Nos últimos anos, Boa Vista tem recebido um número crescente de jovens provenientes de várias ilhas, que deixam sua antiga vida para trás, à procura de uma estabilidade financeira. Os jovens entrevistados pelo Expresso da Ilhas relatam as suas experiências desde a chegada à Boa Vista e os desafios encontrados na adaptação.
“Na Boa Vista há mais oportunidades de trabalho"
Cleidir Neves é um jovem na casa dos 20 anos que chegou à Boa Vista há três anos. A mudança aconteceu por incentivo do irmão mais velho, que já vivia na ilha e o convenceu a tentar a sorte. Natural da ilha de Santiago, conta que a dificuldade em encontrar emprego foi a principal razão que o levou a emigrar internamente.
Na altura, recorda, estava desempregado na Praia e via na Boa Vista uma oportunidade para melhorar a sua situação. “Aqui há mais áreas de trabalho, mesmo se você não tem muita escola. Mesmo nos hotéis pagam melhor do que em Santiago", sustentou.
Embora admita que as condições de trabalho encontradas não corresponderam totalmente às expectativas, considera que a facilidade em conseguir emprego compensa.
"Quando cheguei, no trabalho para onde fui indicado, num hotel, não demorei muito tempo. Encontrei outra oportunidade mais bem paga", afirmou.
A adaptação à nova realidade, porém, não foi imediata. Cleidir lembra que, no início, sentiu dificuldades por considerar a Boa Vista uma ilha "um pouco parada", além de enfrentar limitações na oferta de alguns produtos e um custo de vida elevado, citando como exemplos o vestuário e a alimentação.
Quando decidiu viver sozinho, deparou-se com um novo obstáculo: a habitação. Entretanto referiu que, quando chegou à ilha era mais fácil encontrar casas para arrendar, realidade que, garante, já não existe.
"Aqui tens de ser rápido para encontrar uma casa. No final do mês é o período para procurares e também quando as pessoas viajam para fora ou para outra ilha pode aparecer uma oportunidade. E, sinceramente, a renda aqui é um exagero. É uma ilha turística e acabam por se aproveitar disso", criticou.
Na sua avaliação, o custo de vida na Boa Vista é bastante superior ao de Santiago e de outras ilhas, embora considere que, com um bom emprego, seja possível viver com alguma tranquilidade.
Quanto aos salários, entende que tudo depende da função desempenhada, sobretudo no sector hoteleiro. "No hotel, um auxiliar de restaurante, se tiver uma família e for só você a trabalhar, já é impossível viver. O dinheiro não chega para nada. Se ainda pagas renda, é pior", salientou.
Mesmo assim, acredita que a Boa Vista continua a ser uma boa opção para os jovens que procuram emprego, sobretudo pela necessidade de mão-de-obra existente na ilha.
"Aqui há falta de mão-de-obra, porque também estão a viajar muito para o exterior. Então, os estrangeiros também acabam por vir à procura de emprego, como os nigerianos e os guineenses, mas os cabo-verdianos estão mais nos hotéis", mencionou.
Para os jovens de Santiago e de outras ilhas que pretendem aventurar-se na Boa Vista, aconselha uma boa preparação financeira e alguma prudência, tendo em conta o elevado custo de vida da ilha. Na sua perspectiva, é importante que os jovens, numa fase inicial, procurem apoio junto de familiares, amigos ou conhecidos, de forma a reduzir os custos até conseguirem estabilizar-se.
Lucas (nome fictício) é outro jovem que deixou a casa dos pais para começar a vida e conquistar a sua independência. Ainda na capital do país, começou a trabalhar antes dos 18 anos, sem ter terminado o 12.º ano de escolaridade. Entretanto, a convite de amigos residentes na Boa Vista, foi em busca de emprego.
“Na Praia eu trabalhava em empregos temporários, nada fixo, mas também estava à procura de experiências e de encontrar a minha verdadeira vocação”, recordou.
Inicialmente, quando chegou, há dois anos, vivia na casa de um amigo e, assim, dividiam as despesas.
“Não demorei muito para encontrar emprego quando cheguei. Havia uma obra no aeroporto, na época, então eu era vigia dos equipamentos e máquinas da obra. Eu ganhava bem”, frisou.
Hoje em dia, Lucas trabalha num hotel, tem um emprego estável e vive numa casa arrendada.
A procura por uma casa para viver não foi fácil. Conseguiu arrendar uma habitação que tinha sido deixada por uma pessoa que estava a viajar.
“Pagava 14 mil escudos de arrendamento, mas começou a ficar um pouco puxado nas minhas contas, porque a alimentação é cara e tinha outras despesas. Precisava também de juntar dinheiro para comprar electrodomésticos”, realçou. Por isso, saiu à procura de outra residência e, depois de algum tempo, encontrou uma por metade do valor, embora com piores condições habitacionais.
O entrevistado relatou que encontrar uma casa disponível para morar na Boa Vista não tem sido fácil, surgindo oportunidades apenas quando algumas pessoas viajam.
“Aqui a vida é como na Europa: cara e cansativa, mas há sempre emprego”, reforçou.
Para o entrevistado, a Boa Vista é uma ilha para trabalhar e prosperar, principalmente para um jovem que pretende construir a sua vida. Entretanto, a longo prazo, pretende regressar à Praia e contruir sua própria casa.
Há quem também tenha vindo explorar o terreno. É o caso de Fredilson. O jovem está há um mês na ilha, a realizar um estágio na área da restauração, num hotel. Na escola onde frequentava a formação surgiu a oportunidade de fazer um estágio no estrangeiro ou noutra ilha.
“A primeira coisa que fiz foi preparar a minha mente, depois organizar a minha estadia com o meu primo. Até fizeram uma proposta para me alojarem no hotel, mas preferi ficar com o meu familiar”, disse.
O estágio remunerado ajuda-o a dividir as despesas com o primo e a enviar “alguma coisa” para a família. Fredilson conta que, em comparação com a Praia, o custo de vida é mais elevado, mas considera-o acessível.
A rotina exigente e o custo de vida não são um impedimento para este jovem, que faz planos para regressar à Boa Vista e trabalhar na ilha. Fredilson conta, aliás, que sempre ouviu falar das diversas oportunidades de emprego existentes na ilha e, por isso, decidiu aproveitar o estágio para analisar melhor as possibilidades.
“A cozinha é uma boa área para investir e vir trabalhar na Boa Vista. Para que eu possa regressar um dia, terei de me organizar melhor, mas penso em voltar depois”, perspectivou.
De onde vêm?
As histórias de Cleidir, Lucas e Fredilson reflectem um fenómeno que, de acordo com o presidente da Câmara Municipal da Boa Vista, se tem intensificado nos últimos anos. Cláudio Mendonça confirma que a ilha continua a atrair jovens de várias partes do país, sobretudo de Santiago, em busca de emprego e melhores condições de vida.
“Santiago representa o maior número, com certeza absoluta. Tanto é que, desde 2006, 2007, os santiaguenses vieram principalmente dos concelhos de Santa Cruz e de São Miguel", indicou.
Mendonça apontou o bairro da Boa Esperança como um dos exemplos dessa diversidade, onde residem milhares de pessoas de diferentes origens, incluindo Santiago, Santo Antão e outras ilhas. De acordo com o presidente da Câmara, depois de Santiago, Santo Antão representa a segunda maior comunidade migrante na ilha, seguida de São Vicente.
Sectores onde se empregam e o impacto na economia
Cláudio Mendonça referiu ainda que estes jovens estão inseridos em vários sectores de actividade, sobretudo na hotelaria, onde assegurou, com "certeza absoluta", que mais de 50% das mulheres e dos rapazes que trabalham nos hotéis da Boa Vista são provenientes da ilha de Santiago.
Segundo acrescentou, a presença destes trabalhadores também é muito significativa nos transportes, nomeadamente nos táxis, hiaces, excursões, pick-ups e nos serviços ligados ao turismo.
O autarca considerou que esta população jovem se encontra bastante integrada no mercado de trabalho, conseguindo obter rendimento suficiente para o seu auto-sustento e, simultaneamente, apoiar os familiares.
Para o presidente da Câmara Municipal da Boa Vista, a migração de jovens de outras ilhas, sobretudo de Santiago, tem um efeito multiplicador na economia local. Depois de se estabelecerem na ilha, muitos acabam por trazer familiares e conhecidos em busca de novas oportunidades de trabalho, reforçando a mão-de-obra disponível e contribuindo para o desenvolvimento económico.
Na sua perspectiva, além da integração no mercado de trabalho, estes jovens têm dado um contributo importante para o desenvolvimento económico e social da ilha, com especial destaque para o sector das pescas.

A construção civil é outro dos sectores onde a mão-de-obra proveniente de outras ilhas assume um peso significativo, destacando Claúdio Mendonça que, muitos desses jovens chegam à Boa Vista com baixa escolaridade, mas encontram emprego nas grandes obras em curso na ilha.
"Só para ter uma ideia, na remodelação do hotel Touareg estão, se não me engano, cerca de 1.800 trabalhadores na construção civil ", sustentou.
Na óptica do edil, Boa Vista já não é apenas um destino turístico, mas também uma ilha de oportunidades para quem procura emprego e melhores condições de vida.
Habitação, o calcanhar de Aquiles
Apesar das oportunidades de emprego e da segurança existentes na Boa Vista, o presidente da Câmara Municipal reconhece que a habitação continua a ser o principal desafio da ilha.
Cláudio Mendonça afirmou que, embora muito tenha sido feito nos últimos anos, continua a haver necessidade de aumentar a oferta habitacional, tanto em quantidade como em qualidade.
O autarca apontou o elevado custo das rendas como uma das maiores preocupações, defendendo que os preços praticados dificultam o acesso à habitação, sobretudo para quem inicia a vida profissional.
"O que está a preocupar mais é o facto de a renda ser bastante alta. Mesmo que uma pessoa queira arrendar uma casa por 40 mil escudos, se ganhar 50 mil não vai poder. Mesmo que queira juntar duas pessoas para procurar uma renda mais barata, a Boa Vista não tem renda barata", referiu
Acrescentou ainda que, neste momento, praticamente não existem casas disponíveis para habitação ou arrendamento, situação que afecta particularmente os jovens que procuram o primeiro emprego e pretendem entrar no mercado de trabalho.
Para responder ao défice habitacional, a Câmara Municipal tem em curso novos projectos de construção de 21 apartamentos, bem como a retoma do programa Casa para Todos, anunciado pelo Governo.
A ilha continua a atrair quem procura uma oportunidade, mas também enfrenta o desafio de garantir melhores condições para quem chega, entretanto, as dificuldades não são um factor de desistência por parte dos jovens.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1288 de 05 de Agosto de 2026.
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