Nenhum problema social se resolve sem passar pela família

PorSara Almeida,24 dez 2017 6:31

Natal é festa da família. Em época de celebração desta quadra tão especial para os cristãos (e não só), o cardeal D. Arlindo relembra a importância deste elemento basilar de qualquer ser humano e da sociedade. Questões intemporais como o amor e a necessidade da espiritualidade são igualmente salientadas nesta entrevista que é também uma análise às propostas e visão da Igreja para a família, as relações e problemas da sociedade cabo-verdiana.

O que define, hoje, uma família cristã?

Os cristãos têm como modelo de família aquilo que diz a sagrada escritura, desde o primeiro livro da Bíblia, o Génesis: Deus criou o Homem e a Mulher, uniu-os e deu-lhes a missão de se amarem, procriarem e governarem o mundo. Portanto, a família é o núcleo central, fundamentalmente composta por homem-mulher e os filhos, que depois vão continuando as gerações ao longo do tempo. Temos o modelo da família de Nazaré que celebramos de uma forma especial, nesta altura do Natal, porque é este contexto que o nosso Deus, segundo a nossa fé, escolheu para a encarnação do seu Verbo – o Verbo encarnado, Jesus Cristo, seu Filho. E para nós, a família é essa realidade humana fundamental onde o amor do homem e da mulher acontece, se torna uma realidade, e onde aparecem as consequências desse amor fecundo, generoso, que são os filhos. E é onde os filhos aprendem a crescer no amor, aprendem a relacionar-se com os pais, com os irmãos e com outras pessoas e aprendem a inserir-se na sociedade, a serem cidadãos construtores de um mundo sempre mais perfeito, mais humano e mais humanizante.

O amor é fundamental.

Amor é fundamental, porque o casamento entre o homem e a mulher deriva do amor dos dois entre si, e nunca de imposição externa, nem dos pais nem de outras entidades e personalidades. O amor deve ser a força que move homem e mulher a assumirem-se como parceiro e parceira da vida, a assumirem as responsabilidades consequentes, enquanto pai e mãe, enquanto educadores dos descendentes. Amor, generosidade, fidelidade, dedicação um ao outro… Dedicação não apenas no sentido de prestar serviço, mas de manifestarem esse amor. Isso é importante, sobretudo nos dias de hoje. É importante que o marido aprenda a manifestar, ao longo do tempo, o seu amor para com a esposa, o seu carinho, a sua ternura, a sua amabilidade, amizade, entrega, e vice-versa. E além da qualidade desse relacionamento entre os esposos, também a dedicação, atenção e acompanhamento aos filhos, uma relação de amizade, porque é com os pais que os filhos aprendem a relacionar-se. O modelo que aprendem no lar, muitas vezes, vai servir de referência para os seus comportamentos e atitudes quando forem grandes e senhores da responsabilidade familiar e não só.

O cenário não é tão idílico… em 2015 apenas cerca de 40% dos menores vivia com ambos os pais; temos quase 56% que vive sem a presença do pai; temos 5000 processos de averiguação de paternidade. Como vê esta ausência do pai?

Os factores são múltiplos. Esse descompromisso dos pais, sobretudo do pai, em relação à paternidade acontece em Cabo Verde, de um modo muito particular, mas igualmente em qualquer parte do mundo. O problema está no homem, sim, mas também na sociedade. A partir dos anos 60 cultivou-se o espírito do sexo livre, a liberdade das pessoas, de fazer o que lhes apetece, e naturalmente mudou muito o estilo de relacionamento homem-mulher, jovens e adultos. Isto naturalmente não foi benéfico para uma assunção tranquila da paternidade.

Mas a história mostra que em Cabo Verde essa questão da paternidade sempre esteve presente e a maior parte das famílias não se enquadrava na família “tradicional”, de Nazaré.

É uma questão social. Cabo Verde teve um povoamento sui generis, como praticamente todas as colónias, onde não havia uma sociedade estruturada. Os marinheiros iam e vinham, as escravas e escravos permaneciam no território. Isto complicou muito, desde o início, a vida da família, criou um hábito, uma cultura. A Igreja sempre deu grande apoio à Família, mesmo às “não estruturadas”, digamos assim. Mas nós tínhamos uma certa estabilidade. Pelo menos a paternidade era mais assumida, e era-o com orgulho. Os homens em Cabo Verde tinham orgulho de dizer: ‘eu é que sustento, é que me responsabilizo pelo meu filho. Não admito que seja outro homem a ocupar-se do meu filho’. Podia haver casos pontuais, mas normalmente era esta a atitude do homem cabo-verdiano: orgulho em ocupar-se dos filhos. Com a emigração massiva de homens, intensificada pelas crises sucessivas, sobretudo as secas, com a ideologia laica, a revolução de Abril, a independência de Cabo Verde, a vulgarização da sexualidade, a situação veio a piorar. Complicou-se enormemente e chegamos a este ponto extremo em que quase metade dos filhos não vive sob a responsabilidade directa do pai. Há até uma certa fuga porque o sexo tornou-se uma questão apenas a dois, momentânea e sem compromisso estável. Isso tudo acontece num contexto que precisa submeter-se a uma reflexão conjunta de cada um e do conjunto da sociedade, para que cada um saiba assumir a sua responsabilidade enquanto cidadão, enquanto pessoa humana que ama, enquanto pessoa que se relaciona com a pessoa amada, enquanto alguém que num relacionamento amoroso pode vir a ser pai ou a ser mãe e a partir daí assumir as consequências advenientes.

Face a essa vulgarização do sexo a postura da Igreja sobre os contraceptivos mantêm-se? Não haveria necessidade de uma adaptação ao contexto em que a sexualidade é hoje vivida?

A Igreja tem os seus princípios e orientações. Começou por ser minoria, e passou a ser maioria em muitos lugares. Pode passar de novo a ser minoria, não interessa: tem as suas orientações e o tempo vai dizendo que tem razão em relação a muitas coisas. Há temas em que a Igreja pode mudar de orientação, mas há muitas coisas que a sociedade [tem de repensar]. Veja-se o uso de químicos. A terra, que a gente pensava que tinha capacidade ilimitada de absorver e transformar os químicos que recebia na actividade humana de produção: às tantas a própria terra, e a água e o mar estão a ficar saturados de produtos químicos. Se isto acontece com a terra, o solo, o organismo humano deve ter igualmente os seus limites. As coisas devem ser pensadas não em termos de facciosismos, mas em termos daquilo que de facto fica bem ou não à pessoa humana enquanto tal. Porque tem os seus limites e isto tem repercussões morais. A Igreja versa mais no aspecto moral para insistir sobre a natureza do compromisso que deve haver, da cumplicidade que deve haver entre o marido e a mulher que se amam. Até porque a mulher é que fica a carregar com ónus, os contraceptivos… não é uma relação justa, contrabalançada. A Igreja defende que o relacionamento ideal entre homem e mulher é um relacionamento sem interferências de meios externos. A natureza é conhecida. A Igreja defende o método natural que não exige o uso de produtos químicos, nem externos na relação da intimidade entre homem e mulher, e a Igreja recomenda esse método natural, método [de ovulação] billings, que permite que o casal durante o mês inteiro apenas absterem-se de intimidade conjugal num período de 6, 7 dias máximos.

Sobre o casamento: 77,7% dos cabo-verdianos diz ser católico. Mas os casamentos são uma ínfima parte das relações. E casamentos por Igreja ainda mais raros. Há aqui uma discrepância.

Mais uma vez, a cultura, o ambiente tem muito peso nas pessoas. Houve uma altura em que tínhamos um número bastante grande de casamentos, e a partir dos anos 70 com a revolução de Abril e a Independência houve uma queda muito grande de matrimónios na Igreja. Depois desde 2003, 2004 esse número está aumentando progressivamente em todas as ilhas. Felizmente, mas os católicos são livres de tomar a decisão que entenderem mesmo contrariando a proposta da Igreja. A Igreja tem essa característica de não impor à força estilos de vida, dogmas. As pessoas acolhem livremente aquilo que a consciência lhes ditar. A Igreja tem sempre o trabalho de pastoreio, isto é, de acompanhar as pessoas na sua progressão a nível de assunção da fé, e respeita absolutamente as opções de cada um. Mas, a Igreja continua a incentivar que para um cristão o ideal é o matrimónio, um compromisso firme, seguro, definitivo, de amor, em relação à pessoa amada e assumido também de uma forma estável. Para aqueles que ainda não chegaram lá, a Igreja continua a fazer essa proposta, cabendo a cada um a decisão pessoal. Porque, com dizia, a Igreja não pode impor nada. Cristo não o fez. Propõe um caminho e cada um faz livremente a sua opção assumindo a responsabilidade, mesmo diante de Deus.

Ainda sobre casamentos. Em relação aos homoafectivos, a Igreja não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas como é que esta vê essas relações?

O papa Francisco falou claro, e a doutrina da Igreja católica fala claro também. As pessoas podem não ter culpa de terem essa tendência homossexual. Essas pessoas devem ser compreendidas, devem ser apoiadas, ajudadas, mas uma coisa é certa, a Igreja continua a interditar, a relação sexual entre as pessoas do mesmo sexo, é pecado, porque é contra a natureza…

Mas não foi Deus quem criou? Os afectos não vêm da mesma fonte?

Deus fez o homem e a mulher. Atribuímos a Deus muita coisa… hoje, com o estudo da psicologia, sobretudo com a ADI – Abordagem Directa ao Inconsciente – e o TIP – Terapia do Inconsciente Profundo, é possível as pessoas conhecerem-se melhor. Há todo um conjunto de mecanismo de conhecimento hoje que permite ver que muitas coisas que dizemos que Deus que criou, não são uma fatalidade, mas consequência de determinados factores sociais e relacionais, que também a ciência em parte ajuda a ultrapassar. Não nos devemos precipitar com certas afirmações e conclusões, quando há ainda muita coisa a aprender acerca do ser humano e por isso também muita coisa a fazer para melhorar as condições de vida e modo de ser de cada ser humano.

Como vê o recurso à Bíblia, como recentemente usado aqui em Cabo Verde, para se opor ao casamento (civil) entre homoafectivos. Recordo que uma das passagens, do violentíssimo Antigo Testamento, fala em ser ‘digno de morte’?

Temos que ter em conta duas coisas. Um, a bíblia foi uma revelação progressiva. A sociedade antiga era muito violenta. Na sagrada escritura, no Antigo Testamento, quando se fala em olho por olho, dente por dente - o que hoje nos choca e de que maneira - , já estamos perante um grande progresso. Isto porque na altura a prática era vingar sete vezes mais o mal que alguém fizesse ao outro. Assim, chegar ao nível de “paridade”, digamos, de olho por olho, dente por dente e não mais do que isso, já foi um grande passo. Foi uma melhoria progressiva que Cristo veio completar. E Cristo disse que a única norma que deve orientar a vida de um verdadeiro crente em Deus é amar a Deus acima de todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo.

Textos violentos já não devem ter lugar na argumentação?

Naturalmente. Mas temos ainda hoje, em pleno século XXI, países com a pena de morte. E pessoas que com muita facilidade tiram a vida a outra, mesmo na nossas sociedades, no quotidiano. Temos de ver o que ensina a Bíblia e a progressão do ensinamento da Bíblia. Para um crente a Bíblia também deve ter uma resposta prática no nosso dia-a-dia, isso é verdade. Mas Jesus Cristo é que tem a última palavra na Escritura. Veio para completar, para melhorar, para esclarecer em definitivo toda a mensagem anterior. Devemos ter sempre isto no horizonte. A política tem os seus mecanismos próprios, deve sempre pautar-se pela inteligência, pelo bom senso, mas uma coisa é a religião, outra coisa é a política. Para um crente, a bíblia tem sempre a última palavra.

Ainda falando no recurso à Bíblia para explicar posições. Recentemente, em Portugal, num acórdão sobre um caso de violência doméstica o juiz cita que a “mulher adúltera deve ser punida com a morte»…

Completamente descabido. No evangelho de João, Cristo diz claramente: ‘quem não tem pecados, que atire a primeira pedra’. Cristo descartou completamente isto. Não faz sentido. Não faz sentido ser mais papista do que o papa, já é outro nível do fanatismo, porque não justifica. A vida humana está acima de todas as infracções. Isto quer dizer que um individuo pode infringir determinados preceitos, regras, determinados costumes, ou determinado valor moral, mas a vida está acima de todas as coisas. Todo o individuo é inequiparável, por isso é que Jesus Cristo falava a Nicodemos na possibilidade de nascermos de novo. O indivíduo, por mais criminoso, tem sempre a possibilidade de se regenerar, de nascer de novo, de ser um cidadão de corpo inteiro. Portanto, não é por uma infracção, ou por um crime, que o individuo pode ser eliminado da sociedade, porque a vida está acima das infracções.

Mas nos casos VBG, que em Cabo Verde é crime público: entre homem e mulher, mete-se a colher?

Na relação entre homem e mulher é preciso ter muita reserva porque eles devem ser adultos, devem ter a capacidade de dialogar, e qualquer interferência que venha prejudicar deve ser evitada. Mas quando está em risco o direito humano fundamental, sobretudo o direito à vida, à integridade e à honra, as autoridades, tanto religiosas como civis – cada uma a seu nível – devem intervir para proteger a vida das pessoas. É absolutamente claro. Há uma hierarquia de valores em relação às pessoas e as relações sociais, e quando a integridade e a honra estão em causa, naturalmente que as autoridades competentes devem intervir para defender a parte fragilizada e prevenir situações mais complicadas, porque, como dizia, a vida está acima de tudo.

Nas relações do casal, tem havido um empoderamento da mulher, que saiu para o mercado de trabalho… Como vê este novo equilíbrio (ou falta dele) entre homem e mulher em casa, agora que ambos trabalham?

O empoderamento das mulheres é uma situação nova, o que em si é um valor, não está em causa. O problema que se deve pôr em causa é outro valor: o do equilíbrio do lar. Antigamente as mulheres asseguravam esse equilíbrio na presença no lar, acompanhamento e educação dos filhos. Mesmo que o marido estivesse ausente, a mãe, em contacto com o marido, representava a família nuclear no seu todo. Hoje não. Hoje os homens podem ficar em casa, a cuidar dos filhos e a mulher e trabalhar. Ou então os dois trabalham, ao mesmo tempo. Assim, há que pensar no equilíbrio entre o trabalho, fora de casa, e o trabalho em casa. Porque para os pais, o trabalho está ao serviço da família, do lar, sobretudo da educação dos filhos, da qualidade da relação entre os dois. Portanto, entre o trabalho no exterior e a presença em casa e o acompanhamento dos filhos e o cuidado que o marido e a mulher devem ter um do outro para se ajudarem a ser feliz mutuamente, em tudo isso deve ser procurado um equilíbrio. Há um standard ainda a ser construído…

Então o homem deve participar mais nesse “trabalho” em casa.

Naturalmente. Antigamente o homem trabalhava e a mulher é que ficava com todo o trabalho de casa, hoje é preciso partilhar o trabalho exterior, o trabalho em casa, não só doméstico, no sentido de serviço, mas a presença em casa. É preciso que os dois procurem o equilíbrio para que o essencial não fique prejudicado. O essencial é a família, o trabalho está ao serviço da família. Mas, como dizia, é um modelo que está ainda em processo de se encontrar.

Da família para a sociedade em geral. Enquanto pastor da sociedade cabo-verdiana, quais são para si os principais problemas?

Os problemas são muitos, mas… o problema da estabilidade da família, que garanta aos filhos o cuidado do pai e da mãe é, de facto, para mim, o problema número um, nuclear. Outros problemas são – e não estou a elencar aqui uma hierarquia- : o alcoolismo e consumo excessivo de álcool e drogas, que leva as pessoas a perder o tino, o controle de si e a cometer vários crimes, violência, crimes sexuais, roubo e outros. A questão do desemprego também é grave e há ainda o espírito consumista que, apesar de toda a pobreza, está a expandir-se cada vez mais. As pessoas consomem mais do que podem, e pensam que nesse consumo é que está a felicidade. É falso, é uma ilusão. Um outro problema é que falta boa educação a muita gente. As pessoas falam de uma forma grosseira, fruto dessa ideia de liberdade mal compreendida, de achar ‘eu sou livre de dizer o que quero, como quero’. O respeito pelo outro não é incompatível com a consciência da minha liberdade. Faltou isto, a nível de educação, na finura das pessoas, nas maneiras e elegância no trato, enquanto pessoas sociáveis. Depois, quando há conflitos, a justiça não age de forma tempestiva para resolver logo o conflito. Faltam aqui, desde há muito tempo, estruturas intermédias e próximas das comunidades para dirimir logo os conflitos. É preciso andar muito para poder chegar a instâncias onde os conflitos possam ser resolvidos, quando podiam ser resolvidos imediatamente com uma instância local, para prevenir muita coisa. E falta também fé, fé em Deus. Termos a consciência de que há um Deus, que é pai de todos e nós somos irmãos uns dos outros. Isso devia levar a uma experiencia positiva, mas também é importante que se diga, que é preciso uma experiência positiva no ambiente familiar. Quando essa experiencia basilar não existe, é complicado. Se nos habituarmos à violência desde a infância, dificilmente saberemos lidar com os outros sem ser exercendo a violência. Mais uma vez o problema fundamental está na família. Por isso é que insisto: a família é um problema fundamental aqui em Cabo Verde, porque sem a família nada ‘irá ao sítio’. Nenhum problema se resolve sem passar pela família. É a experiencia basilar que vai determinar o comportamento das pessoas em diversas instâncias sociais.

Um outro tema que gostaria de abordar é a proliferação de Igreja e seitas em Cabo Verde. Como vê este fenómeno?

Julgava-se que a espiritualidade, a religião tinham os dias contados. Na segunda metade do século XX, muita gente, sobretudo políticos, mas não só, convenceram-se de que a fé tinha os dias contados, e que Deus estava remetido a alguns recantos da consciência de algumas pessoas. Foi um engano total. O homem tem sede e fome de Deus, em quaisquer circunstâncias da vida. Isso é uma questão. Dois: há pessoas e grupos que se aproveitam dessa necessidade que as pessoas têm de Deus, dessa necessidade espiritual, e há quem faça negócio disso. Pensam que isto pode ser uma fonte de rendimentos, de enriquecimento, de satisfazer interesses próprios. Mas a Igreja, que devia estar na vanguarda da proposta do caminho para Deus e do estímulo de uma relação de proximidade, amizade, apoio mútuo e desinteressado, nem sempre esteve ao nível de oferecer isso às pessoas. Ou porque, de facto, da sua parte não esteve ou porque, por qualquer razão, as pessoas rejeitaram a proposta da Igreja querendo fazer outras experiências. Isto provocou a situação que hoje vivemos, não só aqui em Cabo Verde mas um pouco por todo o mundo. Em todo o lado, há proliferação de seitas que oferecem paraíso, outras oferecem eliminação de todo o sofrimento, outras riquezas, outras garantem a salvação eterna, à custa de alguma coisa. Há um certo desnorteamento, em termos de espiritualidade, um tempo de crise, mas penso que o próprio tempo, a sua crivagem, ajudará e as pessoas acabarão por perceber melhor qual a melhor opção religiosa.

2017 DC. Sobre a migração e a venda de escravos na Líbia. Já devíamos estar mais evoluídos?

Há várias formas de escravidão. Na Líbia vimos vídeos em que pessoas parecem vender escravos como se fosse uma feira. É extremamente chocante e pensávamos que isto já estaria ultrapassado. Sabemos que há outras formas de escravatura, mesmo na Europa. Em quintas na Itália, por exemplo. Ou portugueses escravizados em Espanha. Sempre houve o ser humano não convertido, que não vê no outro a sua imagem e semelhança, o seu irmão e sua irmã, a concepção de justiça e do homem que a fé cristã nos pode dar e que muitos na prática rejeitam porque limita certas praticas. Essa prática na Líbia tornou-se especialmente chocante. Ficamos estarrecidos com essa situação e espero que se tomem medidas para que isso nunca mais aconteça, nem na Líbia, nem na Cochinchina, nem na Patagónia, nem em nenhuma parte do mundo. Agora há problemas conexos que devem ser vistos. Como é que países, alguns dos quais com tantos recursos são tão mal governados? Como há tantos grupos que fomentam as guerras no mundo, tornando a vida impossível? Há um conjunto de reflexões que devem ser feitas: porquê tanta guerra, tanta pobreza, tanta corrupção, tanta negligência na governação dos países. E também porquê tanta ganância, porque há pessoas que não tinham necessidade urgente de migração. Há essa ideia de El Dorado da Europa, querer um carro, viver bem, ter coisas, que leva as pessoas a alienarem-se, a saírem da sua realidade, sonhando coisas que na prática não têm correspondência real. Portanto, há um conjunto de coisas que devem ser reflectidas, analisadas, e há medidas a tomas a diversos níveis para que de facto a emigração se faça - pois a emigração faz parte da realidade humana e social histórica - mas com outras condições.

Para terminar, uma mensagem de Natal para os cabo-verdianos…

Natal é um tempo muito especial para os cristãos, e não só, porque pela influência cristã, essa festa também se estendeu a outros âmbitos sociais. A vinda de Deus ao mundo, Deus que se faz um de nós por amor - isto é bonito, é encantador, mostra bem o nível da dignidade que Deus nos concede e de como Deus nos quer ver. Tornou-se um de nós. Isso está na História, aconteceu, Cristo é um de nós. O Natal tem, ao mesmo tempo, 3 aspectos fundamentais que devemos ter sempre presentes. Deus fez-se um de nós, está no meio de nós. Tem a minha carne, os meus ossos, o meu sangue, um coração que palpita como o meu, na pessoa do Seu verbo feito carne. Por outro lado, Jesus continua hoje no meio de nós, comigo, através da sua palavra, através do irmão e da irmã que encontro na rua, no trabalho, na escola, na família, em todo o lado. Cada um é a imagem viva de Jesus Cristo na sociedade e no mundo. Está no meio de nós também através da Sua igreja, do sacramento. Cristo é o companheiro de viagem de cada um e de todos. E, ainda, Cristo virá como Senhor do céu e da terra. Então, Cristo veio, está e há-de vir de uma forma gloriosa. E é ele a quem cada um – isto é importante – deve prestar contas da sua vida. O Senhor virá, como senhor da história, para julgar os vivos e os mortos e eu lhe prestarei contas da minha vida. Dizendo: ‘Senhor, vós ajudastes-me, eu fiz um esforço e eis o resultado das coisas boas, do amor que partilhei generosamente com todos, como tu fizeste, como mandastes fazer, tentei fazer e peço desculpa se nem sempre consegui. Mas tentei.’ Esta é a mensagem global que cada Natal traz para aqueles que acreditam em Jesus Cristo e procuram seguir os seus passos. E o Natal não está nos bens materiais mas num coração aberto e acolhedor aos outros e solidário, como Cristo fez para com todos. Esta é que é a prenda que devemos valorizar.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 838 de 20 de Dezembro

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Autoria:Sara Almeida,24 dez 2017 6:31

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  24 dez 2017 6:32

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