“Nesses 25 anos, ‘A Ponte’ pôde contribuir para uma maior sensibilização a nível do país em matéria de saúde mental, pôde apoiar milhares de pessoas através de consultas e outras formas de actuação, sobretudo através da promoção da saúde, com palestras, sessões de educação e outras formas de intervenção”, afirmou José António dos Reis, numa entrevista ao Expresso das Ilhas.
Em 2000, recordou, a resposta à saúde mental estava concentrada nos serviços hospitalares, em particular na Psiquiatria do Hospital da Praia, sem uma intervenção significativa das organizações da sociedade civil neste domínio.
“A Ponte” veio preencher um espaço que existia, complementando as acções do Serviço de Saúde e, sobretudo, estabelecendo uma parceria extremamente útil, uma vez que, a nível desse organismo da sociedade civil, o acesso é mais fácil e a associação não cobra pelos serviços que presta”, declarou.
A gratuitidade dos atendimentos e a proximidade com as pessoas constituem, na perspectiva do presidente, elementos importantes da intervenção da organização. Ao longo dos anos, a associação procurou alargar a sua acção para além do acompanhamento individual, com iniciativas de prevenção, informação e promoção do bem-estar psicológico em diferentes contextos sociais.
O responsável entende que uma das contribuições da ‘A Ponte’ consistiu em ajudar a mudar a percepção da população sobre a saúde mental.
Na sua leitura, persiste a tendência para associar este conceito exclusivamente à doença, quando abrange também a prevenção, o equilíbrio emocional e a capacidade de cada pessoa gerir as dificuldades do quotidiano.
“A doença mental é apenas uma parte da saúde mental. Enquanto a doença já é um estádio em que a pessoa é atingida e limitada na sua capacidade psicológica, a saúde mental é mais numa perspectiva de fazer com que as pessoas vivam naquele estado de bem-estar psicológico e emocional”, explicou.
O dirigente recorreu ao consumo de drogas para ilustrar a diferença entre prevenção e doença. Uma pessoa que evita o consumo de substâncias psicoactivas, observou, adopta um comportamento que contribui para proteger a sua saúde mental. Quando o consumo provoca uma perturbação e limita o funcionamento da pessoa, a situação passa a exigir uma resposta no domínio da doença.
“Daí ‘A Ponte’ também veio trazer essa questão. Por isso, é a Associação de Promoção de Saúde Mental e não propriamente uma associação de tratamento de doenças mentais”, esclareceu.
Milhares de pessoas abrangidas e intervenção em diferentes contextos
Ao longo dos 25 anos de actividade, a ‘A Ponte’ prestou apoio a pessoas de diferentes idades e condições sociais. José António dos Reis não avançou um número exacto de beneficiários, mas estima que a organização tenha atendido milhares de pessoas, entre crianças, adultos e idosos.
A intervenção não se limitou à cidade da Praia. A associação desenvolveu acções em São Vicente e promoveu iniciativas de sensibilização noutras ilhas, com intervenções específicas em escolas, estabelecimentos prisionais e empresas.
O presidente considera que o local de trabalho merece atenção particular, tendo em conta o tempo que as pessoas passam nesse ambiente e as consequências que as condições laborais podem ter para o seu equilíbrio psicológico.
Por esse motivo, a associação tem procurado manter as iniciativas de promoção do bem-estar nos contextos profissionais, embora reconheça que a falta de meios condiciona a dimensão das actividades.
Apesar das dificuldades, José António dos Reis considera que a continuidade da organização constitui uma conquista importante.
“A primeira meta é continuarmos a existir e a fazer o nosso trabalho. Durante esses 25 anos, se calhar muitas associações que nasceram morreram e não conseguiram subsistir. Portanto, esta é uma grande conquista”, afirmou.
O dirigente considera que a organização conseguiu alcançar resultados relevantes, apesar das limitações que afectaram a sua actividade em diferentes períodos. A falta de financiamento, porém, impediu a concretização de algumas iniciativas e reduziu o alcance de outras.
Segundo o presidente, houve períodos em que o apoio do sector público, de empresas e de alguns ministérios permitiu realizar eventos de maior dimensão e desenvolver diferentes intervenções.
Noutras fases, a redução dos recursos obrigou a organização a diminuir as actividades, situação que afectou a continuidade de algumas iniciativas.
A recuperação tem sido gradual, sobretudo depois da pandemia de Covid-19, período a partir do qual a associação procurou retomar acções que ficaram suspensas ou foram adiadas devido às restrições financeiras e operacionais.
“Houve um período de escassez de recursos que limitou muito a acção da ‘A Ponte’. Houve períodos em que as contribuições, sobretudo do sector público, das empresas e de alguns ministérios, foram relevantes, mas houve também um período de escassez, o que limitou ou fez com que ‘A Ponte’ reduzisse as suas actividades”, recordou.
A organização procura agora ampliar as fontes de financiamento e reforçar a presença no terreno. Para esse efeito, já elaborou projectos que pretende submeter a financiamento, com o objectivo de desenvolver iniciativas nas comunidades e nas empresas, além de alargar a intervenção a outras zonas do país.
O presidente considera que a criação de condições mais favoráveis para as organizações da sociedade civil depende também de um diálogo estruturado com o Governo. Nesse sentido, espera que o plano estratégico em preparação para o sector permita negociar melhores condições de funcionamento e maior disponibilização de meios para as associações.
“Poderíamos estar a funcionar com mais actividades e, sobretudo, ampliando essas actividades para outras áreas geográficas onde gostaríamos de ter maior presença. Essa é a grande limitação que temos”, reconheceu.
Integração nos cuidados primários continua aquém do necessário
Um dos principais desafios identificados por José António dos Reis diz respeito à integração efectiva da saúde mental nos cuidados de saúde primários.
Embora reconheça a existência de uma intenção política nesse sentido, considera que o processo avança lentamente e que persiste uma compreensão inadequada sobre o significado desta integração.
Na perspectiva do responsável, não basta deslocar especialistas de saúde mental aos centros de saúde para realizar consultas. A mudança exige a capacitação dos profissionais que já trabalham nos cuidados primários, para que possam identificar e responder às necessidades mais comuns nesta área.
“Não se trata de centralização dos cuidados, ou seja, de os técnicos de saúde mental se deslocarem aos centros de saúde para darem consulta. É de capacitar, empoderar os técnicos que prestam cuidados nos serviços básicos, para terem capacidade de atender à procura em matéria de saúde mental, tal como atendem em relação a todas as outras doenças”, defendeu.
O presidente considera que a intervenção especializada deve surgir depois de esgotadas as respostas possíveis ao nível dos cuidados primários, sem impedir que os casos mais complexos recebam acompanhamento adequado.
A integração permitiria melhorar a identificação precoce das dificuldades, facilitar o acesso aos serviços e reduzir a concentração da resposta nos hospitais centrais.
Outro motivo de preocupação prende-se com a execução da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. José António dos Reis considera que uma parte substancial das acções previstas não foi concretizada, embora ressalve que não dispõe de elementos suficientes para fazer uma avaliação definitiva das razões que explicam os atrasos.
O presidente recordou que estava prevista uma avaliação do plano, posteriormente adiada, que deverá permitir identificar as medidas executadas, as dificuldades encontradas e os factores que impediram o cumprimento das actividades programadas.
“Sem querer fazer uma avaliação taxativa, a sua execução ficou muito aquém do desejável, por razões que realmente desconheço. Mas o certo é que o grosso das acções previstas nessa Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio não foi executado”, afirmou.
Para a associação, a prevenção do suicídio exige uma resposta coordenada, que envolva os serviços de saúde, as organizações da sociedade civil, as famílias e outros sectores com capacidade de intervenção.
José António dos Reis considera o suicídio um problema que não pode ser explicado por um único factor. Na sua análise, as condições sociais, as dificuldades económicas, o desemprego, as expectativas de vida, a realização pessoal e o ambiente de trabalho podem contribuir para situações de sofrimento intenso.
O presidente considera ainda que a doença mental tem um peso significativo nos casos de suicídio. No entanto, os factores que podem estar na origem destes comportamentos são diversos e exigem uma abordagem que não se limite ao tratamento clínico.
“O suicídio é a primeira causa de morte por razões externas em Cabo Verde e creio que há uma tendência para a diminuição dos casos. Mas ainda não se fez uma avaliação para saber as razões eventuais que estarão na origem dessa tendência”, apontou.
O responsável entende que é necessário apurar se a eventual redução dos casos resulta das respostas do sector da saúde, de melhorias nas condições de vida ou de outros factores sociais. Sem uma avaliação, considera prematuro atribuir essa tendência a uma medida específica ou a uma única intervenção.
A prevenção deve, por isso, combinar o acesso aos serviços de saúde com a identificação dos factores de risco e o reforço das redes de apoio. A informação sobre saúde mental e a capacidade de reconhecer sinais de sofrimento podem ajudar as pessoas a procurar apoio antes de uma situação se agravar.
Linha de apoio psicológico e reforço das parcerias
Entre as iniciativas em preparação, a ‘A Ponte’ trabalha na consolidação de uma linha de apoio destinada a pessoas que necessitem de escuta, orientação e encaminhamento em situações de crise.
O projecto encontra-se numa fase de preparação e negociação, com vista à instalação efectiva do serviço e à divulgação do seu funcionamento junto da população.
A linha pretende oferecer um primeiro ponto de contacto a quem enfrenta uma situação de sofrimento psicológico e precisa de falar com alguém que possa escutar, orientar e indicar os serviços adequados.
O atendimento será gratuito, de acordo com o responsável, e deverá funcionar como uma resposta complementar aos serviços existentes.
“Vai ser uma voz amiga, que muitas vezes falta no nosso dia-a-dia, para escutar, para ajudar, para orientar, para reencaminhar, caso seja possível”, assegurou.
A iniciativa poderá também facilitar a articulação com serviços de emergência em situações de risco iminente. José António dos Reis referiu a possibilidade de estabelecer protocolos com entidades que possam intervir quando uma pessoa estiver prestes a tentar o suicídio ou enfrentar outra situação que exija uma resposta urgente.
A intenção é que a linha possa encaminhar os casos para os serviços competentes e activar os meios disponíveis quando a situação o exigir. Para o presidente, esta articulação é importante porque o apoio telefónico, por si só, pode não ser suficiente perante uma emergência.
A concretização do projecto depende da conclusão dos entendimentos necessários e da divulgação da linha através dos principais meios de comunicação social.
Por isso, a associação pretende que a população conheça não apenas a existência do serviço, mas também as situações em que pode recorrer a ele e a utilidade do apoio prestado.
Apesar das iniciativas em curso, a falta de instalações adequadas continua entre as dificuldades da associação.
José António dos Reis explicou que a organização procura há vários anos um espaço que responda melhor às necessidades de atendimento e permita reunir os membros para a realização das actividades.
A obtenção de uma sede com melhores condições poderá facilitar o acolhimento das pessoas que procuram apoio, melhorar o funcionamento dos serviços e incentivar a participação dos associados. A associação espera que esta necessidade possa ser resolvida nos próximos anos, a par do reforço dos meios financeiros e da expansão das actividades.
O responsável considera que o aumento da literacia em saúde mental pode ajudar as pessoas a compreender melhor as próprias emoções, gerir frustrações e lidar com expectativas, além de facilitar a identificação de situações que exigem acompanhamento profissional.
“A saúde mental é muito mais abrangente do que isso, e todos têm um papel importante a desempenhar: os órgãos de comunicação social, as pessoas individualmente, junto dos seus amigos, podem apoiar e ajudar as pessoas que estão em situação de dificuldade. As famílias têm também um papel muito importante”, concluiu.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1300 de 28 de Outubro de 2026.
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