Guilherme Chantre: Um Educador carismático

PorCésar Monteiro,30 nov 2020 7:25

Sociólogo e Organizador do livro Guilherme Dias Chantre:  Um Educador e Líder Carismático, dezembro de 2010
Sociólogo e Organizador do livro Guilherme Dias Chantre: Um Educador e Líder Carismático, dezembro de 2010

​Nas suas dinâmicas de configuração e recomposição socioculturais, a sociedade cabo-verdiana é tributária do valioso contributo de homens e mulheres, nos mais variados domínios, com relevância para os da educação e da cultura, cujas marcas indeléveis transitam de geração em geração.

Recentemente falecido em Portugal, onde fixara residência, em 1974, Guilherme Chantre foi uma das personalidades singulares marcantes da vida do arquipélago, que, no passado, arquitetou, moldou e projetou o ensino técnico-profissional nacional, a partir da ilha de São Vicente, e se impôs, no plano institucional, pelas suas inegáveis qualidades de “professor por vocação” (Manuel Chantre, 2010), educador carismático e líder de pessoas ligadas por causas nobres e interesses afins.

Oriundo de uma família de proprietários agrícolas, de extração social média, Guilherme Dias Chantre, de nome completo, nasceu a 25 de junho de 1922, no Vale de Chã de Pedras, na ilha de Santo Antão, mais precisamente no sítio de Tabuleiro, onde, aliás, decorre a infância e a adolescência do filho-codé do casamento de Manuel António e de Maria Firmina. Viúva ainda relativamente cedo, Nha Maria Firmina, mãe do Guilherme, era uma “mulher de armas”, “durona” (José Pedro Oliveira, 2010) e respeitada, que, na eterna ausência do marido, “ficou à frente de tudo” (Agnelo Oliveira, 2010), assumiu as rédeas da família e proporcionou aos nove filhos sob a sua guarda uma educação esmerada, a despeito das dificuldades e dos constrangimentos ditados pelas circunstâncias conjunturais adversas. Guilherme fez os seus estudos primários na escola mandada construir pelo pai Manuel António, numa “comunidade nascida do fundo da terra” (Guilherme Chantre, 2006), numa altura em que “chuvadas” faziam correr muita água na ribeira e eram fonte de criação de camarões, cuja captura ocupava parte do tempo livre do adolescente.

Concluídos os estudos primários em Chã de Pedras com o irmão mais velho e professor, João Chantre, na ausência de recursos locais, Guilherme prossegue os estudos em S Vicente, onde ingressa no então Liceu Infante D. Henrique, em 1934, até a conclusão do Curso Complementar, a expensas da mãe, que defendia o acesso dos filhos à escola. Durante o seu percurso liceal, foi discípulo do Professor Jaime Simões, Reitor daquele estabelecimento de ensino, do Professor Pombal, ambos portugueses, e, ainda, de Adriano Duarte Silva e António Aurélio Gonçalves, figuras sobejamente conhecidas no meio urbano mindelense, que o marcaram profundamente. Terminado o então 7º ano liceal com alta classificação, Guilherme Chantre regressa imediatamente a Santo Antão e, na sua ilha natal, organiza um curso de explicações na Povoação, então Vila da Ribeira Grande, nos anos letivos sucessivos de 1941-1942 e 1942-1943, com o apoio do sobrinho materno Orlando Morazzo, que “lecionava as cadeiras de Francês e Português” (Adriano Oliveira Lima, 2010).

Na sequência do curso de explicações, tirando partido da “relação de entreajuda dos irmãos mais velhos para com os mais novos” (Agnelo Oliveira) e amparado pelo estatuto de benjamim da família, Guilherme Chantre, que já adquirira a primeira experiência na área do ensino, foi para Portugal prosseguir os estudos e, em Lisboa, frequenta o Curso de Magistério Primário até 1946, ano em que regressa definitivamente a Cabo Verde. Já diplomado pelo Instituto Superior de Educação em Lisboa (Benfica), inicia, assim, o seu longo percurso no domínio do ensino, lecionando, primeiro, na ilha do Fogo como professor primário, de 1946 a 1947, e, posteriormente, em S. Vicente, ainda na condição de professor primário, até ao seu ingresso para o Liceu Gil Eanes (1948-1956), através de concurso documental, agora, com melhor estatuto docente. À margem do seu percurso profissional, Chantre contrai matrimónio, em 1954, com a sua eterna companheira, D. Lourdes, que conhecera em S. Vicente, e, dessa união, nasce, no ano seguinte, a filha única do casal, Ana Isabel (Any), que manteve com o pai as melhores relações pessoais baseadas na austeridade e na amizade, particularmente na sua infância e adolescência.

Enquanto lecionava no Liceu como professor eventual, Guilherme Chantre abre um curso de explicações nas imediações da Praça Nova, no centro da cidade do Mindelo, em 1955, que funciona até 1960, ano em que é investido no cargo de professor contratado efetivo colocado na Escola Técnica do Mindelo. No ano seguinte, a 27 de abril de 1961, o Professor Guilherme Chantre é designado Diretor da Escola Industrial e Comercial do Mindelo, cargo que exerceu durante cerca de 14 anos com dedicação, empenho e serenidade, em defesa, sobretudo, dos alunos mais carenciados daquele estabelecimento de ensino técnico, através de ações concretas, que revelaram a sua condição de educador rigoroso e comprometido, bem como as “invulgares qualidades de líder”. (Rolando Vera-Cruz Martins, 2010). Conciliando a atividade docente, que tanto adorava, com o interesse pela cultura, Guilherme Chantre pertencia à elite inteletual mindelense liderada por Baltasar Lopes da Silva, à volta do movimento Claridade. Empenhado no processo educativo dos seus alunos e num ensino de qualidade, através de uma instituição de vulto que ele próprio ajudou a construir e a consolidar, com competência, humanismo, serenidade, verticalidade, generosidade e espírito de liderança, o Professor Guilherme Chantre perpetua-se como uma referência incontornável do ensino em Cabo Verde e um brilhante formador de gerações. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 991 de 25 de Novembro de 2020. 

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Autoria:César Monteiro,30 nov 2020 7:25

Editado porAndre Amaral  em  14 abr 2021 23:21

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