COVID-19: Mais um caso positivo em Cabo Verde

O Arquipélago Digital Quanto valem as nossas ilhas no exterior? Ouro!

PorJoão Chantre,21 jan 2020 15:38

A ilha precisa evocar a sua história, resgatar os seus valores sociais, económicos e de alta engenharia e lançar-se rumo ao futuro. Tem muito para dar ao arquipélago e ao mundo.

Santo Antão

Tenho várias ilhas espalhadas pelo mundo, nasci naquela que todos chamam a Ilha das Montanhas, as montanhas mais coloridas e vibrantes do país. Aquela com a estrada do mar mais segura do Atlântico e que protege e dá brilho à Baía do Porto Grande. Já musiquei muito sobre os seus atributos, mas nunca é demais continuar. Por isso desta vez optei por falar das suas gentes. São tantas. Um dia resolvi visitar uma das suas propriedades, num vastíssimo portfolio devidamente diversificado como mandavam as regras do investimento já na época. Antigamente as suas propriedades respiravam trabalho árduo e produtividade como muitas outras; produzia-se batata em granel, mandioca de sobra, inhame em quantidade, banana à vontade, mel de cana pura e aguardente saudável e do melhor. Ao subir a zona de João Afonso, zona de uma das suas propriedades com muita água e mulheres lindas e inteligentes, encontrei um senhor que me pediu que eu me identificasse como é da praxe. “O quê? Filho dele? Esse senhor era como um Estado, empregava montanha de gentes, uns daqui outros que desciam desse cabesse, todos tínhamos um dia de trabalho, não nos faltava nada, éramos felizes. Por isso nunca é demais falar das virtudes das pessoas.

Quando regressamos do seu funeral dele em São Paulo, nos corredores do ISCEE para ir dar uma aula, encontrei-me com um dos meus conterrâneos que disparou de uma forma muito genuína: “Santo Antão estaria noutro patamar se ele não tivesse abandonado a ilha. Era um homem diferente, tinha uma grande visão da ilha e do mundo, se não tivesse partido cedo já tínhamos aviões, helicópteros e aeroporto. Peço-te imensas desculpas pelos nossos estragos, eu e outro amigo que se identificou de imediato. “Fomos nós que escrevemos na vossa casa Catxorre de 2s, traidor da pátria, fora UDC, a morte é certa, cruzes e mais cruzes na parede, que irresponsabilidade…perdoa-me, eramos novos de mais para compreendemos o mundo”.

- Estás perdoado conterrâneo/amigo, gostei da tua franqueza…pois cometemos erros desnecessários que até hoje estamos a pagar…por conseguinte perdemos o rumo e ficamos entregues aos arremendos pontuais que acontecem na ilha em detrimento de uma visão estratégica e integrada do seu desenvolvimento.

Hoje a visão estratégica foi substituída por abraços e votos para sobrevivência. Que pena! Antes do seu descanso eterno lá onde se encontra sepultado, num dos cemitérios de Santo André, no Estado de São Paulo, no Brasil, fez esta pergunta, “diga-me como esta Porto Novo”! Sempre teve um uma visão clara da ilha e do seu estimado Porto Novo como plataforma da ilha. E foi exactamente na vila que projectou um futuro brilhante que sofreu o seu maior golpe, Portaria nº 34/75 de 13 de Dezembro. Do seu museu ocupar-me-ei na altura certa. Não faltará nem espaço, nem recursos. Preocupa-nos apenas o descaso do museu Roberto Duarte Silva em ruinas, um projecto de cariz mundial pelo percurso brilhante do químico: Povoação, Lisboa, Macau, Hong Kong, Paris (por ironia do destino também percorri esta mesma rota e sei o quão vale…), onde morreu como um dos mais célebres cientistas franceses e encontra-se sepultado no Cemitério do Montparnasse, na Cidade das Luzes. Ainda vamos a tempo. Nem sequer uma pequena divulgação para que a nossa diáspora possa ir chorar lá onde cada um sente mais a sua dor. Como se costuma dizer, um carro sem retrovisor corre certos riscos de acidente. A ilha precisa evocar a sua história, resgatar os seus valores sociais, económicos e de alta engenharia e lançar-se rumo ao futuro. Tem muito para dar ao arquipélago e ao mundo.

S. Vicente

A Ilha do Monte Cara, a ilha de uma das baías mais bonitas do mundo. A ilha mais cabo-verdiana de todas, onde na segunda metade do sec. XIX, mais precisamente a partir de 1850, as grandes companhias carvoeiras do chamado Reino Unido (Inglaterra) e pelo menos até 1890, Mindelo viveu um grande momento de opulência. E foi nesta bela cidade que cheira mar em todo o seu corpo, sob o testemunho do gigante adormecido que acordou nessa altura, que se deu o encontro entre cabo-verdianos de todas as ilhas, sobretudo de Santo Antão/S. Nicolau, Fogo e a ilha mentora da revolução industrial, a Grã-Bretanha. São Vicente é a ilha onde os poetas em 1936 deram luz ao projecto os Claridosos. Aquela em que os homens das ilhas impressionados pelo gigante adormecido, o Monte Cara, assustam-se com a presença do gigante e para disfarçar começam a musicar. Aconteceu com o B. Leza, mnine de soncent, com Manuel d’Novas vindo da Penha de França, Ribeira Grande de Santo Antão e Paulino Vieira vindo da Praia Branca, Ilha do Chiquinho. É precisamente neste palco que a morna ganhou relevo, um ritmo sensual que aproxima os corpos, cria saudades nas suas gentes, encurta os caminhos da terra longe, aproxima Lisboa, reconhece a amizade da Rainha Juliana, o amor exacerbado, projecta sonhos, parte corações e encanta a humanidade e por isso a morna já é Património Imaterial da Humanidade. E é neste torão que nasceu a Rainha da Morna que espalhou morna e charme pelo mundo e carregou nas costas essas ilhas tão pesadas até que um dia se cansou e caiu ao lado do seu gigante que tarda em acordar, erguer-se e eletrocutar economicamente a ilha. A Ilha do Carnaval, musicado alegremente por Constantino Cardoso (Mindelo), Anísio Rodrigues (Povoação), e Vlú (Ponta do Sol). O Carnaval, a indústria mais eficiente e eficaz do país, um espetáculo do povo, carregado de oxigénio económico, que dura 60 dias num ano e anima Mindelo.

Mindelo nasceu com o mundo e com o mundo triunfará. E esse dia não tarda porque o palco do Verão Jazz Festival já se encontra montado, a cidade passou a respirar Jazz nos Verões, restando apenas desenterrar as Cinzas da Cise, para que as cinzas da Rainha da Morna seja deitada ao mar e possa atrair os povos do mundo. Contudo, a ilha não deixa de ser um paradoxo económico, onde, em teoria, o sucesso financeiro das pessoas não é muito bem acarinhado, provavelmente um dilema do arquipélago digital. Uma ilha do Marketing por excelência devido à criatividade das suas gentes, mas só o Marketing social cria valor acrescentado porque a vertente comercial traz sempre desconfiança!

Com o passar dos tempos vai-se conhecendo a sua história económica. Vejamos, alguns casos gritantes: a companhia marítima Estrela Negra, brilhante projecto, mas os seus mentores que foram para o mar morreram afogados em dívidas…o padrinho do projecto Micá dos anos 80 destruído por mísseis invisíveis com consequências gravíssimas para a economia da ilha quando se podia negociar o incumprimento fiscal, o Carlos Alhinho e a sua Academia desportiva que se despediu do seu Mindelo de uma forma muito ingrata. E agora foi o Alex a partir. Mas é também a ilha adotiva dos bem-sucedidos financeiramente, aqueles que para terem sucesso terão de se esconder ou no mínimo manter-se muito indiscretos, o grupo Copa, o grupo Bento Lima & Filhos, o grupo Impar e o grande visionário das ilhas das montanhas que estabeleceu em Mindelo, Abílio Silva do Paúl, o maior investidor do país, tornou-se milionário pela sua visão, ousadia e determinação.

Queremos crer que a equação da descolagem da ilha pode ser mais fácil do que parece ser, sem, contudo, ter a pretensão de assumirmos como a varinha mágica que não existe na economia: como arranque, basta atrair/implantar na ilha dois hotéis com 500 quartos na totalidade e outros pequenos, que correspondem a mil camas em média e que implicaria cinco aviões por semana, no AICE, para que gotê de mane jon volta ta cme na gemada e toda a banana, hortaliça, queijo e grogue de Santo Antão certificado sejam vendidos facilmente nos empreendimentos hoteleiros para que haja o impacto económico desejado e tenham reflexo a nível do emprego e do rendimento das famílias nas ilhas irmãs. Nunca cansamos de propor esta equação. Poderá haver outras formas de resolução da equação, mas enquanto não forem apresentadas, ficamos à espera. Devido ao tempo perdido, tem que haver uma penicilina de reacção imediata. Contudo, a visão estratégica do todo é indispensável e fundamental. Sendo certo que a partir deste arranque pode-se continuar a estrada que será sempre longa e não em função dos ciclos quinquenais. Por isso é necessário arrancar com as fábricas de jovens produzindo softwares para o mundo, afinal do Monte Cara se vê o mundo. O investimento necessário procura-se e encontra-se, com a Estratégica correcta, o Marketing apropriado, com empenho, dedicação, seriedade, credibilidade e responsabilidade. Isto é tudo nosso e por isso há espaço para todos. Ora, é sempre bom escrever para que deixemos os nossos registos. Longe de nós querer corrigir ou ser professor, mas quem tem paixão e acredita tem mente fértil só que isto virou um custo nos dias de hoje.

S. Nicolau

Uma belíssima ilha chamada Ilha do Chiquinho, do Seminário de São José (1866/67-1917), de Paulino Vieira, a mim jam cria ser poeta pa fazeb um mar di poesia…que pelo seu isolamento é uma das ilhas mais preservadas a nível do património arquitetónico juntamente com a Ilha Brava. Encontra-se bem infraestruturada com estradas modernas, uma indústria pesqueira clássica e de referência internacional e um megaprojeto do Eng. Hidrogeólogo, Lucien Bourguet (seu gabinete está presente em Cabo Verde desde 1961) uma importante galaria que transformou Fajã de Baixo (uma autêntica tchada de outrora) num oásis de 54 hectares, um projecto sustentável, de referência mundial com impacto socioeconómico incomensurável.

A Ilha do Chiquinho aguarda neste momento apenas que seja conectada com o resto do país para que S. Nicolau passe a ser cantada de novo na rota da morna e do turismo.

Honra seja feita, a RTC tem sabido divulgar o encanto do seu Carnaval colorido que ano após ano tem vindo a encantar os seus filhos e sobretudo a sua grande diáspora e os turistas no geral. E foi por isso que a RFI decidiu divulgar a Ilha do Chiquinho e esse grandioso projecto. O futuro de São Nicolau é promissor. It’s time. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 946 de 15 de Janeiro de 2020. 

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Autoria:João Chantre,21 jan 2020 15:38

Editado porSara Almeida  em  3 abr 2020 23:21

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