Agriculturas

PorSónia Morais,15 set 2020 7:12

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Ainda tenho muito para aprender mas tenho para mim que jamais vou conseguir entender porque é que nos anos em que tchuva ‘n dá há pouca cana e nos anos em que chove muito há muita cana mas dá menos grogue porque cana ´n ta garduá, ou porque é que a mangueira nunca dá manga nenhuma excepto quando eu lá vou, o mesmo dizendo das papaieiras, do pé de fruta-pão ou dos coqueiros.

Segundo uma definição do Aibu, galão é um copo de leite onde se vai deitando café e às tantas vira galão. Pois eu também, de tanto ir a Santo Antão tratar de assuntos de umas terrinhas herdadas, às tantas dei comigo transformada em agricultora, mais concretamente produtora de grogue e café. Já aprendi muitas coisas, por exemplo, as medidas de café, cinco alqueires verdes em figo dão três alqueires secos que dão um alqueire descascado.

E como um alqueire são quatro quartas e uma quarta são dez litros, e um litro de café seco em casca dá ¼ de quilo de café esfarelado, um litro de café esfarelado dá 750 gr, certo? Errado. Graças a uma certa “astúcia”, digamos assim, dos lavradores de Santo Antão, nomeadamente do Paul, mais particularmente do Cabo de Ribeira, jamais consegui acertar nas contas do café, e apesar de todas as minhas engenharias e matemáticas nunca percebi porque é que os mesmos alqueires de café verde produzidos num ano depois de secos e descascados pesam sempre menos que no ano passado. Também aprendi, perplexa, que a trapichagem da cana se paga com a quinta que é a sétima (?!) parte da produção bruta da aguardente.

É claro que agora faz todo o sentido que cinco mangas formam um par e que o milho seja medido por mon de mi que são as palmas das duas mãos abertas e juntas. E já sei, dolorosamente, quanto custa despedrar um terreno para fazer um plar ou ptamar de cana e o que se enterra, literalmente, para sachar, mondar, cortar, apanhar, trapichar, alambicar a cana, guardar e transportar, até vender o grogue.

Ainda tenho muito para aprender mas tenho para mim que jamais vou conseguir entender porque é que nos anos em que tchuva ‘n dá há pouca cana e nos anos em que chove muito há muita cana mas dá menos grogue porque cana ´n ta garduá, ou porque é que a mangueira nunca dá manga nenhuma excepto quando eu lá vou, o mesmo dizendo das papaieiras, do pé de fruta-pão ou dos coqueiros... Ou ainda porque é que o mandiocal que estava tão bonito quando o vi, secou completamente com a aragem do mar assim que virei as costas. E não adianta mudar de lavrador, ia ser exactamente igual. Mas isso ainda não é nada. Só me sentirei agricultora completa quando fizer o tanque de rega, que a minha malta insiste em chamar de piscina, e entrar finalmente nas célebres guerras de água com a vizinhança (quase de certeza algum parente) ou com o mirim d’ága e aprender a discutir os dias de rega e as horas de levada.

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E se me perguntarem se tudo isso vale a pena vou responder que sim porque lá onde quer que estejam os meus avôs e avôas hão-de estar a aprovar (e certamente a gozar-me) por não deixar acabar em nada tudo aquilo por que tanto brigaram e posso-lhes garantir que vou resistir às pressões do meu lavrador e não lhe vou deixar nunca rendê c’um dôs sêquin d’ôçucra a minha aguardente de cana.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 980 de 9 de Setembro de 2020. 

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Autoria:Sónia Morais,15 set 2020 7:12

Editado porSara Almeida  em  20 set 2020 12:19

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