Cidade Velha: E foi assim que tudo começou

PorJorge Montezinho,6 ago 2014 10:51

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“A Cidade Velha é um diamante em bruto”, diz-me Jair Fernandes, curador da Cidade Velha Património da Humanidade. Muito em bruto, acrescento. Isso quer dizer que não vale a pena lá ir? Muito pelo contrário. Só um jantar no restaurante Pelourinho ou uma estadia no Hotel Limeira já justificam a viagem. Mas, a Cidade Velha é muito mais do que isso. É um marco histórico e cheio de histórias. É esse o contexto que valoriza a primeira cidade europeia fundada a Sul do Trópico de Câncer e que funcionou como centro socioeconómico, administrativo, militar e religioso.

 

A Ribeira Grande de Santiago, Cidade Velha, é o primeiro estabelecimento humano no arquipélago de Cabo Verde, após a descoberta da ilha de Santiago, por volta de 1460, pelos navegadores de Portugal – o genovês António da Noli e Diogo Gomes. É considerada o berço da cabo-verdianidade e da mestiçagem e desempenhou um papel preponderante no apoio à expansão portuguesa, no desenvolvimento do comércio internacional e da navegação de longo curso entre os quatro cantos do mundo. Pode-se mesmo afirmar, sem grandes excessos, que a globalização actual começou na Cidade Velha.

“O local escolhido para o povoamento da vila era um vale profundo e verdejante que era rasgado por duas ribeiras que desaguavam no mar, formando uma enseada com boas condições para a instalação de um porto que facilitasse as ligações com o exterior”, como escreve Fernando Pires, em Da Cidade da Ribeira Grande à Cidade Velha de Cabo Verde.

É esse mesmo vale que ainda hoje se abre ao fundo da estrada que liga Praia à Cidade Velha. 15 quilómetros que se fazem em vinte minutos porque, apesar do asfalto novo, a via não convida a grandes acelerações. É um oásis de tranquilidade, como me descreveu um operador turístico local. E tem razão. Quando se chega ao centro da cidade, vindo da capital cabo-verdiana, há algo que no início se estranha e só depois se compreende porquê: há silêncio.

Quando a Cidade Velha foi classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, a 26 de Junho de 2009, previu-se a chegada em massa de turistas ávidos por conhecerem este pedacinho de história – a verdade é que eles até vieram, de 3 mil visitantes em 2006 passou-se para os 70 mil em 2013. Mas são turistas de um dia só e não deixam muito dinheiro na localidade. As autoridades estão cientes do desafio, mas disso falaremos mais tarde.

As autoridades sabem igualmente que a grande aposta deve ir para o património imaterial. E nisso têm razão. Porque ir à Cidade Velha é penetrar num espaço mágico, como disse um dos residentes, mais sensorial do que real. Quem quiser ver apenas os monumentos pode ver. Eles estão lá, quietinhos, à espera. Mas, o que vale mesmo são as histórias por trás das pedras.

Logo após a sua fundação, a Cidade Velha tornou-se num dos principais portos de escala obrigatória nas rotas atlânticas e permitiu a expansão colonial em direcção à África, América e Índias. Pelo seu porto passaram Vasco da Gama, na ida e no regresso das Índias, Cristóvão Colombo por ocasião das suas viagens às Índias Ocidentais e Fernão Magalhães, durante a primeira, e definitiva, viagem de navegação à volta do mundo. A Ribeira Grande contribuiu para a transformação do Atlântico numa rede de distribuição de mercadorias, plantas, animais e homens. Com o descobrimento das Américas em 1492 e do Brasil em 1500, a vila da Ribeira Grande ganha importância e conhece um dinamismo sem precedente. Uma primeira igreja, a de Nossa Senhora da Conceição foi construída em 1462, seguida da criação da Câmara Municipal em 1497. Em 1533 foi elevada à categoria de cidade, sob o nome de Cidade de Santiago de Cabo Verde, data em que se fundou a diocese de Cabo Verde e dos Rios da Guiné, tornando-se assim a sede do Bispado, o centro do poder civil e militar das colónias portuguesas da África Ocidental. Transformou-se numa cidade próspera. Tinha propriedades privadas de ricos senhores e homens de negócios, instituições ligadas à execução do poder (Câmara Municipal, Tribunais, Fortes, Fortaleza, Prisão, Alfândega, etc.), estruturas religiosas (Catedral, Igrejas, Capelas, Hospital, Residência Episcopal, etc.), tudo isso num espaço extremamente reduzido. E chamou a atenção da rapaziada que fazia do corso um estilo de vida.

Como conta o jornalista Nuno Rebocho, na história da Cidade Velha, registam-se pelo menos 18 ataques de corsários (ou piratas) de diferentes nacionalidades: franceses, ingleses, holandeses, turcos, mas também castelhanos (espanhóis) e portugueses. Entre eles, os célebres Francis Drake (inglês) e Jacques Cassard (francês). Durantes essas acções de pilhagem, a cidade foi arrasada pelo menos duas vezes, apresaram-se e afundaram-se navios, roubou-se mercadoria e escravos e deitou-se fogo ao que não conseguiam levar.

Ir à Cidade Velha é reviver esses tempos. Na baía, quando o mar adquire aquela cor cinza aço e as nuvens estão mais baixas, consegue-se regressar ao dia 17 de Novembro de 1585. E não é difícil imaginar a silhueta do Pelican, o navio almirante de Francis Drake, armado com os seus 18 canhões e acompanhado por uma frota de mais 28 navios.

Se o vento está de feição conseguem-se ouvir as pragas dos piratas ingleses, os remos a baterem no mar, cada vez mais rápido, enquanto os imediatos os encorajam. Podemos até adivinhar o desembarque: homens rudes, crestados pelo sol, barbas cobertas de sal, o sabre de abordagem na mão direita e a pistola ainda fumegante na mão esquerda, duas mechas acesas sob os chapéus (os piratas tinham essa mania). E se olharmos para trás, sabemos que a população já correu pela rua Banana para se esconder destes sicários ao serviço das coroas europeias inimigas de Portugal.

Drake gostou tanto do clima de Cabo Verde que regressou mais duas vezes. A terceira não lhe correu tão bem, já existia a fortaleza real de São Filipe, terminada de construir em 1593. Estando lá, não nos custa ver aqueles passadiços vibrantes de movimentação, africanos e europeus, lado a lado, a levarem as balas de canhão aos artilheiros italianos. É provável mesmo que algum bombardeiro lombardo, com um humor mais retorcido, tenha escrito ‘saluti da re Filipe a tutti inglese’, antes de meter o projéctil no canhão. Sim, porque na altura não era exactamente com a morabeza que recebíamos os visitantes estrangeiros.

Também por causa destas sucessivas incursões corsárias, a riqueza e a importância da Ribeira Grande foram diminuindo. Em 1712, o corsário francês Cassard deu-lhe o golpe de misericórdia. Apoiado por Louis XIV, que o incumbiu da missão de cometer “todos os actos de hostilidades possíveis nas colónias inglesas, portuguesas e holandesas”, incendiou e arrasou a Cidade Velha. As ruínas da Sé estão lá para o provar, e é perfeitamente possível imaginar Jacques Cassard a acender o cachimbo, pé direito apoiado numa das pedras encarvoadas da Catedral, a apreciar o lindo serviço que os seus esbirros acabaram de fazer.

O mais incrível é que todas estas histórias, e outras que tomam a dimensão de lendas, estão ainda enraizadas na população da Cidade Velha cinco séculos depois. Se pedirem a três pessoas para contar a história do sino de ouro ouvem três versões diferentes: que foi roubado pelos piratas e está ainda hoje em Inglaterra, que foi roubado mas o barco afundou ao largo, que o barco afundou sim senhor mas o sino foi recuperado e levado para a Europa. Até há quem conte a história da (impossível) invasão da Cidade Velha pelos exércitos de Carlos Magno (rei dos francos entre 768 e 814, muito antes, portanto, da descoberta de Cabo Verde).

Drake, Cassard, Gama, Colombo, Magalhães. Mas, não é só de navegadores que se constrói o património imaterial da Cidade Velha. Charles Darwin também passou por lá e a teoria mais revolucionária da história da humanidade – o evolucionismo –, pode-se afirmar, começou aqui, neste cantinho no meio do Atlântico. Mas há mais. A crioulização mundial começou na Cidade Velha, o carnaval brasileiro tem a sua raiz na Tabanka de Santiago, o conhecimento da manufactura do rum da cana-de-açúcar foi repassado de Cabo Verde para o continente americano. O saber fazer, a música e a dança e são aspectos que ainda se mantêm vivos na Cidade Velha, são os factores intangíveis que o turista procura.

Por outro lado, a oferta local não é ainda muito diversificada e ainda deixa muito a desejar, o artesanato está subaproveitado e os serviços de guias são ainda deficientes. As autoridades, como foi dito, conhecem bem estes constrangimentos e estão a preparar algumas iniciativas para incrementar e diversificar a oferta turística no sítio histórico. Um deles, é o projecto Cidade Velha Cultura em prol do Desenvolvimento Socioeconómico, financiado pela União Europeia para ensinar às famílias locais a utilizar a cultura para a criação de rendimento e para diversificar as actividades culturais no município, como a realização de mais feiras de artesanato, de gastronomia, etc.

No quadro deste projecto está a ser finalizado um centro de artesanato (na rua Banana) e de exposições. “Servirá para acolher as iniciativas em matérias de artesanato e artes e ofícios das pessoas do município, e não só, que queiram vir mostrar e vender as suas artes”, explica-me Alcides de Pina, vice-presidente da Câmara da Ribeira Grande. “Também pode vir a ser um centro onde o turista pode interagir directamente com os artesãos. E vai ter outras vertentes, como uma biblioteca temática sobre a Cidade Velha e um museu virtual”.

Nos planos está também a criação do primeiro museu de arte sacra da Cidade Velha e do museu da escravatura. Já começou também o melhoramento das fachadas e das coberturas das casas, porque um dos objectivos futuros é a criação de vários miradouros. Na forja estão ainda projectos para reabilitar toda a orla marítima e a criação de piscinas naturais junto ao mar.

Mas, para tudo isso é preciso dinheiro. Jair Fernandes, o curador da Cidade Velha Património da Humanidade, afirma mesmo que a Ribeira Grande de Santiago tem de ser uma questão de Estado. “A Cidade Velha deve ter um orçamento diferenciado. Se a Praia reclama o estatuto especial, a Cidade Velha também o merece para fazer justiça para com a história. Em termos de planificação a curto prazo queremos o museu da arte sacra e da escravatura, queremos tornar a Cidade Velha num centro de pesquisas arqueológicas e de património imaterial no contexto atlântico, trabalhar com o público e o privado para dinamizar o turismo. São estes os grandes desafios, desde que as condições sejam criadas para o efeito. Caso contrário, estamos a brincar ao património mundial”.

A Cidade Velha é um dos 948 sítios considerados património da humanidade que existem em todo o planeta. E é um dos dois que existe na África Ocidental. Por outras palavras, o valor universal da Cidade Velha é reconhecido, agora é a vez dos cabo-verdianos comprovarem esta mais-valia.

 

Guia Prático

Onde ficar: O Hotel Limeira, a 500 metros do centro, oferece pacotes de fim-de-semana aos nacionais, dormida e pequeno-almoço, por 5.000$. Também é possível passar apenas um dia de piscina, com direito a almoço por 1.000$, mas recomenda-se mesmo a estadia mais prolongada. Vale a pena conhecer este hotel de charme com 33 quartos, todos com vista de mar (www.hotellimeira.cv). O Hotel Limeira tem também serviço de restaurante. Outras ofertas são o Hotel Pôr do Sol, a Pousada São Pedro ou a Hospedagem Girassol.

Onde comer: O Restaurante Pelourinho é das melhores opções para almoçar ou jantar na Cidade Velha. Peixe e mariscos, mesmo em frente à baía, com preços médios que rondam os 1.000$00. O Restaurante/Bar Casinha Velha ou o Restaurante Real Turis, são outros locais para refeições.

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Autoria:Jorge Montezinho,6 ago 2014 10:51

Editado porRendy Santos  em  7 ago 2014 17:36

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