Clemente Garcia: “2018 vai ser um ano fundamental para São Domingos”

PorAntónio Monteiro,18 mar 2018 8:18

​O município de São Domingos foi criado, no dia 13 de Março, há 24 anos, mas continua sendo ainda um dos mais pobres de Cabo Verde. Situação que o actual presidente da câmara local pretende reverter através de uma forte aposta no turismo, que considera ser o motor do desenvolvimento de São Domingos.

Nas suas palavras, não são investimentos que se fazem de um dia para outro, mas assegura que já há financiamentos para materializar alguns dos projectos estruturantes para o desenvolvimento deste sector em São Domingos, nomeadamente o da requalificação da orla marítima da zona balneária e do melhoramento da via de acesso que vai da Variante/Santa Cruz à Praia Baixo, projectos esses que deverão arrancar ainda este ano, assim como o projecto de requalificação da zona de Alcatrazes, na freguesia de Nossa Senhora da Luz, sede da segunda capitania edificada pelos portugueses na ilha, após a sua descoberta.

“Temos um projecto espectacular que contribuirá para melhorar aquela zona circundante e vamos edificar ali também um Centro Interpretativo como forma de preservar toda a sua memória histórica”, diz o edil. Clemente Garcia aborda ainda nesta entrevista o problema da falta de água agravado pela escassez de chuva o ano passado, a questão da habitação social e o estado da implementação do plano para mitigação do mau ano agrícola.

A CMSD foi criada há 24 anos. O que mudou nesse lapso de tempo?

Nestes 24 anos muita coisa foi feita e São Domingos avançou muito. Quando o município foi criado, não havia praticamente nada, sequer uma obra estruturante. Desde então, São Domingos deu passos muito importantes rumo ao desenvolvimento, embora tenhamos a clara noção de que falta ainda muito por fazer. Mas os munícipes são realistas e isso encoraja-nos a trabalhar ainda mais.

E qual é o balanço do seu ano e meio de mandato?

Durante este ano e meio de exercício de mandato já fizemos muita coisa. Não obstante algumas dificuldades, porque estamos perante um ano atípico, provocado pelo mau ano agrícola, o balanço que fazemos é bastante positivo e encorajador. Durante esta semana já inauguramos um conjunto de obras e serviços importantes. Gostaria de destacar aqui que acabamos de requalificar a nossa praça dos Paços do Concelho. Está muito agradável, com a cara completamente lavada. Devolvemos a câmara aos munícipes, pois quebramos o muro da parte de frente, introduzimos a questão da acessibilidade: as pessoas portadoras de deficiência podem ter agora acesso sozinhas através das novas rampas e criamos também um espaço infantil. No fundo, demos uma nova centralidade às instalações camarárias, porque não havia em São Domingos nenhum espaço condigno onde as pessoas pudessem encontrar-se. Além da praça dos Paços do Concelho, requalificamos também a Praça Central que estava em más condições e devolvemo-la à comunidade. De forma que neste 24º aniversário, que estamos a comemorar, termos motivos para estarmos satisfeitos, motivados e com a convicção de que iremos fazer um bom trabalho no decorrer do mandato.

Prometeu trabalhar de mãos dadas com o governo para resolver o problema “gritante” da habitação social no concelho de São Domingos. O que já cumpriu neste um ano e meio?

Neste momento já reabilitamos mais de três dezenas de casas. É muito para um município pobre como São Domingos que dispõe de parcos recursos. A habitação é um dos grandes problemas que temos no município. Estou consciente disso e sei que em todos os povoados há um número razoável de famílias à espera desta melhoria. Já fizemos muita coisa a este nível e proximamente iremos assinar contratos-programa com o governo para que possamos aumentar a taxa das reabilitações. Estou certo de que até final do meu mandato vamos fazer muito mais a este nível.

Qual a taxa que pretende alcançar até lá?

A continuar assim, e dependendo do tipo de contrato que a CMSD vai assinar com o governo, tencionamos ao longo do mandato quadruplicar esta taxa. Creio que é possível, pois neste momento há um bom diálogo institucional com o governo e isso favorece. O governo já deu sinais que vai ajudar os municípios a debelar este problema e, portanto, penso que é uma meta realista.

Tinha prometido quadruplicar a taxa de ligação domiciliária, mas facto é que São Domingos está neste momento a braços com o problema da falta de água, tanto para o consumo como para a agricultura. Para quando a solução deste problema?

A água tem sido um problema, em São Domingos. Na verdade, até parece um paradoxo, porque recentemente, no âmbito de um projecto financiado pelo MCA, inauguramos com pompa e circunstância o sistema de abastecimento de água, mas, entretanto, deparamo-nos com algumas dificuldades, sobretudo de ordem técnica. Como se sabe, hoje a água dessanalizada vai de Praia a São Domingos, mas uma avaria no sistema de produção, na Praia, acaba também por afectar também São Domingos. Eu creio que esse problema ficará dentro em breve resolvido. Mas, de facto, o nosso grande propósito no decorrer deste mandato é aumentar a taxa de ligação domiciliária que é muito baixa mesmo e estamos na cauda. Estamos à volta dos 13 por cento e a nossa meta é, no mínimo, quadruplicar a taxa de ligação domiciliária. Já estamos a elaborar o projecto para ver, mesmo âmbito do Fundo do Ambiente e com o governo, se levamos a água à maior parte das famílias possíveis, em São Domingos.

A oposição local critica o governo que o plano para mitigação do mau ano agrícola não está a ser bem implementado. No âmbito das suas atribuições o que tem feito a câmara para fazer face aos efeitos da seca?

Acho que é mais uma crítica desajustada da oposição: vale o que vale. Dentro das suas competências que tem a ver mais com o acesso ao rendimento, através da criação de emprego, a câmara tem feito a sua parte e tem funcionado normalmente. Há também a necessidade da melhoria do abastecimento da água que estamos também a tentar resolver. Uma outra componente que a oposição mais critica tem a ver com o pasto para o gado, mas quem gere isso é o ministério da Agricultura, mas também não temos recebido grandes queixas. Como já referi, no que diz respeito à câmara, que é o acesso ao rendimento, nós temos feito a nossa parte. A título de exemplo, neste momento, para ajudar as famílias a debelar os efeitos do mau ano agrícola, já criamos mais de quatrocentos postos de trabalho em todo o município. É muita coisa, mas com isso não vamos resolver todos os problemas do emprego, porque não é possível pôr tudo o mundo a trabalhar. O importante é que estamos a dar resposta à situação e em quase todos os povoados temos postos de trabalho criados.

O acesso à energia eléctrica é outro dos problemas de São Domingos. No âmbito das festividades foi inaugurada em três localidades, mas falta ainda Mato Afonso.

Sim, a energia eléctrica foi inaugurada, na passada sexta-feira, nas localidades de Banana, Ribeirão de Cal e Pau de Saco e contamos levar a energia eléctrica para parte de Mato Afonso ainda este mês. Para além da electrificação, podemos acelerar o acesso à rede móvel, em parceria com a CVTelecom, nas localidades de Godim, Banana, Mato Afonso e Ribeirão de Cal, onde era uma grande ginástica fazer uma chamada. Hoje já está assegurada, graças à parceria também com a CVTelecom.

Tem afirmado que pretende alavancar o desenvolvimento de São Domingos através de uma forte aposta no turismo. Que investimentos já foram feitos neste sentido?

Estamos a trabalhar, porque não são investimentos que se fazem de um dia para outro. Temos bons projectos neste momento, uns com financiamento já garantido e estamos à procura de outros financiamentos. Estou a falar da requalificação da nossa orla marítima; temos o projecto já elaborado e que consta do orçamento do estado. Há também a questão do acesso, para o segmento sol e praia. Estou a fazer referência claramente à Praia Baixo, cujas obras deverão arrancar ainda este ano. Em relação ao turismo de montanha já começamos a dar resposta. Estamos, neste momento, a criar alternativa a Rui Vaz. Inauguramos há dias a primeira fase da estrada que vai de Pedra Galinha a Achada Mitra. Já estamos na segunda fase, o que significa que ainda este ano já teremos uma boa alternativa a Rui Vaz. Temos igualmente o projecto de edificação de miradouros que contamos materializar ainda este ano. Para além do turismo que é o motor do nosso desenvolvimento, contamos dar início ainda este ano à requalificação de uma zona muito importante que outrora tinha sido completamente esquecida. Estou a falar de Nossa Senhora da Luz que tem a ver com a nossa história. A história de Cabo Verde também passou por São Domingos, nomeadamente na zona de Alcatrazes que foi a sede Norte da Capitania. Temos um projecto espectacular que contribuirá para melhorar aquela zona circundante que tem um peso histórico-cultural enorme e edificar ali também um Centro Interpretativo como forma de preservar toda a sua memória histórica. Portanto, já temos projectos. 2018 é, de facto, um ano fundamental em que vamos materializar projectos estruturantes para o desenvolvimento de São Domingos.

Havia um turismo interno sobretudo de Praia para São Domingos que parece, perdeu alguma força.

Melhorou. Faço referência a Ribeirão Chiqueiro que é uma zona de expansão de São Domingos e também da Cidade da Praia; há muitas pessoas da cidade da Praia a construírem e a mudarem mesmo para Ribeirão Chiqueiro; em Rui Vaz há também casas que são quase que uma segunda residência. E temos Praia Baixo: aqui as pessoas dizem-me ‘Sr. Presidente quero construir e investir em Praia Baixo, mas tem que melhorar as vias de acesso’. Acredito que este ano vou começar a dar resposta a essas exigências.

O que tem feito a CMSD de concreto para atracção de investimentos?

Tenho estado a receber muitos empresários. Aliás, amanhã é Dia do Município [13 de Março] e estão cá alguns autarcas e empresários portugueses a visitar o município para auscultarem as oportunidades de investimento. Estamos a convidar, agora falta acção. Sempre que viajo em serviço, contacto empresários e convido-os para visitarem São Domingos. Muitos já visitaram, mas agora falta passar à acção. Temos feito o nosso trabalho e contamos que este ano algumas empresas vão-se instalar.

O músico e vereador para a Cultura Manel di Candinho teve divergências consigo e pediu para ser desprofissionalizado. O problema já foi sanado?

Não tenho nenhum problema com o Manel di Candinho. Damo-nos bem e o que houve foi um empolamento da parte da imprensa. Ele pediu para ser desprofissionalizado, porque se calhar tem outros compromissos, o que aceitei de bom grado. Mas não há nenhum problema. Eu vi pela comunicação social e muitas vezes nem sequer respondi. Continua como vereador, vai à câmara, participa nas reuniões e, portanto, não há nenhum problema.

É também presidente da Associação dos Municípios de Santiago. Qual a sua visão para a ilha no seu todo?

Santiago é uma ilha que carece de muitos investimentos. Ouve-se na comunicação social que há ilhas que estão a ser prejudicadas, mas quem visitar o interior de Santiago pode constatar que os seus municípios têm muitas dificuldades. Estamos a trabalhar nisso. Temos tido encontros com o governo a ver se resolvemos um conjunto de questões que são comuns a toda a ilha. Desde logo, a questão da falta de água. Como sabe, há a empresa AdS (Águas de Santiago) da qual os nossos municípios são accionistas e estamos a trabalhar para ver se melhoramos a gestão da empresa e encontremos uma solução que satisfaça a ilha no seu todo. Um outro assunto muito importante para Santiago é a questão do saneamento que tem a ver com o aterro sanitário que fica em São Domingos. Brevemente vamos marcar uma reunião para vermos quando é que iremos dar início ao funcionamento do aterro. É uma grande infraestrutura que pertence a toda a ilha de Santiago e que temos todo o interesse para que funcione o mais rapidamente possível. Tencionamos realizar proximamente um fórum sobre a intermunicipalidade. É um conceito quase novo aqui em Cabo Verde, por isso pretendemos trazer algumas empresas com experiência na matéria, para podermos dar resposta à questão do saneamento, sobretudo, o que tem a ver com o funcionamento do aterro sanitário que ainda não temos no país grande experiência nesta matéria. Pensamos organizar justamente este fórum para dar uma resposta global aos grandes problemas que afligem a todos os municípios. De facto, temos questões comuns como a água, o saneamento, etc. que são fundamentais para a vida dos nossos municípios. Há outras áreas que estamos a dialogar com o governo como é a questão do cadastro predial. O governo tem dado resposta a esta questão nas ilhas do Maio, Boa Vista e São Vicente, mas aqui precisamos disso também, porque há muitos conflitos à volta dos terrenos. Tendo um cadastro isso já se resolve e neste sentido estamos a trabalhar juntamente com o governo para este fim.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 850 de 14 de Março de 2018.

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Autoria:António Monteiro,18 mar 2018 8:18

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  19 mar 2018 9:09

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