Helder (nome fictício) tem 21 anos e estudou até ao 10.º ano, após ter repetido duas vezes. Diz que acabou por deixar a escola porque não gostava de a frequentar e tinha dificuldades em acompanhar as matérias.
“Penso que eu não gostava muito de ir à escola. Não gostava por muitas razões. Uma dessas razões era a dificuldade em aprender as matérias”, admite.
Actualmente, também não tem um emprego fixo e trabalha de tempos em tempos. Garante que não é por falta de trabalho, mas por ainda não ter encontrado algo que realmente gosta de fazer. Nos últimos meses, admite, também não tem procurado.
Quando surge algum trabalho ocasional, Helder aproveita. Nos períodos em que não aparece, diz que pouco faz além de descansar.
“Já tive oportunidades de trabalhar em dois empregos fixos, mas deixei de ir poucos dias depois”, narra.
O jovem reconhece, entretanto, que o facto de não ter concluído o 12.º ano pode dificultar o acesso a algumas oportunidades. Também já teve contacto com formações gratuitas, mas não conseguiu avançar por não ter a documentação em dia.
“Emigrar também não faz parte dos meus planos. Prefiro permanecer na minha terra”, enfatiza. O jovem é sustentado pela mãe.
Pais ocupados, jovens cada vez mais parados
Na comunidade de Achada Eugénio Lima, a presidente da Associação Comunitária de Achada Eugénio Lima (ACAEL), Ricardina Veiga, considera que, antes de se falar apenas em falta de oportunidades ou em falta de vontade, é preciso perceber o que está por detrás da inactividade de cada jovem.
Ricardina Veiga considera que, em alguns casos, existem barreiras internas que impedem os jovens de avançar, sobretudo quando não sabem ainda o que querem para o futuro.
“Os jovens não sabem o que querem. Falta o conectar, o pensar o que eles querem, o que acham que vão ser ou qual o seu sonho, qual o seu projecto”, diz.
Naquela comunidade, prossegue, os NEET passam grande parte do dia sem ocupação, seja na rua ou dentro de casa. Entretanto, a ACAEL tem conseguido encaminhar alguns para formações, estágios e outras oportunidades, mas muitos continuam sem procurar alternativas.
“Posso dizer que em Eugénio Lima baixou bastante o número de jovens que ficavam o dia todo sentados na praça”, reitera.
Para Ricardina Veiga, há também um desinteresse por parte de alguns jovens, mesmo quando existem oportunidades ao seu alcance. A associação tem promovido formações e actividades e mantém a sua sede disponível, mas a adesão continua aquém do esperado.
“Fala-se da falta de oportunidades, mas há oportunidades”, assegura.
A associação disponibiliza materiais e equipamentos, como máquinas para fazer sandálias, promove formações e procura apostar em actividades de curta duração e mais práticas, por considerar que os jovens têm pouca paciência para permanecer várias horas numa formação.
Ainda assim, segundo a presidente, muitos não aparecem.
“Muito se tem feito para os jovens e nós, a associação, temos feito sempre, mas temos tido pouca aderência”.
A pouca procura pela associação é, aliás, uma das dificuldades apontadas por Ricardina Veiga. Apesar de as actividades serem divulgadas e de a instituição se mostrar disponível para orientar quem procura formação, estágio ou apoio para desenvolver uma ideia de negócio, são poucos os jovens que aparecem.
“É nosso desejo que eles procurem a associação, mas não procuram muito. De vez em quando aparece um ou outro a procurar formação, carta de condução. Mas a maioria não procura”, aponta.
A presidente da ACAEL entende, contudo, que a questão não pode ser colocada apenas sobre os jovens. Dentro das famílias, observa que muitos pais passam o dia fora de casa a trabalhar, sobretudo na venda, e regressam apenas à noite, o que reduz o tempo disponível para acompanhar os filhos e perceber o que fazem durante o dia.
A falta de diálogo, segundo a responsável, pode fazer com que situações que afectam os jovens passem despercebidas.
“Para muitos pais, basta o jovem estar bem e limpo”. Ricardina Veiga considera que os pais não devem desistir dos filhos e devem continuar a questioná-los e a incentivá-los a procurar uma actividade, uma formação ou um trabalho.
A responsável alerta ainda que as consequências de um jovem permanecer sem estudar ou trabalhar nem sempre são visíveis de imediato.
“A primeira consequência são as dificuldades na comunidade. Porque os jovens, trabalhando, poderiam ajudar as suas famílias. E estar parado acaba por influenciar dentro da casa desses jovens”, sustenta.
Por isso, Ricardina Veiga defende uma maior aproximação entre famílias, comunidade e jovens, sobretudo através do diálogo. Na sua perspectiva, quando um jovem não encontra acolhimento ou orientação num determinado espaço, pode procurar noutro lugar a sensação de pertença que não encontrou em casa ou na comunidade e muitas vezes acaba por procurá-la em grupos de delinquentes.
“É triste, é stressante, é decepcionante”
Aos 23 anos, o filho de Maria já terminou o 12.º ano, mas continua sem estudar ou trabalhar. Após concluir o ensino secundário, deveria ter ingressado na universidade, mas pediu um ano para descansar a mente.
Quase três anos depois, continua em casa, sem um objectivo definido.
Maria conta que o filho chegou a trabalhar como segurança, mas acabou por abandonar o emprego. Desde então, também não tem procurado.
A situação, diz, tem pesado sobre toda a família. Maria continua a trabalhar diariamente, apesar de considerar que não teria tanta necessidade de o fazer, e sente que o filho, por não trabalhar nem estudar, representa uma despesa constante para a casa.
Hoje, o desejo de Maria é que o filho consiga um emprego e passe a contribuir, ainda que pouco, para as despesas da família, numa altura em que os preços dos bens estão elevados.
“O meu objectivo é que ele consiga um trabalho e ajude, mesmo que com pouco, com a comida, cujo preço está elevado”, desabafa a mãe.
Maria diz que, neste momento, a presença do filho em casa pesa sobretudo nas despesas. Passa grande parte do tempo fechado no quarto, no computador, a ouvir música e na internet, o que, segundo a mãe, contribui para o aumento da factura da electricidade.
A mãe gostaria que o filho conseguisse, pelo menos, assumir algumas despesas pessoais, como a internet, que actualmente é paga com dinheiro enviado pela irmã que vive no estrangeiro.
“Se ele ao menos trabalhasse, teríamos mais folga no bolso”, antevê.
Além da alimentação, Maria continua a suportar outras despesas do filho, desde roupa a dinheiro para transporte e pequenos lanches. Conta que o mesmo permanece praticamente todo o dia em casa e tem pouca interacção com a família.
“Ele fica o dia todo em casa, dentro do quarto. Não interage muito connosco. Ele é um jovem calado, muito introvertido. Interage um pouco com alguns primos, mas nem todos e não tem amigos, pelo menos não conhecemos. Como está sempre online, deve manter aí amizades”, lamenta.
O impacto, contudo, não é apenas financeiro. Maria conta que a situação tem provocado stress dentro da família e o marido, por ser uma pessoa mais calada e que guarda os problemas para si, chegou a precisar de cuidados hospitalares.
“O pai passou a ter ansiedade. Porque é muito stressante. Ele é mais calado e guarda tudo para si, e nisso já houve um caso em que ele foi parar ao hospital devido ao stress desse filho”, reforça.
A situação também afecta as outras filhas. Uma delas, que vive no estrangeiro, está igualmente stressada e chegou a pedir à família que não abordasse mais o assunto. As outras duas, segundo Maria, também estão cansadas da situação. Apesar do desgaste, Maria diz que não consegue deixar de apoiar o filho.
“De qualquer forma, é meu filho e tenho de dar suporte, quanto a isso não tenho o que fazer”, pontua.
A mãe conta que o filho, por vezes, diz que vai começar a trabalhar ou matricular-se num curso, mas as expectativas acabam por se transformar em mais uma fonte de frustração quando surge uma nova justificação.
“Ou alega que o curso que queria não está disponível ou que um determinado trabalho não é o ideal. Pior é quando são os amigos da família a arranjarem o trabalho”, menciona.
Uma das situações que mais marcou Maria foi a desistência de uma formação profissional. O filho chegou a frequentar quase todo o curso e fez inclusive o estágio, mas acabou por abandonar antes de concluir.
Faltava apenas terminar e entregar o relatório.
Apesar de a formação ser gratuita, a família teve de suportar despesas relacionadas com a frequência do curso.
“Não é por falta de diálogo ou falta de conselho. Até chegamos a sugerir um psicólogo, mas ele recusa-se porque acredita que psicólogos são para doentes mentais”, complementa.
Para Maria, ver o filho permanecer parado enquanto as irmãs estudaram, conseguiram emprego e construíram a própria vida torna a situação ainda mais difícil.
“É triste, é stressante, é decepcionante”, exclama.
A expectativa de qualquer pai ou mãe, considera, é ver os filhos avançarem nos estudos, conseguirem um trabalho e construírem uma vida própria, também porque chegará o momento em que os pais já não estarão presentes para continuar a sustentá-los.
“E quando todos evoluem e o seu filho não, é triste”, frisa.
Quando a dependência se prolonga
Do ponto de vista sociológico, a permanência prolongada de um jovem sem estudar ou trabalhar pode ter consequências que ultrapassam a própria situação profissional e acabam por se reflectir no ambiente familiar.
O sociólogo Henrique Varela considera que a falta de ocupação pode levar o jovem a procurar outros espaços de convivência, nem sempre positivos, além de poder afectar o seu bem-estar emocional.
“Essa situação torna-se um problema para a família uma vez que isso vai contribuir para que o jovem passe a desenvolver alguns comportamentos inadequados, como entrar para grupos buscando afazeres que nem sempre são adequados, podendo desenvolver alguma ansiedade, depressão e sentir-se rejeitado”, explica.
A dependência económica prolongada é outra consequência apontada pelo sociólogo.
“A dependência económica prolongada pode fazer com que o filho desenvolva com menos celeridade a sua autonomia, uma vez que, fora desse contexto familiar e na falta de apoio económico, o seu círculo de convivência pode ficar limitado e isso é uma barreira para acções mais enérgicas em termos sociais e comunitários”.
Neste contexto, o papel da família é considerado fundamental. Para o sociólogo, a família deve ser o primeiro espaço de acolhimento, protecção e orientação, funcionando como uma referência para o jovem.
“A família deve funcionar como a base firme de sustentação do indivíduo, onde se verifica a integração plena que começa com o acolhimento, protecção e estímulo”, sinaliza.
Mais do que garantir o sustento, Henrique Varela considera que a família deve proporcionar ao jovem um ambiente de educação e orientação, onde possa encontrar referências positivas mesmo quando estiver fora de casa.
Mas, para o sociólogo, a responsabilidade não recai apenas sobre a família. O jovem também precisa de tomar a iniciativa e procurar mudar a sua situação.
“O jovem tem de ser ousado e tomar a iniciativa. Assim como uma vírgula muda o sentido de uma frase, uma atitude positiva pode mudar a vida do indivíduo”.
Henrique Varela defende que, perante as dificuldades, o jovem deve procurar distinguir aquilo que pode mudar daquilo que não pode, mantendo uma postura activa perante as escolhas que precisa de fazer.
“Ele deve ter serenidade para aceitar as coisas que não pode mudar, coragem para ser firme naquilo que é necessário fazer e discernimento para fazer as opções certas nos momentos certos e agir sempre com espírito de positividade”, aconselha.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1290 de 19 de Agosto de 2026.
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