Mais do que saber contar moedas, o objectivo é formar cidadãos responsáveis e autónomos, capazes de tomar decisões num cenário económico cada vez mais complexo”, afirma.
Segundo esta representante, o contacto precoce com estes conceitos é determinante. “Permite melhorar a tomada de decisões e desenvolver hábitos de poupança e investimento sustentáveis.”
Miryan Katiza Rodrigues alerta ainda para falhas no sistema de ensino. “O modelo tradicional continua focado na preparação para o mercado de trabalho, mas não ensina a gerir o dinheiro, o que deixa os jovens despreparados.”
Miryan Katiza Rodrigues defende uma aprendizagem progressiva. “Deve começar com estratégias simples, como mesadas e poupança, e evoluir para conceitos como orçamento, risco e investimento.”
A especialista destaca ainda exemplos internacionais, como Reino Unido, Estados Unidos, Finlândia e Austrália, onde a educação financeira já está integrada no ensino, defendendo que “não é apenas uma opção, mas um imperativo social”.
Dados disponíveis reforçam este diagnóstico. Um estudo do Banco de Cabo Verde, em parceria com o Instituto Nacional de Estatística, aponta que a maioria da população adulta apresenta níveis reduzidos de literacia financeira, sobretudo em áreas como poupança, planeamento e gestão de crédito. Embora centrado nos adultos, o estudo evidencia uma falha estrutural que começa na infância.
Para Maria Maurício, ignorar esta realidade pode ter consequências duradouras. “O maior risco é continuarmos a formar adultos sem preparação emocional, comportamental e prática para lidar com o dinheiro. Muito daquilo que repetimos vem da nossa infância. Se não houver intervenção, vamos continuar a perpetuar ciclos de dificuldade económica que poderiam ser evitados com uma base sólida desde cedo.”
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Dados internacionais reforçam a dimensão global do problema da literacia financeira. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, cerca de 18% dos estudantes de 15 anos não possuem competências básicas de literacia financeira, revelando dificuldades em aplicar conhecimentos simples no dia-a-dia, enquanto apenas uma minoria atinge níveis mais avançados. No mesmo sentido, estimativas citadas pelo World Economic Forum indicam que apenas 34% dos adultos a nível global são financeiramente alfabetizados, o que evidencia uma lacuna estrutural que começa cedo e se prolonga ao longo da vida. Ainda segundo a OCDE, cerca de 60% dos jovens de 15 anos já possuem conta bancária ou cartão, demonstrando um contacto precoce com o sistema financeiro, muitas vezes sem o acompanhamento de conhecimentos adequados para uma gestão consciente (OCDE, PISA – literacia financeira).
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1273 de 22 de Abril de 2026.
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