Gilson Alves: “Se a Constituição não representa a vontade do povo deixa de servir o seu objectivo”

PorSara Almeida,25 set 2021 8:05

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Gilson Alves defende um regime Presidencialista e, caso seja eleito, avançará com uma revisão constitucional. A Nação sob o regime de um “homem-forte”, autoritário, ganhará auto-confiança e irá crescer para além das suas limitações arquipelágicas, promete.

O que motiva a sua candidatura?

Eu tenho estado sempre muito atento à situação do meu país e penso que Cabo Verde está a passar por um momento de inflexão. Acho que há três áreas extremamente importantes, sobre as quais nos temos de debruçar, especialmente numa candidatura presidencial: uma revisão constitucional, que é uma coisa extremamente urgente, nós deviamos entrar num regime presidencialista, com um presidente autoritário; devemos ver também o nosso sistema judicial, e encontrar uma melhor maneira de integrar a comunidade emigrante. Isto está também ligado a uma visão constitucional. O artigo 110 é um artigo profundamente discriminatório para os cabo-verdianos que vivem fora. O emigrante, que é uma peça tão essencial para a nossa vida, para a nossa economia, é tratado como um investidor externo. Portanto, são as três áreas que eu acho que são importantes para a nossa identidade, e sobre as quais não se tem feito uma reflexão profunda.

Quer um regime presidencialista. Então, votar em Gilson Alves, mais do que votar num presidente, é votar numa mudança de regime?

Exactamente, mudança de regime. Tudo começa pela forma como nós nos vemos, e a forma como vemos aqueles que nos representam.

Mas que vantagem traria o regime presidencialista que defende?

Muito mais ágil, muito mais auto-confiante, muito mais merecedor de respeito lá fora, porque não se trata só da quantidade do dinheiro que Cabo Verde guarda no bolso. Trata-se também da forma como somos representados. Napoleão costumava dizer que 50 mil soldados e ele eram 150 mil. É a diferença que [faz] um homem-forte, um homem especial - e eu não digo que eu sou essa pessoa, mas eu acho que há muitos homens e mulheres especiais em Cabo Verde e eles devem liderar, devem ser fortes, devem ser autoritários. E as nossas franjas populacionais que, por circunstâncias da vida, são mal representadas, são frágeis em termos financeiros, económicos, em termos de esperança, essas pessoas serão muito bem servidas se depositarem uma confiança total e absoluta em alguém, mas alguém que é cabo-verdiano, que tem esse amor e essa conexão especial que temos com o nosso povo.

Então seria um regime de homem-forte. Para nos situarmos melhor, quais são as suas referências? Algum estadista que admire em particular?

Há democracias presidencialistas como a francesa, que tem um presidente chefe do executivo, mas que, na minha opinião, não é um presidente ideal. Mas depende das circunstâncias. A República Francesa tem mais de 200 anos, a nossa República tem 46. Eu acho que um exemplo de um regime forte presidencialista é a Federação Russa, o Presidente russo. Mas, tudo depende da forma como a República é organizada e uma república deve ter o presidente que lhe convém. Cabo Verde com o tamanho que tem, com a necessidade que tem de andar depressa, não pode ter um sistema constitucional organizado pesado, já agrilhoado antes de caminhar. Não nos serve bem.

Gilson Alves está a candidatar-se dentro desta Constituição. Ou seja, vai candidatar-se ao cargo de “guardião da Constituição” para poder acabar com ela?

Com um programa que é claro e sem ambiguidades. Eu digo o que pretendo desde a primeira hora, e o povo, se votar em Gilson Alves, sabe exactamente o que vou fazer. A primeira coisa que vou fazer para executar a minha ideia, de um melhor futuro para Cabo Verde, é propor uma revisão constitucional ao Parlamento. Se o Parlamento recusar, vou cumprir a vontade soberana do povo, e encontrar uma forma constitucional de forçar o Parlamento a executar esta vontade. Essa forma é uma dissolução do Parlamento e a demissão do governo.

É preciso que esteja reunido um conjunto de requisitos para que um PR possa dissolver o Parlamento.

Sejam quais forem os requisitos, eu vou passar por cima de tudo. Há sempre uma maneira. Onde há vontade, há poder. Não me interessa saber se há mil impedimentos, mil opiniões, mil assinaturas. A vontade do Presidente, se ele quiser, vai prevalecer. Se é isso que o povo quer, o povo vai ter isso. O Presidente tem o poder sobre as Forças Armadas...

Ponderaria o recurso à força, à violência?

Não. Nunca o recurso à violência.

Falou das Forças Armadas...

O Presidente tem a força, tem os músculos da Nação nas suas mãos. Não estou a dizer que ele deve usar isso. Mas é o jogo político. Há certas formas de coesão, de discussão, de convencer de uma forma mais assertiva. E quando há uma vontade democrática por detrás de uma transformação política, as regras e o que está escrito numa Constituição, ou num papel, acabam por não ser muito importantes, porque se a Constituição não representa a vontade do povo, deixa de servir o seu objectivo.

Acha que as suas ideias têm acolhimento no seio da sociedade?

Acho que sim. Até fico surpreendido quando me dou conta que nunca ninguém ocupou esse espaço político. É um canto em que ninguém quer tocar, nem com uma vara. Um espaço que não é natural para a política tradicional, e não me admira nada que haja uma parte da população, sobretudo jovens, que estão alienados do país, que não têm nenhuma esperança no futuro e que já perderam toda a confiança no seu sistema político. Esses são os jovens que mais compreendem essa linguagem. E esse apoio, nunca ninguém conseguiu decantar. Basta que alguém cante no mesmo diapasão, que comecem a ouvir, e que comecem a marchar a mesma música.

Ninguém estava preparado para a vitória de Trump e Bolsonaro, mas foram eleitos. Teme ser comparado com eles, ou, pelo contrário, gostaria dessa comparação?

Eu estou preparado para ser chamado de tudo e obviamente, eu sei, em termos de opinião e formação de opinião, o que me espera. Mas é pouco importante. O que é importante é que haja ouvidos. Depois a História tem de explicar por que esses jovens cabo-verdinaos acabaram por acreditar no sistema que eu defendo e marchar com ideias que eu defendo e não com as ideias tradicionais. O que nós chamamos de democracia tradicional e convenções democráticas, não é algo divino e sacro-santo. O povo é que conta.

Em termos práticos, o que a sua proposta traz para a melhoria de vida dos cabo-verdianos, em particular dos jovens?

Auto-confiança. O jovem cabo-verdiano, é uma espécie de soldado sem general. Mesmo sem escola, mesmo sem dinheiro, o jovem tem de ser um soldado e estamos muito atrasados. O povo vai ganhar auto-confiança, tudo depende de quem o representa. Se esse Presidente é o actual Presidente, ele não vai transmitir confiança a ninguém, e o jovem não vai sentir-se forte e representado. Mas quando o jovem tem - vou fazer outra analogia de Napoleão e Júlio César - [um homem-forte] à frente do seu exército, ele sente-se confiante e vai entregar-se de corpo e alma a alguma coisa. E o que eu quero, se conseguir liderar um povo destes, é chegar a lugares nunca antes imaginados.

Tais como?

Demografia é o destino de uma nação. Cabo Verde não pode ter um milhão de cabo-verdianos neste mundo. Temos de converter pessoas à nossa democracia. Inventar uma República moderna, uma república digital, por exemplo. Não temos território, mas temos mar. E por incrível que pareça, quase miraculosamente, conseguimos formar pessoas excepcionais. Se Cabo Verde é capaz disso, pode e deve procurar um futuro excepcional, como Nação. A força de um país está ligada à demografia, à quantidade de cidadãos. Nós devemos abrir as portas da cidadania a muito mais pessoas. Eu antevejo que Cabo Verde, se tiver alguma visão, se tiver uma política atraente, pode convencer cerca de 10 milhões de pessoas, daqui a 10 ou 20 anos, a converterem-se à nacionalidade cabo-verdiana. Hoje, no mundo em que vivemos, é uma questão de criatividade política.

E não se perderia Identidade?

Não. O império romano era um império de estrangeiros. Quando Roma era ainda uma vila, viram que o caminho para o futuro era chamarem e converterem pessoas de fora. Geralmente são pessoas que querem mudar de vida, ou querem absorvidas ou convertidas a uma outra realidade. Cabo Verde tem essa capacidade, tem essa coisa especial. Cabo Verde é este núcleo à volta do qual alguma coisa grande pode crescer.

Mas vê isso a ser implementado no presente?

Eu falei de uma República digital. Cabo Verde não pode meter 10 milhões de pessoas nas ilhas com 4 mil km2. Mas, a ideia, a start-up política que é atrair, [é] uma coisa moderna que vai sintetizar todas as novas ideias que hoje vivem, se calhar, num espaço muito anárquico de jovens que não querem saber de política. Estou apenas a dar um exemplo de como vamos crescer. Grandes homens, grandes nações precisam crescer, mas como crescer se nós temos 4 mil km2? Um homem normal, como nós temos agora os dois (ex)-primeiros ministros, pára lá. “Nós somos pequenos, nunca vamos ser grandes”. Mas uma pessoa como o Gilson Alves começa a criar, a imaginar, a solucionar um problema. Eu acho, que há muitos cabo-verdianos, que têm essa grande ambição. Há sempre um caminho se decidirmos tratar a evolução política, como um problema científico a resolver. Não podemos estar limitados a essa pequenez só porque temos 4 mil km2, só porque somos uma ex-colónia, etc, etc. As pernas da nacionalidade têm de ser abertas em Cabo Verde, porque a história nos mostra que países que se diversificaram, e que abriram as portas da diversidade, crescem explosivamente.

Outra grande questão da sua candidatura é Justiça. Qual a sua visão para a Justiça?

Há dois casos que são sintoma de que alguma coisa de muito grave se passa na nossa Justiça. Um problema interno de um advogado e deputado que praticamente se auto-imolou a gritar que há coisas erradas, a Justiça está podre, há corrupção, e ninguém lhe dá ouvidos. E o caso de um ‘diplomata’ que foi preso, o que revela que a nossa justiça está ao serviço de outras nações. A nossa Justiça na prática não é independente. Está condicionada porque há uma dependência económica em relação aos países (que todos sabemos quais são). E um povo que se diz independente, que lutou pela Independência, não pode aceitar isso como uma fatalidade. Se um Estado é forte, se há um líder que projecta força, que é autoritário e que diz não, a Justiça vai agir em conformidade.

Com que apoios conta a sua candidatura?

É uma candidatura independente, sem apoio político de qualquer partido, nem apoio financeiro. Aliás, tenho de colocar o meu dinheiro lá, onde a minha boca está. Se a eleição presidencial é uma coisa superpartidária, ela tem de o ser na prática. E mesmo se fosse eleito PR, eu não iria aceitar o salário de PR.

Acredita que a sua candidatura pode vencer ou serve mais para pôr Cabo Verde a pensar?

Obviamente, eu quero vencer. Não há outra resposta. O mais importante é dizer o que quero dizer, é falar a voz que não fala, é o representar muita gente que não é representada. O meu país precisa de uma voz como a minha, penso eu, e vai ficar muito enriquecido com uma campanha destas, com um candidato destes, e com uma nova voz política que não tem existido até agora. Mas daqui a 5 anos voltamo-nos a ver, se eu não ganhar.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1034 de 22 de Setembro de 2021. 

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Autoria:Sara Almeida,25 set 2021 8:05

Editado pormaria Fortes  em  25 set 2021 19:03

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