De uma Acácia Maior, onde a cultura é de todos

PorPaulo Lobo Linhares,11 jan 2021 9:07

​Sempre vi a cultura, mais concretamente a música, como algo que está ao alcance de todos, que suavemente nos sobrevoa e que bastará levantar o braço para lhe tocar, brincar, propor parcerias e construir o mágico.

Quem consegue fazer isso são normalmente os que chamamos de artistas. Sim, os que se apaixonam pela música que “tocam”, com a qual se misturam num só ser e…produzem (en)canto.

Duas palavras de ordem conduzem este processo: descomprometimento, para poder lá chegar e partilha, para poder usá-la depois de lá chegar. Só assim é possível, pois não tenhamos dúvidas de uma coisa: a música é exigente…e quem lá chega - quem lá realmente chega terá de ter o “passaporte” carimbado pela palavra paixão…

Os músicos, após terem tocado, e se terem envolvido sempre de forma apaixonada com a música…depois partilham-na – sendo esta a única forma de a celebrar.

Na verdade, nem sempre se vê este posicionamento na música…ou na arte.

Confesso que nas últimas duas semanas tive o privilégio de sentir isso…ainda por cima num colectivo de músicos que escolheram o nome de uma árvore bem presente no nosso arquipélago…de raízes profundas e “finkadas” na terra. É cheia de ramos que se espalham abraçando-nos em forma de sombra. Dá frutos e chama-se Acácia.

Pois bem, Acácia Maior – é o projecto cujos mentores são os jovens músicos …músicos, os verdadeiros e apaixonados músicos …cabo-verdianos: Henrique Silva e Luís Firmino.

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O projecto encanta pela sua simplicidade, descomprometimento…sem deixar de ser intenso.

Luís e Henrique são as bases e convidam mais músicos que a eles se juntam fazendo o todo (en)cantado.

Neste primeiro “single” o mestre-de-cerimónias foi uma das mais elevadas figuras da nossa música actual: Lula’s (que divide com Henrique Silva e Renato Chantre o Trio que forma um dos colectivos – ou melhor – o colectivo de maior criatividade-qualidade da nossa actual música – os Cachupa Psicadélica…uma perfeita cachupa rica e temperada com vários sabores, cores, sentimentos, notas e paixões-todas).

Lisboa é claramente a cidade do novo-nosso panorama musical. A Acácia não perdeu tempo e pediu a Henrique e Luís que chamassem as figuras de proa desta musicalidade actual, onde o viver urbano, porém sentido, sabe a um Cabo-Verde que (só) eles traduziram por sons. Sim, um Cabo Verde musical com as raízes bem “finkadas” na nossa terra ou tradição, mas com os olhos no horizonte do mar que é de todos.

Para além dos nomes já referidos e com o “acolher” de Jah River e da sua “Tabanka”, ainda o grupo “Rubera Roots” e as duas vozes femininas – quase que representando aqui as flores da acácia – Eliana Rosa e Debora Paris - juntaram-se e tudo resultou em partilha musical. Da partilha, a clara sintonia entre todos. A receita? – o visível amor pela cultura de Cabo Verde, a vontade e missão de a expressar num actual com bases profundas no conhecimento do tradicional. Mais, arriscaram-se e conseguiram na íntegra a fusão da nossa tradição – neste caso a Morna – com uma sonoridade de outras ilhas – o reggae…e mostraram a todos que é fácil fundirmo-nos quando a base é paixão-musical…eles souberam tocar a tal nuvem com a delicadeza necessária.

Contudo, mais…muito mais ficará por dizer. Muito mais por passar, mas simplesmento fico-me pelo nome que acredito vir a ser um dos marcos da nossa música, pela postura de respeito perante a mesma - por parte de Henrique e Luís. Pela maneira humilde como “gritam” e fazem-nos sentir que a “cultura ê d’nossa” e “n´el no tá expressá”.

Henrique e Luís, continuem a apoderar-se da nossa cultura…el é d’nossa…e que esta Acácia seja cada vez maior.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 997 de 6 de Janeiro de 2021. 

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,11 jan 2021 9:07

Editado porAndre Amaral  em  11 jan 2021 17:24

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