10 Maravilhas de Safende

PorSara Almeida,15 set 2019 8:41

Safende elencou as dez Maravilhas do bairro. Uma iniciativa que surge no âmbito das Comemorações do mês de Setembro, que antecedem o dia da Padroeira, Santa Teresinha, e que tem uma particularidade: as maravilhas propostas foram escolhidas pelas crianças que frequentam a colónia de férias, na qual estão a aprender mais sobre o ”bairro amado”. Em destaque, nestas Maravilhas, estão os espaços de socialização, o que mostra a importância destes na vida e bem-estar das comunidades. Mesmo aos olhos dos mais pequenos.

Chafariz do Meio, Escola EBI de Safende, Estrada Principal, Capela de Santa Teresinha, Miradouro alto Safende, Espaço Aberto, Campo Relvado, Placa de Street Basket, Monte Gazela e… as pessoas de Safende. São estas as dez Maravilhas propostas num processo de brainstorming pelas crianças que frequentam, até dia 14, a colónia de férias organizada pela Associação Comunitária Amigos de Safende (ACAS), em parceria com os Jovens pela Paz.

Este mês, como revela Bernardino Gonçalves, da ACAS, a colónia incidiu sobre a história e os espaços do bairro, para dar a conhecer, aos mais pequenos, a sua zona. Mas foi também um momento de aprendizagem para os adultos, que ao solicitar aos jovens e crianças que identificassem o que de “mais marcante tem o bairro”, ou seja, as suas maravilhas, se viram confrontados com as “coisas que lhes chamam a atenção”. 

“Esses espaços identificados representam espaços de socialização, de convívio, de reunião e de encontro de pessoas. Outros, muitos deles, não o sendo ainda, têm essa potencialidade. E alguns espaços representam ainda conquistas dos moradores.”, aponta Bernardino. 

A ideia é agora, não só dar a conhecer às crianças a história e outras informações sobre esses espaços emblemáticos, como escrever “pequenos textos sobre cada um”. 

Para isso, é necessário “falar com as pessoas mais antigas” do bairro. Aquelas que na memória têm as histórias e as estórias e que constituem, ainda, à falta de documentação escrita, o maior (e às vezes único) acervo sobre Safende. 

As maravilhas

A Capela de Santa Teresinha é então uma das dez maravilhas de Safende. Trata-se de uma pequena capelinha, que se acredita ter começado a ser construída pouco depois da génese do bairro. “Temos ideia que deve ser dos anos 80, na sequência da proposta do padre Pimenta, de construir casas de oração pelos vários bairros”, arrisca Bernardino. Certo é, segundo registos escritos sobre a “Paróquia de Nossa Senhora da Graça – 1983 a 1993” que houve um djunta mon. Dizem que “foi colocada uma placa de betão armado na capela”, já antes construída”, com a colaboração de toda a comunidade mesmo crianças e adolescentes”. O ano, em concreto, não é referido. 

Relativamente perto da capela, fica o Chafariz do Meio, já desactivado e considerado pela ACAS como pertença da comunidade, uma vez que “a constituição da República de Cabo Verde concebe esta possibilidade”, como frisa um boletim informativo da Associação. 

A mesma fonte adianta que o mesmo foi construído (em mais um) “djunta Mon” e “foi lugar de socialização, de acesso ao bem essencial que é a água, mas também de intrigas, conflitos, conquistas e solidariedade.”

Hoje votado ao abandono e vandalismo, este é um espaço que a ACAS pretende reactivar em articulação com a Câmara Municipal da Praia, que “já deu abertura para se seguir este caminho”. Nesse sentido, a ACAS realizou uma consulta à comunidade que apresentou algumas sugestões sobre o destino que esse património do bairro deve ter. As propostas são variadas, e vão desde a criação de um mercado comunitário ou de um espaço de promoção de artesanato, a um Posto sanitário (farmácia social), passando por uma biblioteca, entre outros. 

Ainda desse lado do bairro fica a Placa de Street Basket. Como salienta Bernardino Gonçalves, este é um espaço “que representa muito para os jovens do bairro”. Foi uma conquista destes, que também contribuíram para que o mesmo fosse realidade. 

Outra maravilha é a Estrada Principal de Safende, centro nevrálgico que divide o bairro em dois e cuja história, considera Bernardino, não é muito conhecida pelos mais novos. Já os mais velhos lembram-se bem da construção da mesma. “ Antigamente o caminho para o interior era do outro lado. Então esta estrada foi uma conquista para moradores também, que lutaram para a abrir deste lado”, conta. Com a estrada, Safende entrou no mapa da cidade, por assim dizer, ao tornar-se ponto central de passagem do fluxo Praia-interior de Santiago. 

À beira da estrada fica uma outra maravilha. O Espaço Aberto Safende, um centro de intervenção comunitária pertencente à Associação Zé Moniz (AZM), que desde 2008 e em conjunto com vários parceiros, tem sido um porto seguro da comunidade e realizado diferentes acções para melhoria das condições de vida das crianças e das famílias. É também um espaço, claro, de “socialização, de encontro de pessoas”. 

Atravessando a estrada, o bairro continua. É para aí, aliás, que se dá a expansão do mesmo. Rapidamente se chega ao Campo Relvado, outro “património” comunitário marcante. “Muitas pessoas que nunca imaginariam que o campo de Safende um dia estaria relvado, pela sua localização, quase na encosta e com perigo de enxurradas”. Cada vez que chovia, o uso do campo de futebol ficava impossibilitado. Quando a época das chuvas passava, a comunidade limpava e voltava a jogar. Hoje, já feito trabalho de correcção de curso de água, o campo encontra-se relvado e disponível 24h, 365 dias. 

Depois do Campo, sobe-se. E deparamo-nos com o Monte Gazela Afonso, uma maravilha natural, de encostas pontuadas de casas, que faz a fronteira com outros bairros.

E em direcção oposta, lá no cimo também, fica o Miradouro Alto Safende, que hoje mais não é do que um spot de terra batida e sujo, mas com uma fantástica vista panorâmica sobre o bairro e a cidade. Um recorte de construções de todos os tipos, acabadas e não acabadas, pobres e ostensivas, em cru ou coloridas, que se espraiam lá até ao mar, rasgado ao longe pelo Farol de Santa Maria. É um local de enorme potencial turístico, acreditam as crianças e restantes moradores de Safende. Mas por enquanto… só isso mesmo: Potencial. 

Perto do miradouro há um Centro Multiusos, cuja exclusão da lista das dez maravilhas intriga.

“Este centro multiuso foi construído pela Câmara Municipal nos anos 2000 mas a população não o sentiu como dela. A população não se apropriou, diferentemente do que aconteceu com o Espaço Aberto”, explica o activista comunitário. “Às vezes os políticos sonham...” Sonham, fazem, mas o que constroem não traz o sentimento de pertença pretendido. 

Actualmente, o modelo de gestão e decisão é mais participativo, avalia-se. A comunidade tem hoje maior papel nas intervenções camarárias, mas a não divulgação dos orçamentos municipais disponíveis para o bairro continua a dificultar a parceria entre associações comunitárias e as Câmaras.

Lá em baixo, a escola EBI de Safende foi também elencada na sessão de escolha de propostas com as crianças. E esta é (mais) uma maravilha que necessita de intervenção. “A escola está ao abandono. O Ministério tenta convencer-nos de que há escolas piores, mas não é esta lógica que se deve seguir. Não se pode nivelar por baixo”, protesta o membro da ACAS. “Há buracos, entra água” e a pintura e retoques disfarçam mas não resolvem os problemas da estrutura. 

Por fim, a última, mas não menos importante “maravilha” de Safende: as pessoas do Bairro. Os jovens (segundo o Censo de 2010, 58% da população tinha menos de 25 anos); as mulheres chefes de família e pilares da comunidade; os moradores que se interajudam, que se unem e fazem acontecer. Enfim todos. 

E todos são chamados, no novo paradigma do associativismo comunitário, a trabalhar pela sua comunidade. 

Prova disso é o projecto “Empoderar pessoas, desenvolver Safende”, promovido pela ACAS, selecionado na segunda edição do #Atl2019 da Câmara Municipal da Praia e que vai receber 185 contos para a sua implementação. O projecto, como o próprio nome indica, visa “empoderar jovens de Safende através de capacitação de modo a fazer do processo de intervenção comunitária uma oportunidade de emprego e rendimento”. Aliás, o modelo de associativismo baseado no assistencialismo é algo que para Bernardino está ultrapassado, sendo que o foco deve ser nas pessoas: no seu bem-estar, mas também na sua participação no desenvolvimento. “A intervenção comunitária no bairro, de há 10 anos não pode ser igual à de hoje, porque os jovens são mais qualificados, têm mais networking, mais contactos. Alguns já tem mais recursos, então isso tem de se reflectir na intervenção comunitária”, resume Bernardino. A partilha de experiências e conhecimentos, nomeadamente a nível do empreendedorismo é um caminho. 

Estas dez maravilhas propos­tas estão já a ser divulgadas, apro­veitando este mês de Setembro, e unindo os mora­dores da comunidade de Safende, mas não só, em torno destes “patrimónios” e suas histórias. 

O Bairro

O bairro de Safende terá começado a constituir-se nos anos 70, estando inclusive previsto para o próximo ano, 2020, celebrações à altura do seu 50º aniversário. 

Os primeiros moradores eram essencialmente pessoas do interior de Santiago que vinham trabalhar para a capital. Mas não só. O bairro “dormitório” recebeu também migrantes de outras ilhas, e gente do vizinho bairro de Vila Nova. Recebeu ainda, nos 70s, refugiados de Angola que fugiam da Guerra Civil (1975-2002). 

“Fez-se aqui uma obra social, que acolheu pessoas que vieram de Angola, principalmente na chamada rua de Obra, cujo nome vem precisamente das obras dessas casas sociais. São coisas que as pessoas mais velhas nos contam…”, e que nos conta, por sua vez, Bernardino. 

Outra particularidade, que “não nos orgulha, mas é um facto: fomos o primeiro Boca Fumo”, revela ainda. E “provavelmente somos o primeiro ou o único bairro onde se fez um levante comunitário contra a venda de drogas no nosso bairro”, arrisca. 

A nível religioso, o bairro também tem também um outro aspecto relevante: acolhe aquela que, provavelmente, foi a primeira “mesquita” de Cabo Verde. “Há uma casa de oração e muçulmanos de vários bairros vêm rezar aqui”. O convívio com a maioria católica é pacífico e a maior afluência acontece às sextas-feiras, acrescenta. 

Entretanto, ao longo deste quase meio século Safende foi crescendo não só em estórias e particularidades, mas também em números. Segundo o Censo de 2010, o bairro tinha 6154 habitantes. Neste momento, “acreditamos ser cerca 8 mil pessoas”, calcula o activista. Mais do que vários municípios do país, portanto. 

Em expansão… 

E Safende continua a expandir-se principalmente na zona esquerda da estrada, para os lados de Monte Gazela, muitas vezes sem qualquer planeamento e sem cumprimentos das normas de segurança da construção. Informalidade e esquecimento parecem (ainda) ditar esta expansão.

E não é só nas infra-estruturas que se vive o esquecimento. Zona habitada por pessoas com fracos recursos económicos, a distância do alto à estrada principal e a total ausência de transportes públicos criam um isolamento forçado (ou gastos maiores nas deslocações) que retroalimenta a pobreza. É precisamente este isolamento que Bernardino realça. “Os autocarros só passam na estrada, que é longe para uma pessoa que viva lá em cima. Recolhemos 743 assinaturas de moradores e enviamos para a CM e para a empresa Sol Atlântico para que ponderem accionar uma linha de autocarro” nesta zona”, adianta. 

Na verdade, o local por onde passa a linha serve uma população com melhores recursos económicos, muitas vezes com veículos próprios e que paga por corrida de táxi bem menos do que as pessoas que vivem afastadas da estrada principal. A população de riba acaba pois por ser penalizada duplamente: em termos de mobilidade e gestão de rendimentos. 

Aliás, a pobreza é ainda, no olhar geral sobre o Bairro, um dos desafios principais. Conforme elencou o Fórum Pensar Safende de 2010, integra o Top 5 dos problemas, a par com o Desemprego; o acesso fácil ao álcool e outras drogas; a Habitação precária e a falta de infraestruturas sociais. Em quase dez anos, e conforme reiteraram os seguintes quatro fóruns desde então realizados, pouco mudou e os desafios mantém-se os mesmos.

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Autoria:Sara Almeida,15 set 2019 8:41

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  5 dez 2019 23:21

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