Extracção clandestina e escassez de areia criam constrangimento económico e impactos ambientais em São Vicente

Sem locais autorizados para apanha de areia, São Vicente depende da extracção ilegal em zonas costeiras sensíveis. A construção civil sente a escassez, enquanto ambientalistas alertam para danos nas praias.

Na Praia Grande, em São Vicente, as marcas de rodas de camiões e os sinais recentes de escavação denunciam a extracção de areia. São Vicente está sem locais de apanha formalmente autorizados, o que levanta problemas económicos e ambientais.

Fonte da câmara municipal da ilha confirma a existência de um vazio que abre espaço à apanha descontrolada. A mesma fonte explica que, depois do encerramento da zona de extracção de Morro Branco, determinada pela Direcção Nacional do Ambiente, chegou a ser indicado um local, em Salgadin, perto de Salamansa, mas que funcionou por pouco tempo.

A situação é particularmente grave por ocorrer num momento em que a construção civil está em alta.

Amândio Lima é camionista desde os anos 90. Assume que há extracção em locais proibidos, mas alerta que não existem alternativas legais.

“Ainda há muita areia em São Vicente que pode ser apanhada sem danificar a biodiversidade e as praias. Estávamos a apanhar uma areia na encosta da Praia Grande, que estava a ser bem extraída. Apanhávamos a areia da estrada para cima. Mesmo lá é proibido, mas a areia da praia para cima não significava nada. Mas os nossos colegas e camionistas estragaram tudo, porque alguns avançaram para a praia para extrair a areia e correram connosco. Devemos ter consciência para fazer as coisas”, afirma.

Eduardo Santos também é camionista há cerca de 40 anos. Apela à criação de alternativas legais para a extracção de areia e lembra os impactos ambientais da apanha descontrolada.

“Tem de haver consciência, porque as praias são para os banhistas, para as tartarugas, para protecção e tudo mais. Se o Estado dá uma autorização para apanhar areia longe do mar, está tudo bem. Agora, areia à beira-mar, acho que não. Há muita areia no Norte, longe do mar. Seria normal abrirem um acesso lá, para garantirem que as pessoas possam viver também”, diz.

A preocupação dos camionistas encontra eco nos profissionais de construção civil. Num sector em crescimento, a falta de um ponto regular e regulado para a extracção cria constrangimentos no abastecimento, pressiona os preços e coloca em causa o calendário das empreitadas.

Pedro Silva, encarregado de obras, é claro.

“Pedimos um carro de areia e demora um ou dois dias a chegar. Tens trabalhadores e não vais mandá-los para casa sem o seu dia. Tens de ver o que fazer, ou arranjar areia mal qualificada para fazer um trabalho. De dia para dia, estamos a ver que há fluxo de obras, o que acontece é que estamos a ter escassez total, tanto de mão-de-obra qualificada, como de inertes para a construção. Está a ficar fraco. Até a brita está a ficar difícil, porque as empresas não estão a produzir material dentro do tempo necessário para trabalharmos”, resume.

O engenheiro civil Aldino Rodrigues, proprietário de uma empresa de projectos e obras, confirma que a falta de areia está a condicionar o ritmo das obras.

“Se pensarmos só nessa areia que estamos a usar com maior frequência, vamos ter dificuldade em entregar obras a prazo, porque o local de recolha da areia está cada vez mais difícil. Não há muito espaço, porque quando contacto o pessoal a dizer que preciso de areia, tenho dificuldades. Então, isso vai atrasar a entrega. O mercado está a crescer, por causa, se calhar, da aposta na imobiliária. Está a uma velocidade que, se calhar, as empresas não vão conseguir acompanhar, se continuar desta forma”, alerta.

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Uma das alternativas à extracção convencional é o recurso à chamada areia mecânica, material produzido a partir da trituração de pedras em unidades industriais. A opção não agrada a todos, especialmente aos camionistas, mas para Aldino Rodrigues é a única via a seguir.

“Areia mecânica seria a solução. Noutros mercados, a nível nacional, já há alguns anos que não há areia fina, é tudo areia mecânica. Agora, temos de preparar os nossos operários para isso. Se pegarmos num pedreiro aqui de São Vicente e dissermos: ‘ok, vou fazer o reboco só com areia mecânica’, acredito que não há dois ou três pedreiros que consigam fazer”, observa.

Impacto ambiental

A nossa reportagem chegou à Praia Grande pouco depois das 10 horas de uma manhã de Junho. Nessa madrugada, um camião particular, terá estado na praia a retirar areia. A situação foi filmada por Jorge Silva Monteiro que, perante suspeitas, decidiu recolher provas.

“O que presenciei - e tenho imagens para mostrar - são pessoas a roubar areia naquela área. Já tem mais de um ano que aumentaram activamente a quantidade de pessoas que lá vão. O Governo, durante a campanha, pôs um sinal de proibição de extracção de areia ali. Agora passaram para a praia de mar, mas não por causa do sinal, passaram porque já não havia mais areia para extrair da rocha. Este ano, tiraram tudo o que havia de areia para extrair na bancada do lado esquerdo, se vieres de frente para o mar, e agora estão atrás das pedras, areia restrita para a desova de tartarugas. Estão lá dentro, num espaço de 40 metros de largura, a cerca de 10 metros da água, na maré seca”, detalha.

Entre marcas de pneus, no areal ainda são visíveis cascas de ovos de tartaruga da época de desova de 2025. O presidente da organização ambientalista Biosfera, Tommy Melo, alerta para a “devastação de uma zona costeira de grande sensibilidade”.

“Nesta extracção de areia que fizeram recentemente já vemos várias cascas de ninhos de tartaruga. Quer dizer, já estão a extrair areia na zona de nidificação. Isso é claro. Estamos a ver que o areal está a ser completamente removido, estamos a ver zonas de ninhos que estão a ser expostas. Portanto, cascas de ovos de ninhos do ano passado estão completamente expostas, mostrando que realmente está a ser retirada areia da zona onde as tartarugas colocam os ninhos. Está-se a degradar uma praia que é utilizada todos os fins-de-semana há várias gerações. Portanto, está-se a colocar pressão numa zona costeira de grande sensibilidade, não só ambiental, também cultural e tradicional”, lamenta.

Para o ambientalista, a responsabilidade é de todos, e não apenas de quem faz a apanha e depende da actividade.

“É uma luta que tem de ser feita em várias frentes, portanto, não é só preservação ambiental, é preservação do património histórico, cultural. Tudo isso está a ser levado. Eu nem diria que a culpa deve ser apontada directamente às pessoas que extraem areia. Essas pessoas são pais de família, têm de colocar comida no prato. Se calhar, devemos abrir um bocadinho o escopo e ver um pouco mais além. Quem é que compra essa areia? Quem é o chefe de obra que aceita receber uma areia de proveniência ilegal como essa?”, questiona.

“É preciso pensar um bocadinho mais além. Existe um programa claro e coeso em São Vicente para a apanha de areia? As entidades que dão autorização para a apanha de areia em São Vicente têm claro na sua cabeça onde é que se pode apanhar areia e onde não se pode?”, reforça.

O decreto-lei n.º 18/2016, de 18 de Março, define o regime jurídico de extracção de inertes em Cabo Verde e proíbe a extracção nas praias, dunas, na faixa costeira e no mar territorial até uma profundidade de 20 metros. O diploma admite excepções apenas em situações devidamente autorizadas, com base em estudos da plataforma marítima e desde que não seja posto em causa o equilíbrio ambiental. A legislação prevê articulação entre várias entidades, nomeadamente a Direcção Nacional do Ambiente (DNA), o Instituto Marítimo Portuário (IMP) e a Polícia Marítima.

Contactada, a Polícia Nacional não quis prestar declarações. A DNA também foi contactada, por email, telefone e mensagem, mas não respondeu.

O IMP falou através do Capitão dos Portos de Barlavento. Aguinaldo Lima reconhece ter conhecimento da prática ilegal, admite que o Instituto tem um papel importante na fiscalização da orla marítima, mas diz que a instituição enfrenta constrangimentos para cumprir essa atribuição.

“Este é um fenómeno que nos tem criado bastantes embaraços. Fiscalizamos, mas a Capitania e o IMP não têm uma equipa fiscalizadora. Dependemos da Polícia Marítima, que pode fazer essa fiscalização. Eles têm as suas limitações, como todos sabemos. Temos conhecimento da prática e, em concertação com a Polícia Marítima, temos vindo a fazer essa fiscalização e a abordar. A Polícia Marítima tem abordado algumas viaturas e até feito apreensões. Nem sempre dentro da orla marítima dos 80 metros, que é da nossa atribuição, da nossa competência, mas, às vezes, também fora dessa área, que já é uma atribuição partilhada entre a Direcção Nacional do Ambiente e a ZEEM”, comenta.

Na Praia Grande, cada carrada de areia retirada ilegalmente deixa marcas que vão além do areal. Entre a necessidade de manter a economia em funcionamento e a urgência de proteger o ambiente, São Vicente continua à espera de uma solução.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1282 de 24 de Junho de 2026.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira, Fretson Rocha,28 jun 2026 9:35

Editado porAndre Amaral  em  28 jun 2026 10:06

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