Mulheres de negócios do mar

PorAdilson Pereira,5 mai 2018 7:49

Maria Semedo (Tifuka)
Maria Semedo (Tifuka)

​Ainda não se fazem ao mar como os pescadores de barba rija e pele encardida pelo sol e maresia. Mas da terra firme, as mulheres lideram embarcações de pesca, pilotadas por marinheiros. Feito generais em terra, comandam expedições de caça no oceano. Gerem o negócio, cuidam da logística, até dos recursos humanos, e vislumbram áreas de investimentos futuros.

Maria da Conceição Semedo, Angelina Vieira, Maria Cardoso, Anilsa Furtado, todas as quatro, além de mulheres armadoras, têm em comum uma vida ligada ao mar, uma transição de vendedeira de peixe para donas de embarcações de pesca. Hoje, dão emprego a terceiros e são unânimes em reconhecer a rentabilidade do sector.

A falta de apoio das autoridades competentes é motivo de queixa das armadoras de saia. Por serem mulheres, enfrentam alguma dificuldade em lidar com os pescadores que fazem a faina e tomam conta da embarcação.

Maria Semedo (Tifuka)

Gere 4 barcos e emprega 70 pessoas

A armadora, Maria da Conceição Semedo, mais conhecida por Tifuka, gere quatro embarcações de pesca e dá emprego a 70 pessoas. Actualmente, já fornece peixe para as empresas conserveiras, Frescomar e SUCLA (Sociedade Ultramarina de Conservas), mas espera montar a sua própria fábrica de conserva brevemente.

Tifuka, 49 anos, nasceu numa família humilde da Cidade Velha, que tinha num bote a única fonte de subsistência. Sem possibilidade de prosseguir os estudos na cidade da Praia, aos doze anos teve que trocar os cadernos pelo balaio de peixe.

Aos dezasseis anos veio a gravidez e a certeza de que o futuro estava na venda de peixe. Entretanto, somente a partir dos 21 anos é que encarou esta actividade como um negócio. “Foi quando comecei a comprar peixes na praia da Gamboa e vendê-los em Assomada”, conta Tifuka.

Casada com uma pessoa de tradição piscatória, obteve o financiamento para a compra do primeiro barco. “Comprei-o por 15 mil contos, mais os juros ficaram por 21 mil contos”, contabiliza Tifuka. Em três anos saldou a dívida, contraída para cinco.

O negócio corria de feição, a antiga vendedeira de peixe à cabeça não perdeu tempo e investiu em mais uma embarcação, de sete mil contos, desta feita sem recorrer ao empréstimo bancário. Com dois barcos a pescar e sem dívidas para pagar, a vinda do terceiro estava prenunciada. Desembolsou perto de dois mil contos e investiu cerca de mais 12 mil contos para o tornar operacional.

Para completar a frota, há dois meses, a armadora teve um financiamento de 31 mil contos para a compra de um barco que tem a capacidade para 32 toneladas de peixe. “Vou colocá-lo em São Vicente para fornecer peixe à Frescomar e à SUCLA em São Nicolau”, revela Tifuka. O barco já está a pescar.

“Mar é rentável, é uma vida garantida”, assegura. Mas há riscos, tanto no mar, como no negócio. Sem uma gestão rigorosa, o negócio pode ser depredado pelos próprios pescadores. Ter a família envolvida no negócio é uma vantagem. “Meu marido é um bom conhecedor do mar e do motor”, salienta. Ademais, cada um dos quatro barcos tem o comando dos familiares, dois filhos, um sobrinho e um irmão.

“Quem cuida da venda, distribuição e entrega de todo pescado dos quatro barcos sou eu”, assegura Tifuka, enquanto o marido cuida das embarcações, de reparações de motores e de toda a logística. O filho, formado em gestão de recursos humanos, na universidade do Porto, Portugal, com o dinheiro da pesca, é o gerente. A armadora entrega seus peixes na Cadeia Central da Praia, Quartel de Achada Mato e restaurantes. Para o mercado turístico do Sal faz entrega de atum, mas apenas quando é solicitada.

Dando voz aos armadores da ilha de Santiago, Tifuka pede mais atenção do governo para o sector da pesca. “Se tivermos um arrastador de barco aqui na Praia não teremos que gastar muito dinheiro para deslocarmos até São Vicente”, aponta. Quer também mais produção de gelo e local de armazenamento de pescado.

Angelina Vieira

De peixeira a armadora, dona de dois barcos

A ligação de Angelina com o mar vem desde quando ia a pé de madrugada comprar peixe em Angra (localidade do município de Tarrafal de Santiago) para vender à cabeça. De peixeira passou para armadora. “Começamos com um bote que possuía rede”, conta. De lá para cá muitos investimentos em embarcações foram feitos, e hoje possui dois barcos e onze pessoas a trabalhar com ela. “Graças a Deus não nos tem corrido mal”, regozija-se.

Um dos barcos carrega o nome da proprietária na popa. Mas, neste momento, apenas um está a operar porque não dispõe de rede suficiente, bóia, crochet (artefacto para colocar chumbo).

Actuar nesta área não é fácil, segundo avançou Angelina Vieira, mas “é preciso fé em Deus para que as coisas tenham dado certas”. “Não temos nenhum tipo de apoio. Lutamos sozinhos”, diz. Os investimentos foram feitos com as próprias poupanças.

Para a mais recente embarcação, que foi colocada no mar há um ano, até tentaram um financiamento junto do banco. Mas as condições exigidas pelo credor, associadas ao risco inerente do mar fê-la desistir.

Segundo Angelina Vieira ultimamente a pesca não tem sido abundante, mas quando se consegue uma boa safra a venda também corre bem. “Temos uma pessoa ali do Tarrafal, nossa vizinha que cuida da venda dos peixes assim que o barco atraca no cais de Mangue”, diz Vieira. Angelina também dispõe de uma pessoa para cuidar das embarcações.

Maria Cardoso

Armadora quer levar pescado aos turistas

Proprietária de dois botes, Maria Cardoso, 45 anos, tornou-se armadora há seis anos, quando ainda vivia na ilha de Boa Vista. “Apenas um está a operar porque me falta mais um motor”, revela. Para já, pretende adquirir o motor que está a faltar, ainda que seja de forma parcelada, e entregar peixe nos hotéis.

Natural da ilha de Santiago, escolheu a ilha do Sal para sediar seu investimento, onde reside há um ano. “Aqui o comércio de peixe é bem melhor do que na Praia”, avança Cardoso. A ascensão a armadora parece ser uma consequência natural das peixeiras, mas para Cardoso há algo mais. “Entrei neste negócio porque sempre gostei da área do mar”, conta.

Sem financiamento, Cardoso teve que investir faseadamente. “Adquiri apenas uma lancha, sem o motor”, conta. Recorria ao motor de outras pessoas para colocar o bote a pescar. Somente mais tarde comprou o seu próprio motor.

“Não é fácil dirigir uma embarcação de pesca, por ser mulher, e lidar com homens pescadores que muitas vezes nos dão dor de cabeça”, admite. O segredo, segundo contou, é apostar num pescador que seja acima de tudo boa pessoa para tomar conta da embarcação e do pescado.

Quanto ao rendimento, entretanto, Maria Cardoso não tem razão de queixa. Segundo esta armadora, o que se ganha neste sector é bom e o lucro compensa.

Anilsa Furtado

Jovem armadora, vê no Sal melhor mercado

Furtado é proprietária de um bote e emprega dois pescadores. O investimento, concretizado no final do ano passado rondou os mil contos. Somente na embarcação foram mais de quatrocentos contos, encomendada na ilha de Santiago.

Pertencente a uma família de pescadores, o destino de Anilsa Furtado, de 30 anos de idade, como armadora parecia estar traçado. No entanto, os primeiros passos nesta direcção aconteceram na associação dos pescadores de São Miguel, onde exerceu o cargo de presidente da Assembleia-Geral. “A maioria da minha família é de pescadores, estas influências todas me levaram a entrar neste tipo de actividade”, conta.

“Sou eu que faço a distribuição dos peixes nos restaurantes e venda à população”, diz Furtado, que também cuida da logística. A mesma faz também a distribuição do peixe entre os dois pescadores que trabalham com ela.

Anilsa Furtado já vivia no Sal, onde buscava a vida como rabidante e observava o mercado ali para a área do pescado, antes investir na embarcação. “Vi que aqui é onde que a pesca dá mais rendimento”, frisa. “É um rendimento sustentável”, considera.

Armadoras com visão de negócio virada para o mar

Com quatro barcos a fornecer peixe, Tifuka tem planos no domínio da conserva. Para isso, já constituiu uma empresa, Carlos Maria – Pesca e Indústria, que está previsto entrar em funcionamento brevemente. “Tenho em mente montar uma fábrica de conserva para produzir enlatados”, perspectiva.

Equaciona também ter a sua própria fábrica de gelo e um lugar de armazenamento de peixe, para evitar desperdícios dos peixes e paragem dos barcos. “Há dias tive que deitar ao mar cerca de cinco toneladas de chicharros por causa da falta de local de armazenamento e gelo”, conta Tifuka.

A armadora do bairro de Brasil irradia simpatia e um sorriso cândido, mas no seu mundo de negócio ela encarna uma mulher de garra, aguerrida, quase feroz até, para conquistar o seu espaço e fazer seu empreendimento zarpar. “Tem que ser uma mulher de garra, activa, corajosa e que acredita nela mesma”, acentua Tifuka, e acrescenta: “É um trabalho fácil, mas há que ter vocação para isso”.

Maria Cardoso mudou-se da Boa Vista para o Sal há um ano, e considera-se nova neste mercado. Por esta razão e pela quantidade de peixe que captura, os seus clientes ainda são os restaurantes e a população. No entanto, o objectivo é chegar aos hotéis, meta que espera alcançar com o funcionamento da outra embarcação.

Anilsa Furtado, a jovem armadora, sem perder o mar e actividade pesqueira de vista planeia abrir uma loja de venda de artigos para a pesca no Sal. Já no caso da armadora do Tarrafal de Santiago, Angelina Vieira, a aquisição de uma embarcação maior, com possibilidade de pescar em grande quantidade é um sonho acalentado por ela.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 857 de 02 de Maio de 2018.

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Autoria:Adilson Pereira,5 mai 2018 7:49

Editado porAndre Amaral  em  6 mai 2018 9:43

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